As (bem) poucas opções de Sebastian Vettel

Ou o tetracampeão aceita a oferta da Ferrari, ganhando menos, ou vai para a Renault, na troca de posição com Ricciardo

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Livio Oricchio
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Mattia Binotto, diretor da Ferrari, aproveitou que a pandemia do coronavírus não permitiu ainda o início do campeonato para chamar seu piloto Sebastian Vettel para uma boa conversa. O contrato do alemão de 32 anos, já quatro vezes campeão do mundo, de 2010 a 2013, pela Red Bull, termina no fim do ano.

O objetivo do encontro foi saber o que Vettel quer fazer da vida. E lhe comunicar o que a Ferrari deseja dele, este ano, e o quanto pode oferecer no futuro. Binotto queria deixar bem claro, também, que o novo compromisso, caso Vettel deseje seguir na equipe, teria bases muito distintas do assinado em 2017 para valer até o fim deste ano.

Em 2017, a Ferrari deu a Vettel um contrato de três anos, cujo valor tornou-se público: 100 milhões de euros, R$ 570 milhões, algo como 33 milhões de euros, R$ 188 milhões, por temporada. Um caminhão de dinheiro.

Mas fazia certo sentido. Vettel venceu naquele ano, 2017, cinco etapas e liderou o campeonato até o GP da Itália, 13º do calendário. Era o líder do grupo. O companheiro, Kimi Raikkonen, perdia regularmente a disputa para Vettel, tanto nas sessões de classificação quanto nas corridas. Lewis Hamilton, da Mercedes, acabou conquistando o título.

O cenário hoje na Ferrari é bem diferente para Vettel. Os italianos promoveram no começo do ano passado o jovem monegasco Charles Leclerc à condição de titular da equipe.

Ele é dez anos mais jovem que o alemão. Como piloto da academia da Ferrari, o supertalentoso Leclerc foi campeão da GP3, em 2016, e da GP2, em 2017, em seus anos de estreia nas duas categorias. Um fenômeno.

Erros comprometedores

O resultado foi que Vettel se perdeu emocionalmente, em 2019, diante da velocidade e mesmo eficiência global de Leclerc - apesar de ser seu primeiro ano em um time vencedor. Vettel cometeu vários erros. O maior deles, em Interlagos, ao ter maior responsabilidade no choque com Leclerc, levando-os a abandonar o GP Brasil.

Na luta por melhor colocação no grid, o placar ficou 11 a 9 para o monegasco. Em condição de corrida, Leclerc terminou o mundial em quarto, com 264 pontos, duas vitórias. Vettel, quinto, 240 pontos, uma vitória.

Vettel era o senhor feudal da Ferrari até o campeonato anterior, 2018. Veja: ganhou fácil a luta com Raikkonen por melhor colocação no grid, 17 a 4. Aos domingos, enquanto Vettel foi vice-campeão do mundo, com 320 pontos, 5 vitórias, Raikkonen foi terceiro, com 251 pontos, uma vitória.

Cartas da mesa

Foi importante expor esse quadro porque Vettel tem consciência de que Binotto, apesar de provavelmente não lhe ter dito, sabe melhor do que nós de tudo isso. Em resumo, o valor do passe de Vettel caiu muito. A Ferrari já tem outro piloto capaz de, com um bom carro, levá-la a vencer corridas e disputar o título.

O que ajudou muito Vettel se desestabilizar no ano passado foi o fato de ele receber nada menos que dez vezes mais ao pago a Leclerc no ano de estreia na Ferrari. E corresponder bem menos na pista. Seu contrato, como mencionado, era de 33 milhões de euros, R$ 188 milhões, enquanto o de Leclerc, não mais de 3 milhões, R$ 17 milhões.

Sebastien Vettel no GP de Cingapura no
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Legenda: Sebatien Vettel comemora a vitória no GP de Cingapura 2019: alemão tem poucas opções na F1
Crédito: Divulgação

Pois dois dias antes do Natal de 2019, a Ferrari anunciou que renovou o contrato de Leclerc por mais cinco anos, até o fim de 2024. Não revelou o valor, como de praxe, mas no paddock da F1 a informação - provavelmente procedente - é de que seja de 100 milhões de euros, R$ 570 milhões, o que daria 20 milhões de euros, R$ 114 milhões, por temporada.

Segundo indiscrições do paddock, esse foi o valor oferecido por Binotto a Vettel, 20 milhões de euros, e por um contrato de apenas um ano. A constatação de que Leclerc poderá produzir mais que Vettel para a Ferrari fez com que Binotto reduzisse consideravelmente o valor e tempo do contrato.

Ricciardo, o concorrente

Há um outro fator bem relevante para explicar a mudança de postura de Binotto. O australiano Daniel Ricciardo, 30 anos, tem contrato com a Renault somente até o fim do ano. Ele está livre para negociar seu futuro a partir de 2021. E Ricciardo é um sonho antigo dos italianos. Bem como a Ferrari faz parte do planos de Ricciardo há muito.

O destempero de Vettel para lidar com um companheiro mais eficiente que ele, como foi o caso de Leclerc no ano passado, causou problemas de relacionamento entre ambos, difíceis de serem administrados por Binotto, e mesmo grande prejuízo a Ferrari.

