Tem novo colunista na WM

A voz do asfalto, por Mahar: eu sou GASOLINÔMANO
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José Mahar
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– A única razão válida para fazer isso aqui é talvez inspirar algum garoto a fazer algo diferente no país do futebol. Mesmo arriscando ser classificado como exibido, gostaria de dizer aos garotos que vêm me perguntar coisas que é valido e bom ser furiosamente apaixonado por veículos, como sempre fui. É uma coisa de não ver interesse algum em qualquer coisa que não queime gasolina, que não ronque e faça calor. Orar todo dia no altar de N. Sra. Da Combustão Interna...

Foi assim que comecei a dirigir, lá pelos dez anos de idade*, uns 50 anos atrás, outros tempos mais cordiais. Meu pai tinha um impecável Chevrolet Styleline Sedan 1951, claro que preto e funcionando como um relógio suíço. Tratado a cotonete e comprado zero km, em 1960 era o sonho de consumo de nossos irmãos lusitanos taxistas e bigodudos. Eram mecânicas menos estressadas, de baixo giro, e mesmo com o conhecido sistema de lubrificação a salpico, onde o óleo é lançado por colherinhas nos pés de biela, duravam muito.

Não era incomum achar um carro desse com 500.000 km no seis cilindros de 92 cv, só tendo tido os inevitáveis preenchimentos de metal branco no eixo, já que não tinham bronzinas no pé de biela. Mas foram exatamente essas características arcaicas que me deram um trauma que explica os carros que tenho hoje em dia, o Mahalet e a Mahavan. Mais sobre isso adiante.

Sempre gostei de carro antigo. Há mais de 30 anos frequento o Veteran, desde os tempos da Praça do Hospital Miguel Couto, na Gávea, Rio de Janeiro. Acho firmemente que desconhecer o passado do automóvel é não ter as ferramentas para entender o presente. Essa fissura de gasolinômano orientou toda a minha vida. Sempre foi automóvel o tempo todo, com erros como ser advogado sem diploma nunca tive saco pros estágios e OAB.
Quem já viajou comigo sabe que não tem museu de arte, shopping ou restaurantezinho aconchegante na Rive Gauche. É museu, coleção, loja de carros ou peças, coisas de caminhão, clube náutico, autódromo, motocicleta.

Tenho um bom amigo, o Sanzio, que foi pra Argentina comigo em 2004. Lá pelo décimo dia perguntou: mas é só motor? Não, a loja do Louis Vuitton e da Lancôme estão aí mesmo... E olha que ele gosta muito do tema, tem moto e vários carros estranhos.

Acho que ficou claro o nível de fissura por isso tudo. Comer, dormir, viver e sonhar com motores. Vivi a vida inteira envolvido por essas coisas, inclusive com coisas obscuras. Uma delas é o fato de que o Barão Mahar foi pioneiro em imprensa náutica a motor no Brasil. Grande porcaria, só copiei o teste técnico da Boating americana, já que desde priscas eras me toquei de ter de saber falar mais de uma língua pra corresponder ao vicio. Então enquanto todo mundo fugia e aprendia no ginásio só o suficiente pra passar, eu queria ler as Bíblias: a Road & Track e a Motor Sport inglesa, e naturalmente aprendi. Também falando de pornografia mecânica o tempo todo... Assim foi com mais francês, italiano e espanhol, o que me permitiu aprender tanta coisa.

Tive muitos carros. Claro que o primeiro foi um Fusquinha. Era um 1300 1968, ganho do pai em uma barretada de almoço dominical do tipo “você nunca vai passar no vestibular”. Naquela época podia ser incluídas no exame varias línguas e as matérias do Clássico eram humanistas, do tipo Psicologia, Sociologia e não tinha física, química ou biologia. Além disso, era possível fazer uma redação com muito valor...

Num outro domingo cheguei na frente da família toda e mostrei que não só passei como foi lá em cima na PUC e na UEG. Papai Mahar a contragosto comprou, isso em 1971, um 68 de uma vizinha com 6.000 km rodados, embora a promessa fosse de um carro zero.

