E o automóvel, quem diria, começou pelas mãos femininas

Berta Benz e os filhos foram os responsáveis por mudar a coisa barulhenta, fumacenta, nisto que você tem andado
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Roberto Nasser
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Pode parecer curioso o título. Afinal, automóvel e suas complicadas entranhas, porcas, parafusos, molas, travas e, até a famosa e folclórica rebimboca da parafuseta, fazem parte do universo masculino: foram os homens quem os gestaram e pariram. Aí pelo quarto final do Século XIX, houve uma combinação descombinada e, sem se conhecer ou se falar, técnicos, engenheiros e outros curiosos fizeram, a seu modo e em caminhos variados, máquinas para substituir a força humana e dos animais de tração.

Um dos mais conhecidos foi Karl Friedrich Benz. Engenheiro do tempo em que tais profissionais pegavam nas ferramentas, fez coisa de homem: evolução, em vez de revolução. Assim, pegou o que já estava pronto, uma carroça. Removeu os varais que a ligavam ao cavalo como elemento de tração, criou um tosco sistema de direção numa roda dianteira de bicicleta e embaixo aplicou sua criação. A grosso modo, e para quem via e descrevia, era uma torre metálica deitada, onde entrava combustível por um lado e, depois de muitos barulhos, saia movimento pelo meio tocando uma grande roda horizontal a lembrar peça assemelhada das máquinas de costura, e fumaça pelo outro. Andava sem cavalos e sem vapor, como as máquinas de andar daquela época – trens, navios e pequenos trams, bondes urbanos.

Andou, conseguiu pioneira patente a de número 37.435, relatando o funcionamento de um certo Carro a Motor – Patenteado.

Motivo de muito orgulho, pois integrava os sonhos de Benz e o entorno dos problemas trazidos a sua família, mas a polícia de Manhein, Alemanha, proibiu-o de circular. Seu barulho e fumaça incomodavam as pessoas, assustava os animais, fazia os cavalos dispararem e, dizem, provocou crise nervosa em idosa macróbia.
Sem silencioso, ainda por inventar, com grandes folgas entre as partes móveis, lubrificantes primários, marcava sua passagem com barulho e fumaça.
A proibição forçou seu abandono na cocheira da casa dos Benz. Para a população era apenas esquecida notícia de jornal e criação de Benz, engenheiro cujos sonhos na maioria das vezes empurravam a vida ao limite inferior do conforto.

O empurrão feminino

Em 1888 dona Berta Benz era uma pré-matrona aos 39, mãe de 4 filhos, companheira de um perseguidor de sonhos. A condição feminina era muito diferente dos dias atuais, quando as mulheres são o agente mais importante no mercado de automóveis de passeio. Hoje, entre aquisição própria e influencia na compra do veículo familiar, representa uns 70% do mercado.

Pois independentemente do recato inerente às regras sociais e de etiqueta, co-optou seus filhos Eugen, 15, e Richard, 13, e se transformaram nos responsáveis por mudar a coisa esquisita, barulhenta, fumacenta, nisto que você tem andado, nesta ferramenta de deslocamento, de mobilidade, chamado por muitos nomes – automóvel, caminhão, ônibus, trator.

Ato de coragem, retrato da fidelidade feminina à unidade do casamento e propósitos de seu marido, não fosse dona Berta, possivelmente a patente pioneira do carro a motor ficasse esquecida e substituída por algum dos muitos tipos de veículos que se experimentavam àquela época. Então, pelo mundo inteiro, perpassava aura de criatividade, em exercícios de tentativa e erro, na reunião dos conceitos operacionais viabilizadores de motores a vapor e gás, reduzindo-os em volume e peso, aptos a mover um veículo.

Histórias de vencedores sempre são românticas. Mascaram sacrifícios, dificuldades, e a vitória surge como inevitável final feliz. A realidade da invenção do triciclo motorizado passou muito longe disto. Soma as limitações de um órfão de ferroviário, criado pela mãe, dona de pensão, sonhador vendo as nuvens através de uma maquete de carro a vapor. Fez o curso técnico com amplo sacrifício materno. Era hábil, inventivo e, como os engenheiros antigos, não tinha medo de graxa, e não mandava, fazia: fabricou calhas e dobradiças; prensa para tabaco; um pequeno telefone.

Depois, motores a gás. Enfrentou dificuldades, perdeu tudo, incluindo a fábrica, trabalhou num barracão no fundo de casa. Como disse dona Berta, em 1933, aos 84 anos de idade, as dívidas tomaram quase todos haveres familiares, exceto ferramentas de mão e a casa. Mas não levou os sonhos de Karl, sua determinação, ou o apoio doméstico.

Dois comerciantes de material técnico, condoídos com a miséria da competência, e outros credores se associaram a Benz, criando empresa para produção de motores a gás. Que foi, sem trocadilho, a pleno gás, aumentando modelos, potências, vendas, lucros.

Foi quando, paralelamente, e sem precisar cortar itens de sobrevivência para empurrar seu sonho, Benz aplicou-se a desenvolver o veículo – ao contrário de Daimler e da maioria dos criadores da época, preocupados apenas em criar e construir motores.

