Ferrugem em veias femininas

O Diário de Elisa, uma mulher apaixonada por antigos
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Adriana Bernardino
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(Março, Mês Internacional da Mulher) – Homem e mulheres se relacionam com o mundo de maneira diferente. É assim também com veículos. Os homens têm uma relação visceral com eles. As mulheres... talvez ainda não haja uma boa definição para elas, já que, até outro dia, o feminino foi educado para ficar longe do volante. Quando o oposto disso acontece, isto é, quando há incentivo, o resultado costuma surpreender.

É o caso de Elisa Asinelli do Nascimento, diretora da Fcaptionação Brasileira de Automóveis Antigos (FBVA), que começou sua história com antigos em um Citroën 11 Légère de 1948 e durou até a menina completar dois anos de idade. “O Légère já era considerado carro de coleção pelo meu pai, apesar de ter menos de 20 anos de fabricação”, lembra Elisa, que conta o restante da história:

Depois do francês, veio um alemão, o VW 1200 1959, carrinho oficial da família. Ele continua na ativa e é meu companheiro no dia a dia. Protagonizou belas histórias no II Campeonato Brasileiro de Regularidade da FBVA (Fcaptionação Brasileira de Veículos Antigos) em 2010.

Fui realmente contaminada pelo vírus da ferrugem ainda muito pequena quando meu pai, Enzo Monteiro do Nascimento, iniciou a sua coleção de carros antigos com as marcas Mercedes-Benz e Volkswagen. Fundador de seis clubes, habituou-me a frequentar o ambiente dos automóveis antigos. Não tive o menor problema em trocar bonecas por carrinhos, e festinhas por eventos.

Aprendi a dirigir aos nove anos (não siga o exemplo!) em um VW Kabriolet 1954 nas ruas da periferia de Curitiba. Colocou um par de almofadas no banco do motorista, puxou o banco para frente. Depois de me acomodar, perguntou se eu alcançava os pedais e se enxergava o que estava à frente. Eu não era boba e percebi imediatamente o presente exclusivo que estava sendo oferecido. Respondi que sim, minhas pernas cresceriam em poucos minutos para alcançar os pedais e tinha uma visão panorâmica do planeta Terra, através daquele para-brisas.

Meu pai ordenou que eu averiguasse se a marcha estava no neutro e mandou-me dar a partida no motor. A emoção foi indescritível. Todo aquele processo chato de soltar a embreagem lentamente, acelerar na medida certa e não deixar o motor morrer e deixar o pobre carro saltitar como jegue eu passei por dias, mas no final das contas eu era uma menina de 9 anos, estudava em um colégio de freiras e iniciando uma vida de aventuras proibidas. E o melhor, supervisionada por meu pai. Ele sabia do que eu era capaz e não tinha pressa. 

O mesmo VW Kabriolet foi testemunha da minha primeira grande viagem a Minas Gerais como “auxiliar mecânica”, com direito a vestir até um macacão em busca de peças para uma Mercedes-Benz 300 1954 Adenauer, que meu pai estava restaurando. Eu estava então com 13 anos e foi uma grande experiência, aprendi o nome das peças e função. Considero esta viagem o marco inicial da minha paixão pelos veículos antigos.

O primeiro automóvel da vida eu ganhei aos 17 anos, um VW 1600L Type III Notchback 1968, batizado carinhosamente de Gervásio. Foi meu grande companheiro, tornou-se automóvel de uso diário, não está mais comigo, mas não perdemos o contato. Sei com quem está e onde se encontra. Alguns anos mais tarde eu ganhei uma linda Vespa 1965 que ainda conservo.

Convivendo com os antigos

Participei dos primeiros eventos nos anos 1970 e 1980, promovidos pelos clubes na época, eram poucos, mas havia muita qualidade, exposições e encontros que deixaram saudades. Pelo fato de estarmos presente nas atividades dos clubes nos 1º, 2º e 3º Salão Brasileiro do Carro Antigo em Curitiba, nós (da ala mirim) cuidávamos da limpeza dos automóveis e da “segurança”, atentos para que o público não tocasse nos automóveis. As esposas e namoradas dos colecionadores se dedicavam integralmente na organização destes eventos.

