Aprender a guiar sob críticas

Difícil e sofrido. O que fazer quando, em vez de ajudar, família aumenta medo de dirigir?
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Andréia Jodorovi
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Engatamos a quinta etapa do percurso Coragem de Dirigir. A 4ª, “Empurrão para assumir o volante”, rendeu dezenas de depoimentos de homens e mulheres angustiados por não se acreditarem capazes de guiar. Um deles, muito comovente, divido com vocês hoje. Outra novidade: comecei a participar da terapia em grupo na Clínica Escola Cecília Bellina, e poderei contar, com autorização dos participantes, algumas particularidades desse tipo de tratamento especializado no medo de dirigir.

Para o senso comum, guiar é algo tão óbvio que o fato de temê-lo pode tornar-se motivo de chacota. Daí o porquê de muitos sofrerem em silêncio. Em alguns casos, a crítica começa no seio familiar, comportamento que pode agravar o pavor.

De acordo com Cláudia Ballestero, terapeuta da Clínica Escola, “a família nos ajuda, nos ampara e nos dá suporte. No entanto, para algumas atividades, esses seres fantásticos só fazem atrapalhar. Definitivamente, quando se fala em dirigir eles são grandes obstáculos! No aprendizado, principalmente para aqueles que apresentam ansiedade maior do que o normal, a família tende a dificultar o processo. As relações afetivas são extremamente fortes, os laços que os unem são sólidos. Daí, os familiares acabam por falar, julgar e criticar sem pensar nas conseqüências disso”, alerta.

Ainda segundo a terapeuta, “para quem tem medo de dirigir já é uma loucura estar exposto à ação. Ainda pior é enfrentar a direção com alguém com quem se tem intimidade. É comum que os familiares achem que não falaram nada demais, que após cinco minutos o que fizeram será esquecido. Para a pessoa que tem uma auto-critica exagerada, as coisa não são bem assim. O resultado é mais tensão, mais sensação de incompetência, de incapacidade e, infelizmente, mais medo”.

Se não somos apoiados e aprovados por quem mais nos ama ou amamos, é possível ter coragem para prosseguir? É. Para essas ocasiões, tenho criado minhas próprias saídas. Quando vierem as piadinhas, coloque um tampão nos ouvidos, cantarole uma música bonita. Imagine que o maridão tem uma alface no dente quando ri do pneu que derrapa, da marcha que não engata. Os filhos? Aqueles que você teve de trocar as fraldas cacarentas? Esses, se arriscarem piadas sobre como você transpira bicas quando entra no carro, torne-os magicamente invisíveis.

Medo em família – a história de Nilce Mery e seu Fiat 147

Ao ler o e-mail abaixo, senti uma vontade revigorante de, como nos filmes, convidar todos que têm medo de guiar a vivenciar o mito do herói e, juntos, enfrentarmos nossos mais temidos vilões, principalmente os que moram dentro da gente e caminham à noite pelos cômodos da casa, nos espreitam pelos olhos dos outros de um jeito que até parece eles vivem no outro. Mas não vivem. Que bom! Só podemos enfrentar o que está dentro de nós.

Uma advertência: para quem não tem carta ou tem medo de guiar, não tente sair sozinho com o carro ou acompanhado de parentes ou amigos. Procure um profissional especializado.

Quando eu tinha 19 anos, meu pai saía comigo algumas vezes para me ensinar a dirigir. A rua da minha casa era sossegada aos domingos. Nesses dias, ele tentava ter um pouco de paciência e não era muita.

Aos 20 anos, comprei meu primeiro carro, um Fiat 147, velhinho, pra aprender a dirigir. Este era o meu objetivo.

O carro precisava fazer o motor, por isso o coloquei na garagem da minha vizinha. Por ironia do destino, apareceu um interessado oferecendo mais do que eu tinha pagado pelo carro, e lá foi ele com o meu 147.

Coloquei o dinheiro no banco e depois emprestei para o meu pai comprar um carro melhor para ele. Alguns meses depois, já casada, resolvi que iria aprender a dirigir com o carro do meu marido. Este não gostou nadinha da idéia, mas um dia tentou me ensinar, com o seu jeito meio arrogante.

Foi o pior dia da minha vida, quase bati o carro na garagem ao tentar entrar e, logicamente, fui xingada, virei motivo de piada pra toda família. Todos diziam que eu não levava jeito pra dirigir. Minha auto-estima foi lá embaixo.

Desisti de aprender. Seis anos mais tarde, com a separação, eu consegui na justiça o direito de ficar com o carro. Afinal, ele foi comprado com o meu dinheiro e financiado em meu nome. Eu ficava olhando aquele carro na garagem e me dava uma vontade de pegar e sair dirigindo, mas cadê a coragem?

Às vezes, minha mãe ou meu pai dirigiam pra mim, me levavam aos lugares que eu queria ir. Nunca tive coragem de entrar numa auto-escola. Motivos? Falta de tempo, falta de grana, eram essas as desculpas que sempre arrumava pra mim mesma.

Num belo domingo, eu estava sozinha em casa. Então resolvi tirar o carro da garagem. Com calma, tentando controlar o coração pra não pular pela boca, consegui sair. E agora, aonde ir? E se a policia me pegar? Saí dirigindo toda orgulhosa
o que não é recomendável para quem não tem carta , segui a rua em frente, virei na segunda à direita, andei mais um quarteirão e parei em frente ao bar do meu pai. Eu estava toda feliz, mas mal cheguei, levei um puxão de orelha.

Passado alguns dias, peguei novamente o carro, só tirava da garagem e colocava. Isso já me fazia feliz e perder o medo aos poucos. Agora o carro era meu definitivamente, mas faltava a carteira de motorista.

Nos finais de semana, eu tomava coragem e tirava o carro da garagem. Até que um dia, ao colocá-lo de volta, bati, quebrando o pára-choque. Fiquei completamente arrasada e, para piorar, neste dia viajaríamos com o meu carrinho. Desisti mais uma vez. Com muita tristeza, vendi meu carrinho. Agora, era do meu pai. Nunca mais dirigi.

Para minha família eu não tenho capacidade de dirigir. Às vezes, falam que eu não nasci com o dom. Isso me deixa muito triste, pois agora até meu filho de 12 anos tira barato e diz que sabe mais do que eu.
Esta e a minha história. Ainda tenho vontade de aprender a guiar. Um dia entro numa auto-escola. Não vou falar pra ninguém. Quando estiver com a carta na mão, só aí contarei a todos que fui capaz de aprender.


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