Lingotto era uma fábrica vertical. Os carros começavam a ser produzidos nos andares inferiores do edifício e iam subindo até chegarem prontos no oval, onde encaravam os testes de rodagem em uma pista de 1.500 metros antes de seguirem para as lojas.
De lá saíram modelos icônicos para a história do Grupo , como o Fiat 500 "Topolino" dos anos 1930 e até mesmo algumas unidades do Lancia Delta, hatch que foi o último modelo produzido por lá e que ficaria muito famoso nos anos 1980 em suas versões preparadas para rally.
O jardim suspenso de Lingotto
Mas os tempos mudaram. A fábrica ficou obsoleta e acabou transformada em um belíssimo edifício multiuso, que hoje inclui até um shopping e a Casa 500, um espaço que conta a história local e internacional da Fiat - inclusive, aqui no Brasil. E que engloba, também, o traçado de teste, agora chamado de Pista 500 e com uma existência bem mais lenta - e menos industrial - que no passado.É que a pista virou um misto de parque e instalação artística. Digo mais: é o maior jardim suspenso da Europa, com mais de 40 mil plantas nativas e aberta normalmente apenas para caminhadas e momentos de relaxamento. Mas que, em setembro do ano passado, a Stellantis liberou para que um pequeno grupo de jornalistas brasileiros pudesse guiar por lá.
A minha escolha foi um Fiat 600 azul clarinho, elétrico. Uma espécie de irmão maior do 500 e que dá para chamar também de primo italiano do recém-lancado Jeep Avenger.
Mas não fazia diferença escolher algo mais forte. Afinal, era um passeio limitado a 20 km/h. Um daqueles momentos de poucos minutos, feitos para contemplar mais o passeio - e a paisagem - que o carro.
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Carros e pessoas
Pode parecer paradoxal para alguém como eu, acostumado a guiar carros como ofício.Mas é em momentos como esse, guiando a 20 km/h entre flores e obras de arte, em uma pista para lá de icônica - e não guiando um carro de 500 cv de potência em um autódromo -, que eu tenho certeza de que os carros não são só carros.
Sem precisar se preocupar com pontos de tangência e de frenagem, foi como se um filme passasse na minha cabeça. Comecei curtindo cada vibração do piso e a bizarra sensação de se estar dirigindo em um pedaço do céu.
Mas me lembrei também das revistas devoradas e dos passeios aos salões e showrooms de concessionárias. Recordei o 147 azul presente nas fotos do meu primeiro aniversário e do racional e guerreiro Siena Fire que aguentou tudo quando nada mais dava certo.
Lembrei do meu pai. Que não era exatamente um fã dos Fiat, mas amava carros e - certamente - teria ficado completamente maluco sabendo que eu guiei em Lingotto. Em minutos, a minha mente foi desse pedaço da Itália até o Brasil, se entrelaçando com a história da própria Fiat no mercado brasileiro.
Como eu falei anteriormente, os carros não são apenas carros. Eles funcionam como máquinas de memórias. Nessas cinco décadas levando os brasileiros, era inevitável que os Fiat entrassem na minha trajetória e nas de milhões de outros brasileiros.
Há quem acredite que os automóveis são tecnologia, mobilidade. Ou tudo isso junto. Já os mais espiritualizados dizem que essas máquinas têm alma. Mas eu não sou tão espiritualizado assim. Para mim, os automóveis são histórias, trajetórias. E essas histórias se grudam com as nossas de um jeito difícil de descolar.
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