Organizavam-se também em São Paulo os Concursos de Elegância e muitos daqueles automóveis que estiveram nos salões de Curitiba não se encontram mais no Brasil. Mas hoje em dia, graças à importação de automóveis de coleção (mais de 30 anos) o acervo brasileiro está enriquecendo com peças de grande importância histórica.Desta fase de encontros e exposições eu ainda conservo as amizades, pois éramos uma grande família, reunidos com um intuito verdadeiro: a amizade sincera, o respeito mútuo e os nossos automóveis antigos. Sentimos muitas saudades desse tempo.

Residi por alguns anos na Itália e nos Estados Unidos, onde visitei quase todos os encontros e museus que tinha conhecimento. Na Europa e particularmente na Itália a qualidade dos eventos, museus e coleções é impressionante. Até hoje mantenho contato com meus amigos dessa época, trocamos informações preciosas.

Quando retornei ao Brasil em meados de 2003 tinha muita bagagem e novidades do universo dos automóveis antigos. A vontade de colocar esse conhecimento em prática foi me levando para um caminho natural, ou seja, atuar com mais intensidade nos clubes e evidentemente mergulhar com vontade nos automóveis da coleção em todos os sentidos. A saudade em conduzi-los era imensa, pois quando estava no exterior não adquiri um antigo para brincar. E então passei a frequentar a garagem de casa, onde se encontram diversos automóveis, cuidando da manutenção e rodando com eles, participando de encontros e exposições.

Para manter meus amigos no exterior informados sobre a movimentação antigomobilista, principalmente aqui em Curitiba, criei Blog . Foi um grande sucesso, a ponto de ter que criar outro por falta de espaço no primeiro. 

Com a repercussão do blog, fui descoberta e convidada a escrever sobre o universo dos automóveis antigos em alguns sites especializados, virei colunista e comecei a revirar o baú de fotos, publicações, lembranças e documentos antigos desde o início dessa cultura aqui no Brasil. Com meu pai reviramos a memória com as histórias dos bastidores dos clubes, automóveis e os colecionadores. Escrevi muito sobre estas histórias e também comecei a pesquisar sobre os criadores de automóveis e marcas, grandes colecionadores e o nascimento dos museus.

Devido à minha experiência como frequentadora dos eventos no exterior comecei a pesquisar os mais importantes na America do Sul e através de um amigo soube de um Concurso de Elegância que se realizava na Argentina. A necessidade em me dedicar integralmente aos projetos das viagens foi crescendo, fundei a empresa de organização de eventos e viagens antigomobilistas assim como a criação de um espaço na web para divulgá-las. Então nasceu o Portal Antyqua com muitas informações sobre clubes nacionais e internacionais, museus nacionais e internacionais e um vasto calendário de eventos igualmente nacional e internacional ligado diretamente aos ‘Roteiros Clássicos’, pois a possibilidade em escolher um evento nesse calendário independente de sua localização e personalizar a viagem é um serviço que também ofereço aos entusiastas.

Em 2009, fui oficialmente nomeada diretora da Fcaptionação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), ano em que comecei a participar de alguns campeonatos de regularidade. Mas essa já é outra longa e emocionante história. Se você gosta de antigos, reserve um tempo bom para dividir comigo no Antyqua
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O site WebMotors orgulha-se e apoia a presença feminina ao volante, presença que transforma olhares, revoluciona padrões, impõe cuidados e, com sutileza, conquista espaço e abre caminhos.

Elisa Asinelli do Nascimento é formada em sociologia e designer de profissão. Sua grande paixão, entretanto, são os carros antigos. Criadora do site Antyqua , Elisa é diretora da FBVA (Fcaptionação Brasileira de Veículos Antigos), colecionadora de clássicos e única empresária na América Latina a organizar viagens temáticas ao redor do mundo para apaixonados por carros antigos.

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