"Dobradinha" de carros para vender mais que rivais

Conheça estratégias criadas por fabricantes para vencer a disputa por mercado contra um concorrente específico

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André Deliberato
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O mercado automotivo brasileiro tem artimanhas que podem sutilmente passar despercebidas pelo consumidor final, mas são extremamente importantes para as fabricantes - e para seus lucros. Nós do WM1 vamos falar sobre uma delas hoje e chamá-la de... "Dobradinha" de carros.

Em teoria, essas dobradinhas acontecem quando uma marca aproxima a proposta de dois carros para que, juntos, vendam mais que determinado rival. Um exemplo: em 2009, a Honda lançou o City no Brasil. Na época, uma fonte ligada à marca foi categórica quando perguntei sobre a estratégia de mercado do carro: "O Civic não vende mais que o Corolla. Mas o Civic e o City, juntos, vão vender".

Conseguiu captar qual é o lance? Pois abaixo vamos listar cinco exemplos de dobradinhas que fizeram - ou ainda fazem - sucesso e que foram extremamente importantes dentro das estratégias das montadoras.

Volkswagen Gol e Gol G4

O Gol foi um fenômeno do mercado brasileiro e será difícil ver outro carro ser líder de vendas por 27 anos em nosso país - destes, 26 de forma consecutiva. Mas entre 2008 e 2013 a - adivinhe! - dobradinha de Fiat Palio e Palio Fire (gerações nova e antiga) foi uma real ameaça ao reinado do carro da Volks - tanto que, em 2014, o compacto da empresa italiana terminou em primeiro.

Para conter o avanço dos rivais, a Volks também aderiu à dobradinha: lançou o Gol "G5" (terceira geração) em 2008 e manteve o "G4" (segunda geração em sua terceira reestilização) como opção de entrada, mais voltado ao mercado de vendas diretas e frotistas. Resultado? Em muitos destes anos, o G4 vendeu até mais que o G5. Dobradinha de sucesso, para a tristeza da dupla Palio.

Volkswagen Gol 9
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Legenda: Volkswagen Gol vendeu muito no Brasil, mas por vários anos o G4 conviveu com o G5 e formaram uma dupla infalível
Crédito: Divulgação

Fiat Uno e Mille

Em 2010 a Fiat, que já corria atrás do VW Gol com sua dobradinha de Palio, lançou depois de mais de 20 anos a segunda geração do Uno. Porém, manteve o Uno Mille no mercado e renomeou o produto apenas de... Mille. Ou seja, a marca criava ali uma segunda dupla de carros para combater o compacto da Volkswagen.

As vendas de Uno e Mille de gerações distintas duraram até 2014, quando o mais antigo se aposentou por forças da legislação. O sucesso foi grande: nesse período, as duas duplas (Uno/Mille e Palio/Palio Fire) figuraram quase sempre no pódio do mercado, atrás somente do todo-poderoso carro da VW. Bom para os bolsos da Fiat, que, até então, ainda não integrava o Grupo FCA.

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Legenda: Novo Uno (foto) e Mille, sua geração anterior, venderam muito quando estiveram juntos no mercado
Crédito: Divulgação

Jeep Renegade e Compass

A FCA (Fiat Chrysler Automobiles) surgiu em 2014 e seu primeiro carro de sucesso brasileiro e mundial foi o Jeep Renegade, SUV compacto que também foi responsável pela inauguração da fábrica da empresa em Goiana (PE), no primeiro semestre de 2015. O jipinho havia sido apresentado globalmente no Salão de Genebra de 2014 e uma de suas missões era clara: dominar o segmento de SUVs no Brasil.

Mas tinha uma pedra no meio do caminho. Seu nome era Honda HR-V, outro utilitário compacto promissor, também lançado naquele primeiro semestre de 2015. O embate entre os dois sempre foi acirrado, até que uma nova geração do Compass - feito sobre a mesma plataforma do Renegade, porém de porte superior - resolveu dar as caras.

Na prática, o HR-V foi o SUV mais vendido do Brasil em 2015, 2016 e 2017, mas nestes dois últimos anos (16 e 17) a dobradinha Renegade e Compass vendeu mais que o carro da Honda. Exatamente como a FCA queria.

 Renegade e Compass são feitos sobre a mesma plataforma e, juntos, venderam mais que o HR-V em 2016 e 2017
Legenda: Renegade e Compass são feitos sobre a mesma plataforma e, juntos, venderam mais que o HR-V em 2016 e 2017
Crédito: Divulgação

Chevrolet Onix e Prisma

A dupla de carros mais vendida do Brasil também utiliza esse tipo de estratégia na contabilização de vendas. O Chevrolet Onix assumiu a liderança do mercado em 2015 e não largou o posto desde então, mas é fato que ele começou a usar esse tipo de artimanha com sua primeira reestilização, que aconteceu em 2016. Não só ele: o Prisma também seguiu essa receita após o lançamento do facelift.

Na prática, o que aconteceu foi o seguinte: a GM apresentou o novo modelo naquele ano, remodelado visualmente, e manteve a versão anterior à venda no mercado com o sobrenome Joy, o grande responsável pelas vendas diretas e para empresas frotistas.

Isso aconteceu de novo em 2019: com a troca de geração, Onix e Onix Plus alcançaram as atuais medalhas de ouro e prata de vendas porque também somam aos números divulgados pela Fenabrave (associação das concessionárias) os emplacamentos de Joy e Joy Plus, nomes agora utilizados pelos mesmos carros de geração anterior que seguem sendo comercializados.

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Legenda: Chevrolet Onix segue sendo o carro mais vendido do Brasil; geração anterior vendida como "Joy" ajuda
Crédito: Divulgação

Honda Civic e City

Essa dobradinha, como mencionamos no início do texto, é uma história ainda mais evidente porque a confirmação veio de uma fonte ligada à própria Honda. O City surgiu para "inaugurar" o segmento de sedãs compactos "esticados" - ou premium -, hoje dominado pelo Onix Plus, mas seu propósito era ajudar o Civic e bater no Corolla.

Não que isso tenha acontecido, porque o modelo da Toyota, na esmagadora maioria das vezes, foi - e é - o sedã médio mais vendido do Brasil. Contudo, para os cofres da Honda, o resultado das vendas da dupla chegou a ser mais lucrativo durante um tempo do que quando o Civic existia sozinho. Depois vieram Etios Sedan, Yaris Sedan e a história mudou completamente.

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Legenda: Honda Civic não vende mais que o Corolla há anos. Mas entre 2009 e 2012 o City o ajudou a superar o rival
Crédito: Reprodução/YouTube
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