Red Bull e Racing Point podem ser surpresas da F1

Entenda o momento favorável das duas equipes, bem como as chances de McLaren, Alpha Tauri e Williams na temporada 2020

  1. Home
  2. Automobilismo
  3. Red Bull e Racing Point podem ser surpresas da F1
Livio Oricchio
Compartilhar
    • whats icon
    • bookmark icon

Ontem nós falamos em que contexto está inserida a temporada que vai começar no fim de semana, na Austrália. Com destaque para o imenso desafio, de engenharia e financeiro, para as equipes trabalharem no desenvolvimento dos carros deste ano e, ao mesmo tempo, no complexo projeto de 2021, quando quase tudo será diferente na Fórmula 1.

Viajamos pelos boxes de cinco equipes para entender o que podem fazer no início do campeonato, Mercedes, Ferrari, Renault, Alfa Romeo e Haas. Hoje, no segundo e último capítulo da série, abordaremos as demais: Red Bull, McLaren, Racing Point, Alpha Tauri (novo nome da Toro Rosso) e Williams.

Lembrando que, com a diferença de 14 horas entre o fuso horário de Melbourne e Brasília, os primeiros treinos livres da etapa de abertura do 71º mundial da história da F1 começam às 22 horas da quinta-feira (12/3), 12 horas de sexta-feira (13/3) no Circuito Albert Park, na Austrália. A sessão de classificação, no sábado (14/3), será às 3 horas, e a corrida, no domingo (15/3), às 2h10, horários de Brasília.

Red Bull

Era esperado que, tanto os engenheiros de Newey na Red Bull, quanto os de Toyoharu Tanabe, na Honda, produzissem um carro ainda mais eficiente que o de 2019, vencedor de três etapas com o excelente Max Verstappen. Este é o segundo ano da parceria entre a escuderia austríaca e a montadora japonesa.

Os seis dias de treinos, em Barcelona, indicaram que esse foi mesmo o caso. Max e seu companheiro, Alexander Albon, definiram o RB16 como melhor em todos os parâmetros em relação ao monoposto de 2019.

E ambos ressaltaram a confiabilidade do conjunto, sem nenhum problema maior nas duas séries de treinos no Circuito da Catalunha, de 19 a 21 e de 26 a 28 de fevereiro. A Honda substituiu uma unidade motriz, na primeira série, mas, preventivamente, não apresentou pane irreparável.

Como explicamos ontem, a Mercedes surpreendentemente teve cinco quebras de unidades motrizes (motores), três no modelo W11 de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas e duas no FW43, da Williams. Essa perda de confiabilidade do carro da Mercedes lança sobre a fase inicial do mundial uma série de dúvidas.

Se não forem resolvidas para o GP da Austrália, por exemplo, a Red Bull pode tirar vantagem. Isso porque nos treinos de inverno o modelo RB16-Honda mostrou-se mais resistente, embora sob temperaturas baixas, cenário diferente dos quase 25 graus previstos para Melbourne no fim de semana.

Max e Albon aceleraram na segunda série de treinos, em Barcelona, a versão do carro que vão utilizar no GP da Austrália. Reconheceram seu avanço. Newey, como de hábito, concebeu um conjunto aerodinâmico notável.

Max, no entanto, afirmou: “Não sei se será o suficiente (para vencer a Mercedes)”. Falou que sua equipe tem excelente base de partida, o que não aconteceu em 2019, quando ele só dispôs de um chassi mais competitivo a partir do GP da Áustria, nono do calendário. Max venceu a prova.

icon photo
Legenda: Red Bull RB16 em ação nos testes de Barcelona: equipe ressalta a confiabilidade do motor Honda
Crédito: Divulgação

O diretor da Red Bull, o inglês Christian Horner, afirmou que nunca na era híbrida seu grupo pôde realizar tão produtiva pré-temporada. A unidade motriz Renault, usada até o fim de 2018, limitou a Red Bull em várias ocasiões, percorreu menos quilômetros que os concorrentes.

Considerando-se uma eventual menor resistência do carro da Mercedes, se é que isso não irá mudar em breve, Max e Albon podem surpreender nas primeiras etapas do campeonato - na hipótese de o RB16-Honda ratificar, nos fins de semana de GP, as qualidades evidenciadas em Barcelona. A confirmar.

Max registrou o segundo melhor tempo dos treinos, 1min16s269, mas com pneus C4, obtido no último dia, 28. Albon, o 19º, com 1min17s550, pneus C2, mais duros, dia 26. O time se preocupou bastante em simular long runs, voltas seguidas sem parar nos boxes, e não em marcar os melhores tempos.

Repare que nem Max nem Albon utilizaram os pneus mais macios, C5, e, portanto, os que permitem melhor performance, como fez a maioria. Repito o melhor tempo dos seis dias: Bottas, Mercedes, com C5, 1min15s732, no dia 20.

O que isso quer dizer? Simples: nós e, principalmente, os adversários da Red Bull não têm uma ideia mais precisa do potencial da equipe nesse início de temporada. Pode ser que Max e Albon sejam mais velozes do que o pessoal da Mercedes e Ferrari esperam. Seria saudável para a F1.

