Coragem de dirigir: o dia do exame prático

Para quem tem medo de guiar, esse momento é especialmente assustador
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Andréia Jodorovi
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Se o exame prático do Detran é assustador para quem guiar será só mais uma entre dezenas de tarefas cotidianas, imagine para quem têm medo de dirigir. É muito medo junto!

Enquanto aguardava minha vez de fazer o percurso, eu estava meio zonza, alheia. Perdi o sono às três da manhã e, em vez de contar carneirinhos, repassei na mente o percurso da prova, seta por seta, até conseguir dormir novamente. Felizmente, três das muitas crenças que estruturavam meu terror, caíram na noite anterior: 1. me sentia julgada pelo olhar dos outros candidatos entendi que não era um olhar para mim, mas de medo do próprio desempenho; 2. que minha performance na baliza durante as aulas era pura intuição não era, eu havia treinado muito; 3. que tudo dependeria de mim não depende. Eu havia feito o possível, agora deveria apenas entregar-me às circunstância, isto é: seja o que Deus quiser.

Para minimizar a insegurança, meu instrutor permitiu que eu transformasse o carro em algo pessoal. Jonas é treinado para ensinar pessoas com medo de dirigir e sabe bem o que fazer em momentos de grande tensão. Ele teve o cuidado de tirar o tapete, que já havia enroscado no pedal da embreagem uma vez.

Entrei no carro. Fiquei sozinha por alguns minutos. Interminavelmente depois, uma examinadora se sentou ao meu lado. Na hora, achei azar o meu que fosse uma mulher, mas mudei de ideia depois.

Ela disse “bom dia”, o que pareceu um bom sinal. E emendou um: “nossa, que frio”. Entretanto, fez jus à fama dos examinadores na forma como reagiu a minha interação. “Estou tão nervosa que não sinto frio”, respondi. Ela me ignorou.

“Eu já arrumei os espelhos”, disse para evitar uma encenação. Ela, muda. Enquanto checava a documentação, acabei atropelando o processo. “Posso sair?”, perguntei. Ela me olhou com surpresa de indignação. Corrigi: “ah, não. Você ainda nem colocou os cintos”. Não tinha como piorar. Ela suspirou e deu o comando: “pode ir”.

Dei seta, olhei nos espelhos e saí.

“Faça a baliza branca”, foi o segundo comanda dela. Imediatamente, seta para a direita. Insegura, apontei: “aquela ali?” Ela: “você está vendo outra?”. Síndrome do pequeno poder, pensei. Deve ser um dos poucos momentos do dia em que ela pode falar assim com uma pessoa contando que não será afrontada. E deve ser o único momento da vida em que tenho a oportunidade de simplesmente não retrucar uma grosseria. Que paz.

Enquanto fazia a primeira manobra da baliza, ela pegou a foto do guru indiano Sai Baba, que estava no porta-treco, torcendo por mim. Enquanto olhava, ela ficou bem na frente do retrovisor lateral, quase não consegui calcular o ponto certo. Nervosa, arrisquei de novo: “Já tinha visto Sai Baba antes?”. Ela me ignorou e devolveu a foto ao porta-treco.

Acho que me desconcentrei um pouco com a cena. Quando fazia uma bobagem qualquer no volante, senti o olhar de interrogação. O lado positivo de uma mulher ser examinada por outra mulher é que somos especialistas em leitura de face sem sequer precisar virar o rosto. Me concentrei, acertei intuitivamente o volante e terminei a baliza.

Para meu horror, ela não abriu a porta do carro para ver quão perto ou longe eu fiquei. Disse apenas: “Pode sair”.

Fiquei muda, sem saber ao certo o que aquilo queria dizer. “Achei que tivesse cometido o pior dos erros da baliza. Quando me preparava para desligar o carro e sair, ela emendou: “pode sair com o carro”. Ufa!

Bom, depois da baliza, me senti muito segura. Errei apenas uma seta, sinalizado no ato por ela e que me ajudou a não esquecer as demais.

Uma semana depois, ainda não acredito que passei. Estou anestesiada de felicidade, principalmente porque recebi abraços sinceros de pessoas que acompanham minha saga desde o início.

E você? Por que não vai? Por que você não arrisca? Por que você não experimenta essa felicidade também? Acredite, se eu consegui, você também consegue. Mas é preciso dar o primeiro passo.

Se você quiser começar a perder o medo, ainda que virtualmente, há diversos jogos on-line para praticar manobras como a baliza, como em: http://www.jogosdecarro.org/jogos-de-estacionar/jogo-de-carro-de-baliza/


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Apoio: Clínica Escola Cecília Bellina: www.ceciliabellina.com.br

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