Para começar, são caras. Você não compra uma zero-quilômetro por menos de R$ 85 mil. Além disso, se você se deparar com uma estrada de terra realmente ruim, são difíceis de domar e, se tombarem, levantá-las é um sufoco. Por esses motivos eu sempre defendi que as melhores motos para os aventureiros que vão para lugares como Ushuaia ou Atacama são as motos de porte médio. São menores, mais leves, mais domáveis e mais fáceis - ou menos difíceis - de levantar em caso de tombos. E tombos, nessas aventuras, fazem parte...
A Honda XL750 Transalp - ou simplesmente Transalp 750 - foi lançada em novembro do ano passado. Cheguei a experimentá-la em circuito fechado, mas somente agora foi possível pilotá-la em seu habitat natural: um test-ride de 180 quilômetros pelas serras de Santa Catarina, inclusive subindo a famosa Serra do Rio do Rastro com suas 284 curvas entre as cidades de Lauro Müller e Bom Jardim da Serra.
Transalp 750 é a "média" que resolve tudo
Nesse rolé, que foi uma experiência incrível, pude confirmar minha teoria: o caminho do meio é realmente melhor. Na linha Honda, a Transalp 750 fica posicionada entre a menor NX500 e a maior CRF 1100L Africa Twin. E é exatamente o que o aventureiro sobre duas rodas precisa para curtir bem a viagem sem passar perrengue.É uma moto ainda relativamente grande, alta e pesada. Mas nem tanto: tem 193 quilos a seco, que chegam perto dos 210 quilos em ordem de marcha, e banco a 85,5 cm do solo. Uma NX500 pronta para rodar bate nos 200 quilos e o banco está a 83,4 cm do solo, enquanto a Africa Twin mais leve parte de uns 237 quilos com banco a 85 cm do solo. Ou seja, a diferença da Transalp para a NX500 é pequena, mas para a Africa Twin é significativa.
Mais do que especificações interessantes - mas também por causa delas -, a Transalp exibe um comportamento dinâmico fascinante. É uma típica moto da Honda: tem ergonomia bem-resolvida e bom nível de conforto (apesar do banco, que poderia ser mais macio), e é previsível, fácil de pilotar e dócil.
Eventuais picos muito altos de emoção e adrenalina dão lugar a disciplina, segurança e facilidade no manejo. Mas a moto proporciona certos momentos de entusiasmo: o motor de 755 cm³ rende 69,3 cv de potência a 7.000 rpm e torque de 7 kgfm nas mesmas 7.000 rpm.
Mas, nestes intervalos de potência e torque, "desperta" nas 4.000 rpm e, quando chega nas 6.000 rpm, surpreende novamente com outra injeção inesperada de fôlego. Nada é por acaso: como é um motor "superquadrado", com diâmetro maior que o curso, o rendimento é melhor em altos giros.
A Transalp, porém, não é para acelerar forte. Claro que isso é possível, mas aqui o barato é a sensação de "vestir" uma moto que parece um terno feito sob medida e viajar com aquela certeza de que você vai chegar seguro e inteiro ao destino.
A posição de pilotagem é ótima, com pés bem apoiados em pedaleiras que estão na reta dos quadris, tronco ereto e braços que encontram naturalmente os punhos. Mesmo depois de muitos quilômetros o corpo não sente cansaço, embora - como eu disse antes - o banco pudesse ser um tantinho mais macio.
As suspensões trabalham com eficiência e as frenagens são sempre seguras. As curvas também são feitas com muita segurança, mas vale ressaltar que é preciso inclinar bem a moto - e a sensação, como em qualquer big trail, é de um veleiro adernando em mar revolto. Mas não há sustos nem preocupações.
Estrada, perímetro urbano, terra batida e serra: a Transalp 750 vai bem em tudo
Durante o test-ride, passamos por estradas asfaltadas, um trecho de 20 quilômetros de terra batida com certas partes cheias de cascalho solto - mas sem grandes desafios, ainda bem -, perímetros urbanos cheios de quebra-molas e, finalmente, a subida da Serra do Rio do Rastro.Em nenhum momento a Transalp deixou a desejar. No asfalto, viajou a 120 km/h com sobra de força para eventuais ultrapassagens ou escapadas de situações de emergência, e o para-brisa cumpriu muito bem sua função de proteção aerodinâmica sem turbulência - o que dá um reforço no conforto.
Em perímetro urbano, a moto sofreu um pouco. Não é sua praia, pois devido ao tamanho e ao peso exige certo cuidado nos corredores. Mas também não senti grandes dificuldades para "rebolar" entre os carros.
Para rodar na terra, a Transalp exigiu apenas os cuidados normais e o setup do modo de condução adequado - a moto tem seis, sendo quatro fixos e dois personalizáveis. Os ajustes são feitos por um "joystick" no punho esquerdo, e é preciso se habituar às seleções e "enters" para tudo dar certo. Além disso, a condução "em pé" na moto, algo habitual no off-road, foi bem fácil, e a distância livre do solo de 21,2 cm é mais que suficiente para não raspar o fundo mesmo em situações severas.