No total, a Red Bull completou 3.631 quilômetros, quinta.

Racing Point

Não escolhi ao acaso a equipe para ser a segunda na projeção do início do campeonato. O pai de Lance Stroll, o milionário canadense Lawrence Stroll, convenceu seu amigo Toto Wolff, diretor da Mercedes, a lhe ceder não apenas a unidade motriz, mas também a transmissão e a suspensão traseira do modelo W11 alemão, como o regulamento permite.

Lawrence foi além. Pagou alto para receber o modelo de 2019 inteiro, o que deu o título de construtores para a Mercedes no GP do México e o de pilotos, para Hamilton, no dos Estados Unidos. Comentava-se, em Barcelona, que custou para Lawrence nada menos do que 60 milhões de euros (R$ 300 milhões).

O modelo W10 da Mercedes, rebatizado como RP20 na Racing Point, permitiu a Sérgio Perez e Lance Stroll uma pré-temporada impressionante. Ambos foram velozes e constantes em todas as condições, além de não enfrentarem um único problema de confiabilidade, exatamente como Hamilton e Bottas concluíram o campeonato de 2019.

O carro está sendo chamado no paddock de a “Mercedes Rosa”. Os adversários da Racing Point na luta pelo quarto lugar no campeonato de construtores, McLaren e Renault, estão se sentindo atingidos com a decisão de a Mercedes repassar não somente componentes e tecnologia para a Racing Point, mas o projeto inteiro.

Perez: “Estaria mentindo se não dissesse que estou entusiasmado com o nosso estágio de preparação. É o melhor início de ano que já tive na carreira”, afirmou o piloto.

icon photo
Legenda: Racing Point, a Mercedes rosa da temporada 2020, usa motor, transmissão e suspensão do carro campeão de 2019
Crédito: Divulgação

O mexicano e seu companheiro podem surpreender nas primeiras etapas do calendário, por disporem de um carro que, em essência, foi desenvolvido ao longo de todo o campeonato de 2019. E demonstrou grande performance, a ponto de ainda neste começo de temporada ser tão ou mais rápido que alguns modelos de 2020.

E para o pessoal da Renault e da McLaren, a Racing Point não expôs deliberadamente todo o seu potencial nos treinos de Barcelona. Isso a fim de não gerar mais reações contrárias à decisão de seu proprietário literalmente comprar o modelo campeão do mundo no ano anterior e, diante da manutenção do regulamento, mudar mínimos aspectos do carro só para dizer que não é o W10 de 2019 de Hamilton e Bottas.

Nos seis dias de treinos, Perez fez o sétimo tempo, 1min16s634, com pneus C5, dia 28. Stroll, 1min17s118, com C3, dia 27. A Racing Point completou 3.640 quilômetros, quarta.

McLaren

Outra equipe que levou para Barcelona um carro muito diferente do de 2019, surpreendentemente. Há uma razão maior: o inglês James Key, ex-Toro Rosso, assumiu a direção técnica da McLaren em março do ano passado e quis mostrar o que sabe fazer, ao deixar de lado a boa base do monoposto que permitiu ao time ser quarto, em 2019, para criar algo novo. Antes, Key dispensou o responsável pela aerodinâmica, Guillaume Cattelani, para assumir ele próprio a função.

Os resultados de Carlos Sainz Júnior e Lando Norris no Circuito da Catalunha, com o modelo MCL35-Renault assinado por Key, parece não refletir o potencial do carro. Atente para o verbo “parece”. Mais: sua excelente simulação de corrida foi semelhante a da realizada pelo RP20 da Racing Point que, como mencionado, é o monoposto do ano passado da Mercedes.

Essa informação sobre o nível de preparo da McLaren me foi passada por um engenheiro de uma das equipes, amigo de boas trocas de mensagens. Esperemos para ver se será mesmo assim.

icon photo
Legenda: McLaren MCL35 com motor Renault: escuderia chega em 2020 com carro bastante diferente do do ano passado
Crédito: Divulgação

O objetivo do grupo da McLaren, liderado pelo competente Andreas Seidl, é repetir a quarta colocação entre os construtores, mas com performance do carro mais próxima dos monopostos do primeiro bloco, o da Mercedes, Ferrari e Red Bull. Em 2019, a McLaren somou 145 pontos para ficar em quarto, enquanto a Red Bull, terceira, 417. A meta de Seidl, como se pode ver, é arrojada.

O que emergiu dos treinos é que para manter o quarto lugar já será mais difícil para a McLaren do que em 2019. Afinal, Racing Point e Renault, como já explicado, deram a entender terem evoluído significativamente.

Sainz Júnior registrou o oitavo tempo, 1min16s820, com pneus C4, dia 28. Norris, o 20º, com 1min17s573, pneus C3, dia 27. A McLaren completou 3.733 quilômetros, terceira.

Alpha Tauri

Para quem compete com o eficiente modelo de 2019 da Red Bull, vencedor de três GPs, equipado com a nova versão do motor Honda e todo o conjunto traseiro do carro de 2020 de Max e Albon, acreditava-se que a segunda equipe da Red Bull registrasse melhores resultados em Barcelona.

