Duas rodas: pernas e asas

Motos são para os livres; motos adaptadas, a própria liberdade
  1. Home
  2. Cultura WM1
  3. Duas rodas: pernas e asas
Adriana Bernardino
Compartilhar
    • whats icon
    • bookmark icon

“Em conseqüência das dificuldades apenas motoras do meu quadro de paralisia cerebral, oralmente me expresso com pouca clareza, via telefone, para quem nunca esteve comigo”, avisa João Carlos Andrade foto 1 , de Campo Grande-MS, quando o convidamos para participar desta reportagem. Ele propõe, então, um encontro em algum ponto da cidade, onde chegará guiando sua Honda NX 200, ano 1998, adaptada.

Infelizmente, não podemos. Uma pena mesmo. Seria bom caminhar com João por uma história de superação. Devido às dificuldades, João respondeu algumas perguntas por e-mail, “digito muito devagar”.

A opção por veículos adaptados do mato-grossense começou com a primeira bicicleta. “Desde a infância tenho atração por conduzir qualquer tipo de veículo. Sempre usei carrinho de pedal em vez de cadeira de rodas para contornar as minhas dificuldades de locomoção que, até os meus 17 e 18 anos, significaram para mim uma predominante incapacidade de caminhar sozinho”, diz.

Se guiar uma moto, principalmente na estrada, proporciona uma sensação inenarrável de liberdade, para os deficientes físicos, narrar o que uma motocicleta representa é uma missão quase impossível: “pilotar uma moto para quem pilota cadeira de rodas é maravilhoso, como dirigir a sua própria vida, como andar, caminhar. É fantástico!”, diz Ari Heck foto 5 , primeiro vereador portador de deficiência da história de Ijuí - RS 1992, deputado estadual 1998, advogado e escritor foto 4.

Nascido em Boa Vista do Buricá-RS, Ari foi vítima da paralisia infantil poliomielite. Para enfrentar as limitações da doença “que me deixou seqüelas para o resto da vida, como ter de me locomover com o uso de cadeira de rodas até os quinze anos de idade e, depois, usar muletas”, Ari sonha com uma moto adaptada. O valor da motocicleta e das adaptações – que varia entre R$ 120 e R$ 4 mil –, entretanto, ainda são obstáculos para ele.

“Faz mais de cinco anos que procuro uma moto adaptada, com câmbio automático, partida elétrica etc. Uma moto onde não precise usar os pés. Já pensei algo tipo de estradeira by Cristo, mas o custo é muito alto. Atualmente estou tentando comprar um scooter Suzuki Burgman 400. Tem tudo o que preciso, a adaptação não é muito cara, mas a moto em si ainda é cara”, diz Heck.

Adaptações: soluções e obstáculos

As adaptações dos veículos de João Carlos começaram com uma Berlineta Caloi foto 2 , convertida em triciclo em 1976. Nos últimos anos de uso, tornou-se motorizada com um motor Solex para bicicletas, do tipo "sapo", fixado sobre a roda dianteira, que encostava no pneu para transmitir a tração.

Depois, o mato-grossense adaptou duas Mobiletes Monark, que tiveram a roda traseira central substituída por duas laterais, o mesmo tipo de sua dianteira original, fixadas num eixo inteiriço de kart. A da esquerda era a fixa de tração e a da direita livre fixada com um rolamento em seu cubo. “Como as dificuldades de coordenação motora não me permitiam ter agilidade suficiente para embalar este triciclo pedalando-o para fazer o motor pegar, dotamos o veículo de um conjunto de partida do Fiat 147, fazendo o triciclo andar e seu motor girar sem a necessidade de pedalar! As duas mobiletes com essa partida foram posteriormente sucedidas pela minha Honda NX 150, anterior à atual.”

A NX 200 foi o último veículo escolhido por João para conquistar sua mobilidade urbana. A Honda precisou de duas únicas adaptações para torná-la funcionalmente adequadas às suas específicas possibilidades de pilotar. Além da colocação de um baú em seu bagageiro, para facilitar o embarque de bagagens sem auxílio de terceiros, foi feita a substituição da roda original traseira central por duas laterais aro 13”, de carro, fixadas em um eixo de minicarro, com uma caixa de tração positiva no centro. O conjunto de rodagem é equipado com freios a disco do Fiat 147.

