Mille Miglia coloca antigos para competir nas estradas

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Gustavo Ruffo
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- Em 1926, dois nobres italianos Aymo Maggi 23 e Franco Mazzotti 22 tinham o costume de apostar corrida com os trens no caminho de Brescia a Milão, onde eles se encontravam com outros automobilistas. Decididos a dar a sua cidade natal mais relevância no mundo dos carros, eles se juntaram a Renzo Castagneto e a Giovanni Canestrini, o primeiro jornalista italiano especializado em veículos, e decidiram criar um grande evento automobilístico.

Depois de muita reflexão, os chamados “Quatro Mosqueteiros” propuseram uma prova de ida e volta a Roma, com estradas desafiadoras, na época, e um trajeto total de pouco mais de 1.600 km. Faltava o nome, dado por Mazzotti, que tinha retornado havia pouco tempo de uma corrida nos EUA: Mille Miglia, ou Mil Milhas, em bom português. Mal sabiam eles que ela se tornaria, anos depois, numa das principais competições esportivas de carros antigos do mundo.

O primeiro vencedor da prova foi Nando Minoja, que chegou na Viale Venezia às 7h do dia 27 de março de 1927. A prova se repetiu anualmente até 1939, quando estourou a Segunda Guerra Mundial. Retomada em 1947, ela se manteve nas mesmas bases, ou seja, a de uma corrida propriamente dita, até 1957, quando corridas em estradas normais foram proibidas na Itália.

Preocupados com o que parecia ser o fim do evento, os organizadores decidiram que a Mille Miglia se tornaria uma retrospectiva viva da história do automóvel dentro do período em que a competição original foi realizada. Isso faz com que só sejam admitidos veículos produzidos de 1927 a 1957.

Antigos na briga

Ao contrário do que possa parecer para um evento de carros antigos, a Mille Miglia se mantém competitiva. A diferença é que não importa mais a maior velocidade, mas a maior regularidade. Cada trecho da prova tem um tempo estipulado. Cada centésimo de segundo a mais ou a menos representa uma penalidade. O competidor que perder menos pontos é considerado o vencedor da etapa. São 38 tomadas de tempo nos três dias de competição. No dia 11 de maio, os participantes saíram de Brescia e se dirigiram a Ferrara. De lá, no dia 12, eles partiram para Roma. Para o dia 13 ficou reservada a parte mais emocionante da prova, com um estirão de Roma a Brescia, no qual os participantes largam por volta das 8h30 e só páram à 0h do dia seguinte, em média.

O sucesso da prova, segundo um de seus fundadores, Giovanni Canestrini, se explica pela interação entre os competidores e o público. “Ela preservou seu caráter romântico e levemente aventureiro porque seus participantes têm de lutar ao longo das estradas, entre paredes feitas de pessoas, porque os pilotos têm de enfrentar o desconhecido nas rodovias, porque os progressos mecânicos do que usamos no dia-a-dia podem ser vistos ano a ano, porque ela realmente testa os homens e seus carros e porque a maioria participa apenas para ter a satisfação de chegar ao fim da prova e dizer: eu consegui terminar a Mille Miglia”, escreveu Canestrini em 1956.

Nos anos em que usava as estradas italianas como pista de corrida, a Mille Miglia teria sido a responsável por diversas das inovações importantes no mundo do automóvel, como o carburador, a injeção direta de combustível com os Mercedes-Benz 300 SL, que estrearam nesta competição, a preocupação com consumo quanto mais econômico fosse o carro, menos seu motorista precisaria abastecer, partida elétrica, velas, limpadores de pára-brisa e faróis melhores, ainda que digam que, num de seus lances mais emocionantes da prova em todos os tempos, no ano de 1930, Tazio Giorgio Nuvolari tenha conseguido ultrapassar Achille Varzi à noite, com os faróis apagados, impedindo que seu oponente se desse conta de sua aproximação.