Mas, a exemplo da McLaren, no paddock da F1 ficou a mesma sensação: Daniil Kvyat e Pierre Gasly poderão demonstrar mais durante o campeonato. É o que vamos ver, mas sempre lembrando que historicamente a Toro Rosso, como se chamava a Alpha Tauri, não consegue desenvolver o carro como os adversários, fazendo-a perder performance.

icon photo
Legenda: Ex-Toro Rosso, Alpha Tauri pode beliscar a quinta posição entre os construtores da F1 em 2020
Crédito: Divulgação

Este ano, com uma boa base técnica de partida, talvez a escuderia termine o ano um pouco melhor colocada, em quinto, por exemplo, a meta declarada por seu diretor, Franz Tost, e agora imposta pelo homem-forte da Red Bull, Helmut Marko.

Kvyat marcou o 11º tempo, 1min16s914, com pneus C4, dia 27. Gasly, o 14º, 1min17s066, pneus C5, também no dia 27. A Alpha Tauri completou 3.580 quilômetros no Circuito da Catalunha, sexta.

Williams

Os fãs da equipe que venceu quatro títulos mundiais de pilotos nos anos 90 ficaram decepcionados ao ouvir o jovem e talentoso piloto inglês George Russell, de 22 anos, afirmar, dia 28, que a Williams ainda dispõe do carro mais lento do grid, como em 2019.

Mas, ao menos nesse início de preparação, Russell emitiu sinais de poder lutar com os pilotos da Alfa Romeo e da Haas para não ser o último no grid e nas corridas. O modelo FW43-Mercedes é bem diferente do que deu um único ponto ao time em 2019. Russell podia, com sua declaração, estar querendo diminuir a expectativa com relação ao avanço sugerido da Williams.

O carro é o primeiro da era pós-Paddy Lowe, o engenheiro que deixou a direção técnica da Mercedes, em janeiro de 2017, para ser sócio da Williams e torná-la grande novamente. Mas as temporadas de 2018 e 2019 foram as piores da história dessa organização vencedora no passado.

Lowe, profundamente desgastado, deixou a Williams em março de 2019, abrindo o caminho para seu gerente de engenharia, o experiente, Doug McKiernan, tornar-se o diretor técnico. Este, por sua vez, dispensou o responsável pela aerodinâmica, Dirk de Beer, e promoveu um prata da casa: Dave Wheather.

O FW43 teve esses dois líderes principais, McKiernan e Wheather. Ao mesmo tempo em que Russell dizia pilotar, ainda, o carro mais lento do grid, reconhecia tratar-se de um avanço significativo em todas as áreas de performance. Melhor: o novo monoposto tem grande margem de desenvolvimento, o que os problemas crônicos de aerodinâmica do carro de 2019 não permitiam.

A organização liderada pela inexperiente e pouco preparada Claire Williams tem imensos desafios pela frente, como o de competir com o menor orçamento da F1 - tendo ainda de investir pesado no projeto de 2021, diante de os regulamentos técnico e esportivo da F1 mudarem significativamente, como mencionado.

O outro piloto da Williams é Nicholas Latifi, filho do milionário canadense Michael Latifi, sócio do Grupo McLaren. Nicholas estreia na F1 depois de ser vice-campeão da F2, em 2019, como companheiro de Sérgio Sette Câmara na equipe DAMS.

O patrocínio do pai de Nicholas, estimado em 20 milhões de euros (R$ 100 milhões), é imprescindível, pois por a Williams ter sido a última colocada entre os construtores, em 2019, fará com que a FOM lhe repasse a menor fatia do bolo destinado aos times.

icon photo
Legenda: Com o orçamento mais curto entre as equipes da F1 em 2020, Williams tem expectativa baixa nessa temporada
Crédito: Divulgação

Enquanto a Mercedes, por ter sido campeã entre os construtores em 2019, levará para casa este ano cerca de 100 milhões de euros (R$ 500 milhões), a Willliams receberá pelo décimo lugar 40 milhões de euros (R$ 200 milhões) ao longo do ano.

A pré-temporada da Williams foi prejudicada pela quebra de dois motores Mercedes nos testes em Barcelona. A equipe percorreu 3.431 quilômetros, a oitava. Russell ficou com o décimo tempo, 1min16s871, pneus C5, dia 28. Latifi, o 17º, com 1min17s313, pneus C5, dia 27.

Fique ligado

Os carros de F1 voltam à pista, agora, como mencionado, na quinta-feira, às 22 h, horário de Brasília, para o primeiro treino livre do GP da Austrália. Já no dia seguinte, na sessão de classificação, teremos uma ideia mais clara da velocidade de cada carro nessa fase inicial do mundial, ainda que o Circuito Albert Park não costume ser referência para o que, em geral, vem a acontecer ao longo das demais etapas do campeonato.

Um abraço, amigos. Bom campeonato para todos nós!

Comentários

Ofertas Relacionadas

logo Webmotors