Perguntado sobre o momento mais feliz ou sonho que ainda espera realizar sobre rodas, João reflete: “No momento que recebo este questionamento, me vem um sentimento de pesar por não me ocorrer nenhum para relatar como mais feliz, mais importante ou mesmo mais especial. E por que não me ocorre? Dispor do meu triciclo para ter a autonomia de locomoção rodo-urbano que sempre desejei é uma conquista pessoal tão significativa para mim que me é difícil destacar algum outro momento”.

Mas, de repente, ocorre algo a João que ainda falta: “Talvez encontrar uma companheira para compartilhar comigo passeios e viagens de moto”.

Born to be wild

Fernando Ernesto Balestrero Florio foto 6 , coronel reformado da Polícia Militar, aficcionado por motos há muito tempo, tirou habilitação especial por causa de uma artrose no joelho direito. “Sempre levo uma bengala comigo na moto”.

Portador também de cardiopatia duas safenas e uma mamária, ele diz que não pretende deixar a peteca cair. “A motocicleta nos dá um instinto de liberdade; a mobilidade, o perpassar do vento, a natureza, a vista de tudo, a estrada. É uma catarse do cotidiano que nos leva à inspiração com a música ou como a música”.

Mas Fernando não é o único a encontrar e reinventar possibilidades para acelerar na estrada sobre duas rodas. Bom exemplo vem de Porto alegre, com alunos deficientes físicos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAI.

Durante a segunda etapa da Olimpíada do Conhecimento, maior competição de educação profissional da América Latina, o Programa SENAI de Ações Inclusivas PSAI, voltado para a formação e inserção de pessoas com necessidades especiais PNE no mercado de trabalho, os alunos apresentaram uma moto Harley-Davidson e uma cadeira-de-rodas elétrica para trilhas ecológicas, ambas adaptadas para atender pessoas com deficiência física.


Legislação e adaptações do veículo

Segundo a auto-escola Javarotti motos adaptadas – fotos 8 e 9, especializada em habilitar pessoas portadoras de deficiência física, auditiva e nanismo, “o interessando em tirar a CNH tem de ser avaliado por uma junta médica e uma banca examinadora especial, que indicarão as adaptações apropriadas”.

A prioridade da legislação de trânsito é que o veículo seja conduzido de forma segura, com ou sem adaptações. Segundo resolução 80/98 do CONTRAN, confira adaptações do veículo de acordo com a deficiência física:

Deficiências físicas Adaptação do veículo
Amputação ou paralisia do membro inferior esquerdo total ou parcial categoria B A Veículo automático – B Embreagem adaptada à alavanca de câmbio
2 Amputação ou paralisia do membro inferior direito total ou parcial categoria B C Veículo automático – D Embreagem adaptada à alavanca de câmbio – E Em ambos os casos acelerador à esquerda
3 Amputação ou paralisia dos membros inferiores total ou parcial categoria B F Veículo com transmissão automática ou modificado conforme necessidade de cada caso com todos os comandos manuais adaptados – G Cinto pélvico-torácico obrigatório
4 Amputação ou paralisia do membro inferior esquerdo total ou parcial categoria A
H Moto com carro lateral – I Câmbio manual adaptado
5 Amputação ou paralisia do membro inferior lateral direito total ou parcial categoria A J Moto com carro lateral – K Freio manual adaptado
6 Amputação ou paralisia dos membros inferiores categoria A L Moto com carro lateral – M Freio e câmbio manuais adaptados
7 Amputação do membro superior direito ou mão direita categoria B N Veículo com transmissão automática ou modificada conforme necessidade de cada caso – O Comandos do painel à esquerda
8 Amputação do membro superior esquerdo ou mão esquerda categoria B P – Veículo com transmissão automática ou modificada conforme necessidade de cada caso
9 Casos de amputações de dedos, paralisias parciais membros superiores/inferiores atrofias, defeitos congênitos ou adquiridos não enquadrados acima e outros comprometimentos que não necessitem de adaptações veiculares Q – Ficam a critério da Junta Médica Especial as exigências e adaptações

Comentários

Ofertas Relacionadas

logo Webmotors