Causos de noiva

Do banco do motorista, histórias incríveis a caminho do altar.
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Adriana Bernardino
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- O chofer de noivas Leonardo Forestieri foto tem 1001 histórias para contar sobre os casamentos que acompanhou em 20 anos de profissão. De tão inusitadas, elas parecem até devaneios de uma mente fértil. Mas, acreditem, os fatos são verídicos e acontecem com mais freqüência do que se pode imaginar. Confira alguns desses casos:



A enfeitiçada

O motorista estacionou a limusine e esperou pela noiva. Em vez dela, apareceu o noivo, ansioso. “Compreensível para a situação”, pensou Leonardo. Depois dos cumprimentos, entretanto, veio o pedido bizarro:

- O senhor poderia tomar cuidado para a noiva não fugir do carro?

O jeito era reagir com naturalidade e não contrariar:

- Mas o carro é grande. A qualquer momento ela pode abrir a porta e sair. Melhor ter alguém para acompanhar a moça.

A idéia pareceu genial para o rapaz, que foi e voltou com a noiva e mais duas mulheres.

Quando entrou na limusine, o olhar da jovem era de quem estava entre um mundo e outro, ou em nenhum deles exatamente. Parecia perdida, distante, alheia de si.

- O senhor não repare – explicou uma das mulheres – é que fizeram trabalho para ela. Somos benzedeiras e vamos rezar para ver se a situação melhora.

Reparar? Mais do que nunca, Leonardo fez questão de cumprir o seu trabalho apenas.

Durante o percurso, bem que a noiva ameaçou saltar várias vezes, mas, a cada tentativa, intensificava-se a quantidade de orações das duas mulheres. Então, ela reagia com perguntas:

- Pra onde vocês estão me levando? O que vão fazer comigo? Quem são vocês?

Assim transcorreu todo percurso.

Ao chegarem, sempre orientada pelas benzedeiras, a garota desceu do carro e caminhou até o pai, que a esperava na porta da igreja. Para completar o clássico de horror, ela enlaçou o braço paterno, mas virada de costas para a entrada.

Os responsáveis questionaram. Não queriam aquele tipo de coisa – fosse ela o que fosse – naquele local sagrado.

A explicação foi longa e o pedido, encarecido. Entraram em um acordo. Para que houvesse casamento, no entanto, a noiva deveria, no mínimo, dizer o “sim”.

Agora no sentido correto, sob olhares mais penetráveis do que o dela mas não menos assustados com a presença das rezadoras, foi a noiva para o altar e aceitou se casar.

De volta ao carro, agora só noiva, noivo e motorista, o rapaz estava mais feliz do que nunca.

A noiva, por sua vez, continuou dizendo esquisitices. E, em determinado momento, mirou o noivo e perguntou:

- Quem é você?


Traição revelada

Esse tinha tudo para ser normal: noiva apreensiva, mas feliz. Olhares incansáveis no espelho, percurso tranqüilo, frases corriqueiras. O chofer, com otimismo e calma característicos, animando sempre:

- Vai dar tudo certo... É assim mesmo...

Nem sempre Leonardo entra na igreja para acompanhar a cerimônia. Mas, nessa especialmente, ele entrou. Música, flash, convidados de pé.

Enquanto o padre falava, rolava uma lágrima aqui, outro olhar emocionado ali. Tudo bem, tudo certo, até chegar na clássica pergunta que só encontra resposta, às vezes, nas novelas:

- Se alguém tiver algo contra esta união que diga agora ou se cale para sempre.

Sim, alguém tinha. E era o noivo, que sacou do paletó um pacote com fotos e as mostrou para o padre, padrinhos e quem mais quisesse ver.

O choque foi geral. Com exceção do noivo, todos se olhavam atônitos, inclusive Leonardo.

A noiva saiu correndo da igreja aos prantos.

Depois, veio o entendimento: as fotos denunciavam a traição da jovem, e justo com um dos presentes.

Em meio ao desespero, Leonardo voltou para o carro pensativo. “Essa história daria um livro”. Afinal, se Nelson Rodrigues tem razão, “tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém”.


Eu amo... Cadillac!

A noiva chegou à locadora de carros e, fato raro, não pensou em si, mas no gosto do noivo: um Cadillac vermelho.

Alugou um e chegou em grande estilo, ansiosa pela dupla contemplação que despertaria no futuro marido. Ela e aquela máquina fariam dele o homem mais feliz do mundo.

O plano funcionou, ao menos em parte. O rapaz ficou louco, deslumbrado, apaixonado... pelo carro.

Depois do casamento, não viu constrangimento em se sentar ao lado de Leonardo e, durante todo percurso, falar sobre – agora revelada – mais profunda paixão.


Ciúme até do padre

O casamento era de dia. A noiva, bonita, aproveitou para aparecer em um vestido curto, valorizando curvas e pernas.

O noivo, no altar, despertava inveja. “Sortudo”, eis o julgamento que deve ter passado na mente da maioria dos convidados.

Mas, triste sina, não era bem assim que o noivo se sentia. Ao contrário.

Quem o visse sério no altar, imaginaria qualquer sentimento, menos aquele que, aos poucos, corroia-lhe a alma: o ciúme.

Foi entrar no carro para ir à recepção da festa, que sapo na garganta pulou, metamorfoseado em cobras e lagartos:

- Sua #@#**#! Por que você veio vestida dessa forma? Até o padre ficou te olhando com desejo!

E assim foi, em meio a #@#**#, até a entrada da festa. Festa?


“Sim” ao amante

O fato aconteceu quando Leonardo levava a mala da noiva para os fundos da igreja. Um dos organizadores da cerimônia o interrompeu, fazendo um sinal de "para tudo".

- Nem precisa continuar, o casamento acabou.

O motorista tentou argumentar.

- Não, vai começar agora. Acabei de trazer a noiva.

Sob o olhar incrédulo do outro, observou melhor a cena:

A noiva estava nos braços do amante, que não apareceu num cavalo branco ou numa Harley Davidson para raptá-la. Simplesmente estava lá, num canto, esperando por ela.

Os dois se abraçavam comovidos. O ex-noivo chorava de um lado, arrasado. A noiva, de outro, feliz por ter optado “em tempo” por seu grande amor.


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