Charme e trabalho duro

Mais do que uma corrida charmosa, a Mille Miglia chama a atenção por colocar veículos que muitos vêem apenas em museus. Melhor ainda, é possível vê-los em seu habitat natural, o asfalto. Na edição deste ano havia 374 modelos antigos inscritos na competição. Destes, muitos traziam nomes que, descontado um ou outro profundo conhecedor do mundo automotivo, a grande maioria dos mortais deve desconhecer.

Faça o teste e veja quantos desses fabricantes você conhece: AC, Adler, Allard, Alvis, Amilcar, Autobleu, Bandini, Bizzarrini, BNC, Bottega, Cisitalia, Deutsch Bonnet, Ermini, Frazer Nash, Gilco, Healey, HRG, Invicta, Lagonda, Moretti, Nardi Danese, OM, Osca, Panhard, Pegaso, Riley, Roselli Colli, Siata, Siata Motto, Singer, SS, Stanga, Stanguellini, Talbot, Triumph e Veritas. Uma boa média de familiariedade, aqui, denota um conhecimento dos mais refinados.

Entre as marcas mais conhecidas, a maioria dos modelos era raríssima e com preços igualmente superlativos, como o Mercedes-Benz 300 SL, que era encontrado aos montes. Para quem acha que é força de expressão, pasme: havia 23 “Asa-de-Gaivota” inscritos na Mille Miglia, inclusive o protótipo do carro, de 1952, e um raríssimo 300 SLR. Fora eles, havia também 21 Bugatti, 34 Ferrari, 16 Maserati e 23 Porsche. E não eram, a exemplo do caso da Mercedes-Benz, dos mais comuns.

A reunião de veículos raros e caros costuma atrair também celebridades. Na Mille Miglia, Vanina e Jacky Ickx andavam lado a lado com beldades como a atriz italiana Giulia Montanarini, que foi a co-piloto de um Jaguar XK120. Mas o luxo e a pompa não são a essência do evento, só a “cereja do bolo”. A alma é mesmo a mecânica, a graxa e o esforço físico. Veja as fotos de Emanuele Pirro e de sua esposa, Marlene, pilotando um Ferrari 375 MM numa das edições da competição.

Cedidas pelo site Barchetta, parceiro WebMotors, assim como a maior parte das fotas, elas demonstram um pouco do sacrifício que a prova exige. Como o carro é aberto, deixa seus ocupantes sujeitos a todo tipo de mudança climática, o que obriga ao co-piloto a empunhar o guarda-chuva, nos casos mais extremos.

Também há espaço para modelos menos raros, mas muito populares, como o BMW Isetta, mas o segmento "popular" da competição se limitou a ele. Da fabricante de motores da Baviera o modelo mais presente era o 328 do final dos anos 30, mas havia também 5 roadsters 507, para deleite dos apreciadores desse modelo.

Quem venceu a edição de 2006 foi um dos maiores campeões da Mille Miglia, Giuliano Canè foto principal, com o BMW 328 MM 1937, modelo com o qual mais vezes chegou ao ponto mais alto do pódio em 96, 98, 2000, 2002, 2004 e agora. Em 1999, ele, que é italiano de Bolonha, levou um Ferrari ao primeiro posto, mas sua história de sucesso começou em 1992, com outro modelo alemão, também da BMW, mas mais atual: um 507.

Para saber mais sobre a mítica competição, entre no site oficial da Mille Miglia e leia as curiosidades e a história completa desse orgulho da cidade de Brescia. Se as fotos ao lado são insuficientes para seu apetite por antigos quase sempre são, não se acanhe em olhar uma galeria ainda mais caprichada e completa. Preparada pelo site Barchetta, ela dá em qualquer apreciador de veículos antigos a vontade de visitar a Itália em maio do ano que vem, quando a Mille Miglia se tornará uma respeitável senhora de 80 anos.
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