E na subida da serra a moto exibiu um comportamento absoluto neutro: apenas exigiu trocas de marchas mais constantes, já que é um trecho particularmente lento. Zero problema ali. Dois detalhes importantes, que costumam passar despercebidos nas análises dinâmicas: os espelhos são eficientes e a capa do banco é bem aderente e não deixa o piloto escorregar.
Se eu tivesse feito esse mesmo trajeto com a NX500, teria sentido alguma eventual falta de força nos trechos de asfalto mais velozes, percorrido os trechos urbanos com mais facilidade e sofrido um pouco na terra - o modelo não é muito adequado a isso, principalmente devido às suspensões relativamente rígidas e às rodas de liga leve. Na serra, teria sido necessário enrolar mais o cabo.
Já com a Africa Twin eu teria tido bem mais força de sobra no asfalto. Mas teria sofrido muito em ambiente urbano e na terra por conta do peso. Na serra, teria sido necessário mais "jogo de corpo" pelo mesmo motivo, o que implica em mais cansaço. Resultado? A Transalp, como caminho do meio, é a melhor opção.
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Especificações técnicas de alto nível
E até aqui falei apenas de comportamento dinâmico. Se você ainda tem dúvidas, vale a pena analisar as especificações técnicas da Transalp. Confira abaixo as principais características:- Motor bicilíndrico em linha de 755 cm³ refrigerado a água com comando simples
- Potência de 69,3 cv a 7.000 rpm e torque de 7 kgfm a 7.00 rpm
- Picos de desempenho nas 4.000 rpm e nas 6.000 rpm
- Câmbio convencional de seis marchas com secundária por corrente
- Embreagem assistida e deslizante
- Freios com ABS, desligável na roda dianteira dependendo do modo de condução
- Seis modos de condução, sendo quatro fixos e dois personalizáveis: Sport, Standard, Rain, Gravel, User 1 e User 2
- Para-brisa em resina sustentável Durabio
- Iluminação full-LED
- Painel de TFT de cinco polegadas com setups via "joystick" no punho esquerdo
- Alerta de frenagem de emergência (ESS) a partir de 56 km/h
- Piscas com desligamento automático
- Chassi com apenas 18,3 quilos - 10% mais leve que o da NX500
- Freios com disco duplo com dois cálipers na frente e disco simples com um cáliper atrás
- Suspensão dianteira invertida invertida Showa SFF-CA de 43 mm, 20 cm de curso e ajuste na pré-carga da mola
- Suspensão traseira monochoque Showa Pro-link com reservatório externo, ajuste na pré-carga e 19 cm de curso
- Mesas superior e inferior de alumínio
- Rodas raiadas pintadas em dourado com pneus de uso misto nas medidas 90/90 R21 na frente e 150/70 R18 atrás (usam câmaras)
O preço é alto. Vale a pena?
Como quase todas as motos vendidas no Brasil - ainda mais da Honda -, a Transalp não é barata. O preço público sugerido (PPS), sem frete, seguro ou ágio, é R$ 65.545. Ou seja, quase R$ 20 mil a mais que a NX500 e quase R$ 20 mil a menos que a CRF 1100L Africa Twin mais em conta. Na sua garagem, com os "custos extras" mencionados acima, periga bater nos R$ 70 mil. Vale a pena?Bom, mesmo com os "custos extras" eu diria que sim. Isso porque é uma moto que entrega muito. É confortável, versátil, bonita, completa e segura. Não tem as limitações da irmã menor ou da irmã maior. É a big trail que vai te proporcionar diversão com segurança como poucas motos fazem.
E, além disso tudo, ainda te permitirá desfilar bonito. Não que seja uma moto particularmente bela - pelo contrário, não tem lá detalhes estéticos que impressionem. Mas o conjunto é harmonioso e imponente, e até chama a atenção. Isso tudo tem um preço.
Pelo menos junto com esse preço vêm a garantia de três anos e o serviço Honda Assistance pelo mesmo período - com validade no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai. As cores disponíveis são a branca perolizada com detalhes em azul e a preta metálica - que, se não é lá muito tradicional nas motos da Honda, ficou particularmente bonita e impressionante.
Quer uma moto mais para viajar do que para o dia a dia? Entre NX500, XL750 Transalp e CRF 1100L Africa Twin, eu recomendo - para quem tem o orçamento necessário - a do meio. É certeza de ser feliz.
Linha de acessórios exclusivos
A Honda XL750 Transalp pode receber uma boa lista de acessórios originais Honda. Com eles, as viagens certamente serão mais confortáveis e seguras - mas prepare o bolso, porque não são exatamente baratos (preços devem ser conferidos nas concessionárias). Veja abaixo os acessórios disponíveis:- Faróis de neblina de LED
- Top box traseiro para 50 litros
- Malas laterais com 26 litros (lado direito) e 33 litros (lado esquerdo)
- Cavalete central
- Protetor do motor
- Pedaleiras de rally
- Protetores de manoplas
- Protetor de cárter
- Suportes laterais das malas
- Protetores de carenagens
- Suporte do top box traseiro
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