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Kombi elétrica dá volta ao mundo e faz história

Alemão cruzou 78 países com uma Volkswagen ID. Buzz, a Kombi elétrica, e tenta entrar para o Guinness

por Marcelo Monegato

Durante anos, carros elétricos conviveram com uma série de dúvidas: eles conseguem enfrentar longas viagens? Como é lidar com a infraestrutura de recarga em países menos desenvolvidos? É possível cruzar continentes sem depender de uma logística complexa? Seria possível dar uma volta no planeta com uma Kombi elétrica? Enquanto essas perguntas alimentam debates entre entusiastas e críticos da eletrificação, um alemão resolveu respondê-las da forma mais convincente possível: ele pegou uma Volkswagen ID. Buzz, a Kombi elétrica da nova geração, e foi embora dar uma volta ao mundo. Será que deu certo?


Volta ao mundo de Kombi elétrica

O protagonista dessa história é Rainer Zietlow, aventureiro de 56 anos que está prestes a adicionar mais um capítulo impressionante à carreira. Desde julho de 2025, cerca de um ano atrás, ele percorre o planeta a bordo de uma Volkswagen ID. Buzz, a releitura elétrica da clássica Kombi, em uma expedição que deve superar 80 mil quilômetros, passar por 78 países e garantir mais um espaço no Guinness Book [sim, "mais um", e você entenderá isso no final do texto].
Depois de cruzar Europa, Ásia, Oceania, África e Américas, Zietlow desembarcou recentemente no Brasil, em uma das últimas etapas da jornada - e a reportagem do WM1 teve a oportunidade de se encontrar e conversar com ele nesta quinta-feira (23), em São Bernardo do Campo (SP), onde fica uma das fábricas e a sede da Volkswagen no país.
O roteiro do alemão incluiu até agora países como China, Tailândia, Singapura, Austrália, Estados Unidos, México, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e, agora, Brasil - além de diversos outros de menor relevância, mas que precisaram passar pelo registro de Zietlow (com fotos e documentos assinados por testemunhas) para que ele pudesse receber o título do recorde do Guinness.
A próxima parada será o porto de Santos (SP), onde a ID. Buzz será embarcada rumo ao Marrocos. De lá, Zietlow ainda deve cruzar o estreito de Gibraltar, "descer" pelo sul da Europa até a Turquia, marcar um "checkpoint" no Oriente Médio e voltar para a Alemanha, para aí sim finalizar o rolê.

Onde ele carrega a ID. Buzz?

A logística da aventura impressiona tanto quanto a quilometragem acumulada. Para levar o veículo entre os continentes, foram necessários até agora 16 embarques em contêineres. Já nas estradas, praticamente tudo aconteceu sobre as próprias rodas da van, que enfrentou desertos, montanhas, regiões geladas, grandes metrópoles e áreas onde encontrar um carregador era uma missão quase tão difícil quanto cruzar a fronteira seguinte.
"Eu recebi grande suporte da Volkswagen por todo o planeta e não foi difícil aprender a confiar na Kombi elétrica, já que ela realmente informava no painel a exata quantidade de quilômetros que me restava. Muitas vezes, o trabalho mais difícil era justamente a parte burocrática de alguns cruzamentos de fronteira", revela Zietlow.
A Volkswagen ID. Buzz utilizada na expedição é original e permaneceu dessa maneira durante todo o percurso. A única diferença feita pelo alemão foi instalar um colchão na parte traseira para descansar durante as recargas mais demoradas. Fora isso, motor, bateria, suspensão e demais componentes são os mesmos que saíram da fábrica.
Talvez por isso o dado mais surpreendente seja justamente o índice de confiabilidade. Depois de aproximadamente 80 mil quilômetros rodados, Zietlow revelou que só teve um pneu furado e que precisou fazer uma troca preventiva do conjunto de pneus. Nenhuma pane mecânica interrompeu a "trip".

Os maiores desafios vieram justamente da infraestrutura. Em algumas regiões da África, por exemplo, Zietlow precisou recorrer a tomadas industriais ou instalações improvisadas para conseguir recarregar a bateria. Em diversas ocasiões, chegou aos pontos de recarga com 1% de energia restante, situação que exigia planejamento praticamente milimétrico.
Em contrapartida, a experiência na China chamou atenção pelo motivo oposto: segundo o alemão, o país oferece uma das melhores redes de carregamento que encontrou durante a expedição, com estações rápidas espalhadas por praticamente todas as regiões percorridas.
Mas nem tudo é perfeito. Segundo Zietlow, na China, na Rússia e no Irã a internet móvel da Kombi elétrica da rede Starlink, que utiliza satélites da companhia aeroespacial SpaceX, não funcionou. Foram dias sem contato fácil com sua esposa e seu filho, de 14 anos - que tinha 13 quando o pai saiu de casa.
Também houve outros problemas, mas sem envolver o carro. Em diversas fronteiras, o alemão precisou convencer autoridades alfandegárias de que possuía autorização para dirigir a Kombi elétrica. Isso porque a ID. Buzz pertence oficialmente à Volkswagen alemã e não está registrada em seu nome, situação que despertou dúvidas em agentes de imigração.
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Mais voltas ao mundo