Ricciardo seria possivelmente um piloto tão ou mais eficiente que Vettel. E seu histórico sugere ser um profissional menos complexo de ser gerido do que o alemão, sempre ávido por demonstrar a todos que não foi tetracampeão do mundo por acaso -especialmente quando se envolve em uma luta na pista. Seus erros comprometedores acontecem, com regra, nesses instantes.

O valor do contrato de Ricciardo com a Renault acabou sendo revelado no ano passado quando o ex-conselheiro lhe cobrou uma comissão na justiça. É de 48 milhões de euros, R$ 273 milhões, pelas temporadas de 2019 e 2020, ou 24 milhões de euros, R$ 136 milhões, por ano.

Repare que é pequena a diferença entre o que Ricciardo recebe da Renault e a Ferrari lhe ofereceria, caso mantenha a política e o valor do contrato ser o mesmo de Leclerc, como é bem provável. Parece possível que o próprio Ricciardo concordaria em ganhar um pouco menos.

A perspectiva de melhores resultados na Ferrari, bem como de realizar o seu sonho e da família italiana, provavelmente levaria Ricciardo a não criar problemas para a transferência.

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Legenda: Sebatien Vettel e Charles Leclerc: alemão não foi tão eficiente como o companheiro de equipe
Crédito: Divulgação

Você viu como Vettel está em uma posição frágil para negociar com Binotto? Além de sua liderança e capacidade de produção não serem mais imprescindíveis, por causa da presença sólida, agora, de Leclerc, se Vettel não aceitar a oferta da Ferrari Binotto tem outro piloto, de elevado quilate, pronto para aceitar o convite, Ricciardo.

E com a vantagem de permitir a Binotto administrar melhor a esperada disputa com Leclerc. Bem, ao menos na teoria.

Sem opções

Vettel sabe, por sua vez, que se não aceitar a oferta da Ferrari suas opções não são muitas. Na Mercedes, dificilmente Toto Wolff o colocaria ao lado de Lewis Hamilton em 2021, caso Valtteri Bottas não dispute este ano um bom campeonato. Ele tem um piloto, da academia da Mercedes pronto para assumir, o talentoso George Russell, 22 anos, hoje na Williams.

Na Red Bull, Christian Horner e Helmut Marko são inteligentes para não contratar um piloto capaz de desestabilizar o excelente Max Verstappen. Não necessitam de Vettel, mas apenas de um bom piloto, e de fácil gestão, para ser o companheiro do holandês, como parece ser Alexander Albon.

Há mais a ser dito nessa hipótese quase fantasiosa de Vettel ser candidato a Red Bull em 2021: se com Leclerc, na Ferrari, a luta já foi profundamente desgastante, na Red Bull, tendo como companheiro Max, o alemão perderia ainda mais cabelos do que vem perdendo. O próprio Vettel não deve sequer cogitar essa possibilidade.

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Legenda: Leclerc vitorioso no GP da Itália 2019: disputa interna com o jovem piloto desgastou Vettel na Ferrari
Crédito: Divulgação

Milionário, Vettel é muito ligado à família. Tem três filhos. Duas meninas e um menino nascido em novembro de 2019. É bastante conservador, a ponto de não se interessar por mídias sociais e levar uma vida relativamente espartana na Suíça, onde vive.

Com tudo isso, Vettel não precisaria se expor dessa maneira ao confrontar seu trabalho com a pródiga geração de futuros campeões existente hoje na F1.

Sua real capacidade vem sendo questionada desde 2014, quando, depois de conquistar os quatro títulos mundiais, Vettel teve como companheiro, na Red Bull, Ricciardo, e perdeu a batalha por larga margem, nas classificações e corridas.

Franceses têm interesse

Você já enxergou que se Mercedes e Red Bull têm as portas fechadas para Vettel, suas opções para 2021 são, a rigor, apenas duas? Uma é aceitar a importante redução no valor do contrato proposto pela Ferrari, de 33 para 20 milhões de euros, e ainda o período do contrato, um ano, apenas.

A outra possibilidade é levar a sério o que Cyril Abiteboul, diretor da Renault, disse quando lhe perguntaram se Vettel era uma alternativa interessante se Ricciardo não renovasse o contrato e fosse para a Ferrari. “Sim”. O alemão provavelmente aceitaria o mesmo valor pago ao australiano, 24 milhões de euros por ano.

Tem mais uma coisa. Deve com certeza passar pela cabeça de Vettel que o desafio de ter Esteban Ocon como companheiro, na Renault, é bem menor de o imposto por Leclerc na Ferrari. Acredite que esse pode ser um fator decisivo na escolha de Vettel se as conversas de Ricciardo com a Ferrari avançarem.

Esse arranjo, a troca de Vettel por Ricciardo entre as duas equipes, Ferrari e Renault, faz sentido. Atende a uma série de interesses e o momento dos contratos dos dois pilotos permite a transação sem pagamento de multas rescisórias, quase proibidas na F1, hoje, por conta do menor dinheiro circulante, decorrente da pandemia do coronavírus.

As negociações podem até tomar rumos opostos, como Vettel aceitar tudo o que os italianos lhe estão impondo, ou mesmo Ricciardo renovar com os franceses por mais um ano. Obviamente pode acontecer. Mas pela lei das probabilidades, as chances da transferência de ambos são maiores.

Para a F1 uma mexida dessas seria muito bem vinda.

 

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