Existe, mas não pode

Em outubro de 1885 o carro ficou pronto. Quase uma charrete com motor monocilíndrico; deslocava 900 cm3; produzia 2/3 de hp a 250 rpm; um razoável sistema de ignição – a vela ainda não havia sido criada; era muito pesado em seus 96 kg. O triciclo pesava 300 kg. um motor com esta cilindrada produz atualmente uns 60 cv, e com este peso, muitíssimo mais .

Pioneiro, merecia elogios do jornal local, vendo longe, ao contrário de cavalos, cavaleiros, meninos, senhoras, se assustavam com o barulho, incomodavam-se com a fumaça. E a polícia proibia o uso – apesar da inexistência de legislação específica sobre veículos a motor.

Benz arquivou o sonho, assumiu a lógica de estar bem de vida como fabricante de motores a gás, longe do tempo da mesa e do cobertor curtos, das provações materiais, das críticas dos sogros. Voltou a dedicar-se integralmente ao negócio básico dos motores a gás – para alegria de seus sócios e do banqueiro local.

Não pode?

A proibição policial podia ser legal, mas não era decisão pétrea, podia ser contornada. Dona Berta pegou Eugen e Richard, dois dos quatro benzinhos, por entender que o sonho do carro “automovimentado” do qual participaram, sofreram fome, frio e reclamações dos pais de Berta, não podia ficar arquivado por conta de protestos de polícia, cavalos e outros animais que não enxergavam o futuro.

Ao nascer de uma manhã do verão de agosto de 1888, tempo de férias, os meninos puxaram o carro para fora. Verificaram os itens que o fazem mover, conhecidos ao acompanhar o desenvolvimento, a construção, as experiências com enguiços e acertos. Empurraram distância de cautela e, ao achar que o barulho do motor não acordaria o sono de Benz e vizinhos, Eugen girou a grande polia horizontal ligada ao volante. O motor pegou. Subiram todos. Eugen, á barra de direção – o volante surgiria uma década após; dona Berta ao lado, Richard espremido. O banquinho, horizontal, era de charrete. Dá para imaginar a performance: 400 kg de veículo, mais uns 150 de tripulação, movidos por dois terços de cavalo de força... Numa regra de três, nos termos de hoje, o motor de carro popular para arrastar um caminhão Scania, carregado.


A viagem

Embicaram para Pforzheim, a 120 km de distância. Estrada de terra, conhecida, até a casa dos pais de Berta. Fosse viagem latina e nos tempos atuais, seria um cala-boca. À época, embora a expressão ainda não tivesse sido inventada, foi efeito-demonstração do funcionamento da “última-maluquice-do-seu-marido-tão-bom-engenheiro-e-tão-desmiolado, coitado.”

A viagem traria resultados nunca dantes imaginados. Da soma das necessidades do veículo com a mão de obra e os produtos disponíveis no pequeno comércio nas cidades ao longo do percurso, surgiriam outras atividades comerciais. Ali começava um novo tempo.

Estrada plana, tempo bom, o carrinho pipoca e polui em barulho e emissões fumacentas campo afora. Após Heildelberg há subidas. Levinho, Richard assume a condução. Berta e Eugen empurram. Equivalem, juntos mais ou menos, à força do motor, 2/3 de hp. Richard acelera. O carrinho galga, penosamente, a subida. Ao final, suados, enegrecidos pela fumaça, sobem no carro. E a descida começa. Durou pouco a alegria ao descobrir o freio subdimensionado, insuficiente para deter o veículo em descidas. E o couro que anteriormente fora cinto, colocado externamente à única polia, como elemento abrasivo para efeito frenante, se queima. E o combustível acaba.

A viagem, percebem, seria o primeiro pré-teste de avaliação...

Param em Wiesloch, poucos quilômetros após. Mobilizado, entre o surpreendido com uma carroça sem cavalo, utilizando couro numa polia, um sapateiro refaz o revestimento – seria o precursor dos reparos em freios. Berta vai à farmácia comprar um líquido de limpeza doméstica coincidentemente chamado benzina. Gasolina? Não existia. Comprou o estoque, 3 litros. Nunca imaginara gastar tanto produto de limpeza.

Combustível seria um dos problemas, pois os farmacêuticos não têm estoque grande.

O movimento de carros motorizados exigiria outro direcionamento – todo farmacêutico seria, projetadamente, o dono de posto de re-abastecimento.
Outro item de necessárias melhorias foi o sistema de resfriamento. A cada 20 km era preciso repor água por conta das grandes perdas e da evaporação – e nem sempre havia rios, lagos ou regatos por perto.

A transmissão, como numa bicicleta, por corrente. E, como nas bicicletas, se parte. Os meninos andam até a próxima cidade onde um ferreiro põe a emenda, como nas toscas bicicletas. É o primeiro mecânico de estrada, capaz de improvisar.

Em seguida, a tubulação de combustível entope. Berta sacrifica um alfinete do chapéu e remove um grão incrustado nos caminhos do primário arremedo do posteriormente chamado carburador.

Outro tropeço. O Carro a Motor – Patenteado, para. Dona Berta vai olhar. Os meninos, de costas, ouvem um fru-fru de tecido. Berta acaba de fornecer uma liga para virar elemento elástico para corrigir a quebra da mola do carburador. Surgia a consciência que motorista deve entender do veículo e ser capaz de soluções inventivas.

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