Sob o assoalho da Kombi elétrica está uma bateria de 86 kWh que alimenta um motor traseiro de 286 cv de potência e 57,6 kgfm de torque. Pelo ciclo europeu WLTP, a autonomia chega a 487 quilômetros. Na prática, Zietlow revelou que costumava rodar cerca de 400 quilômetros antes de procurar uma nova recarga, distância suficiente para manter um ritmo constante na viagem.
Embora a expedição com a ID. Buzz tenha chamado atenção do mundo inteiro, a verdade é que Rainer Zietlow faz esse tipo de aventura há muito tempo. Muito antes de os carros elétricos se tornarem realidade, ele já colecionava viagens improváveis e recordes que transformaram seu nome em referência quando o assunto é resistência automotiva.
Sua história começou ainda na década de 1980. Em 1988, atravessou o Deserto do Saara pela primeira vez, experiência que despertou o interesse por grandes expedições.
Dois anos depois repetiu a aventura e, em 1996, decidiu ir além: deu a volta ao mundo dirigindo um Land Rover Defender. Segundo ele, a viagem mudou sua vida e mostrou que era possível transformar aventuras automobilísticas em profissão.
Foi justamente dessa experiência que nasceu, alguns anos depois, a Challenge4, empresa criada por Zietlow para organizar expedições internacionais e desenvolver projetos especiais para fabricantes de automóveis.
A ideia era simples: em vez de apresentar um novo veículo apenas em pistas de testes, por que não levá-lo aos ambientes mais extremos do planeta?
A proposta chamou a atenção da Volks. A parceria entre ele e a marca alemã se consolidou e, desde então, praticamente todas as grandes expedições de Zietlow passaram a envolver modelos da marca.

Primeiro modelo ID
Ao longo das últimas duas décadas, o alemão cruzou continentes a bordo de modelos da Volkswagen como Amarok, Touareg, Tiguan e, mais recentemente, a van da família elétrica ID. Em praticamente todos os casos, o objetivo era estabelecer algum tipo de recorde mundial ou demonstrar a resistência dos veículos em condições extremas.
Uma das primeiras grandes façanhas aconteceu com a Amarok: o aventureiro percorreu a Rodovia Pan-Americana, considerada a estrada mais longa do planeta, ligando o Alasca (EUA) à Ushuaia (Argentina), a Terra do Fogo, em tempo recorde. Dezenas de milhares de quilômetros com neve, calor extremo, altitudes elevadas e mudanças bruscas de clima quase todos os dias.
Em outro desafio marcante, utilizou um Volkswagen Caddy movido a gás natural para dar a volta ao mundo, para mostrar que combustíveis alternativos poderiam ser utilizados muito antes da eletrificação ganhar força no mercado.
Os desafios, dessa forma, ficaram ainda mais ousados com o avanço dos carros elétricos.
Quando a Volkswagen iniciou sua ofensiva global de eletrificação, Zietlow passou a utilizar os modelos da linha ID. para demonstrar que a tecnologia já era capaz de enfrentar jornadas que antes pareciam impossíveis.
Um dos projetos mais conhecidos aconteceu com o SUV ID.4: em vez de buscar distância, o objetivo era altitude. O alemão levou o modelo até um vulcão chamado Uturuncu, na Bolívia, e alcançou mais de 5.800 metros acima do nível do mar com o carro, para estabelecer um novo recorde reconhecido pelo Guinness para EVs.
Pouco tempo depois, cruzou os Estados Unidos percorrendo mais de 58 mil quilômetros com outro ID.4. Em seguida, realizou uma travessia do Canadá utilizando só 18 recargas rápidas, para provar que planejamento pode compensar limitações de infraestrutura.
Outro projeto curioso aconteceu na Austrália. Com uma Volkswagen Amarok e um GPS, percorreu milhares de quilômetros para "desenhar" o logotipo da Volks sobre o mapa do país. A enorme imagem virtual entrou para o Guinness como a maior já criada por um veículo rastreado via GPS.
Ao todo, Zietlow acumula oito recordes homologados pelo Guinness World Records e dezenas de outras marcas reconhecidas por diferentes organizações. Mais que números, porém, ele diz que cada expedição serviu para testar tecnologias diferentes, conhecer culturas e mostrar como o automóvel pode ser uma ferramenta de integração entre países completamente distintos.
Um aspecto curioso é que Zietlow raramente encara suas viagens como competições de velocidade. Ao contrário dos ralis tradicionais, em que o cronômetro é o principal adversário, suas expedições dependem mais de planejamento, documentação, logística internacional e capacidade de adaptação.

Veja também

Por isso, embora o carro seja protagonista das aventuras, o planejamento costuma começar meses antes da partida. Cada país exige regras diferentes para entrada do veículo, documentação específica, autorizações temporárias e, em alguns casos, seguros próprios. Boa parte do trabalho da Challenge4 acontece justamente nos bastidores, preparando uma viagem que, para o público, parece acontecer de forma natural.
É justamente essa experiência acumulada em quase quatro décadas que ajuda a explicar por que a atual viagem da Volkswagen ID. Buzz tem um significado especial.
Diferentemente dos desafios anteriores, o objetivo agora não é apenas estabelecer mais um recorde: a expedição funcionou como uma demonstração prática de que os carros elétricos conseguem enfrentar viagens internacionais de longa distância sem qualquer adaptação estrutural relevante.
Para isso, bom planejamento continua sendo indispensável, principalmente em regiões onde a infraestrutura de recarga ainda está em desenvolvimento. A aventura de Zietlow mostra que a principal barreira deixou de ser tecnológica e passou a ser logística.
No fim das contas, a maior conquista de Rainer Zietlow talvez nem seja o novo espaço reservado no Guinness. Depois de quase 40 anos nessa eterna viagem, ele segue fazendo exatamente o que começou em 1988: provar que sempre existe um caminho para seguir em frente.
Desta vez, porém, em silêncio, impulsionado apenas pela energia armazenada na bateria de uma Kombi elétrica que acaba de escrever mais um capítulo na história da mobilidade. Zietlow tem oito títulos do Guinness World Records, o Guinness Book. Com a Kombi elétrica, deve chegar a nove.
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