Mas eu preferia o modelo mais antigo e rodei 300.000 km com ele. Viagens de final pra Sampa e muitos lugares. Eu não era o Vital, mas passei a me sentir total. Foi aí que me entreguei aos encantos dos carros sobresterçantes que saem de traseira com meus Cinturatos 155X15, minha trombinha de escapamento Kadron, uma alavanca de cambio de Karmann Ghia e uns faróis de longo alcance. Um prazer e um conhecimento que a geração atual não tem mais, com seus carros sanitizados do tipo tudo na frente, que não exigem mais arte e sutileza para controlar. Foi uma escola.

Daí tive um JK 2150 1970. Outra escola completa, que ensinou o que era um carro europeu legal, esportivo e veloz, embora complicado e temperamental.
Não é à toa que tem na Itália um ditado que diz:
Donne e motori, gioie e dolori.

Queimava junta, ameaçava pegar fogo, deu uma apodrecida rápida em um ano, mas quando funcionava era inesquecível. Seu motor me ensinou que havia uma outra espécie de vida fora dos USA. Cheguei ate a arranjar uma namorada na embaixada da Suíça por causa dele. O primo dela corria rali de Alfa por lá e tinha peças inacreditáveis. Foi assim que tive uma dupla de carburadores Weber 40, pistões oversize para 2.200 cm³, coletor de escape 4X2 e 150 cavalos.

A outra Alfa que tive merece uma menção honrosa, especial, daquelas como se fala de um antigo amor...

Éra uma Giulia Super de 1967. 1.600, dois Weber 40 e 122 cavalos para 900 quilos. Um carro que é a expressão pura do tesão automotivo. Comprei em 1980 do paulista que a comprou de Ubaldo Lolli, o chefe da equipe Alfa Romeo Corse daqui, a Jolly Gancia do comendador Piero Gancia, famosa nos anos de ouro do automobilismo no Brasil. Parou muito tempo e precisava de um dono amoroso e abonado para uma boa restauração. Mas voamos muito por esse Brasil juntos e agora ela está com o Bom Joaquim Aires.

O resto foi uma longa sucessão de Opalas 2,5 e 4,1, como também duas Belina II 1,6, principalmente quando descobri a MOTOCICLETA. Um amigo, Vitor, trouxe do Acre uma Honda CB350 Twin 1972 e aprendi a andar nela junto com o Lula, seu irmão. Daí foram anos de equilíbrio instável, e um longo aprendizado: não era necessário ter uma tonelada de lata em torno de você para ser feliz. Montei depois uma Honda CB500 Four 1973 com muita coisa que trouxe dos States e armei uma motinha memorável, com dois freios a disco, um belo quatro em um, a suspensão bem acertada, em suma, uma moto para lenha de rua muito legal. A última foi uma Honda CB750F1 1976 que chagou ao Rio com um pistão quebrado que, por acaso, eu tinha. Comprei e andei muito nela também, mas era pesada e grane demais. O Boi com Abóbora era mesmo a 500, uma soma ideal de motor, quadro e tamanho, uma obra de arte em metal.

Cheguei a andar entre os dez mais rápidos do Rio nos anos 70. Tive moto de 73 a 92, quando a hora das contas em uma separação dolorosa impôs que o acervo de motos tivesse que ir para um daqueles eternos fãs:
uma Honda 500 Four braba até a alma, mais uma 750F1 e uma Kombi de peças. Foi tudo pelo ralo do amor que acabou. E tocou-se um tango argentino.

Mas ando de moto até hoje e me divirto, não com o fervor passado. Talvez seja a idade, mas hoje em dia voltei às origens e em 97 comprei um Chevrolet Fleetline fastback coupe de 1951, uma volta em busca do tempo perdido.

Fiz dele uma tese de como a GM podia ter evoluído o carro, usando as melhores peças de cada ano de sua série 49/54: diferencial longo de Powerglide, motor 261 de Chevrolet Brasil, 12 Volts apesar da Amizade com o Presidente Muricy, uns banquinhos individuais de Mercedes coupé e um cuidadoso acerto de suspensão e direção ajudados pelos fabulosos Michelin de Galaxie. Um carro muito legal que um dia destes ficaria pronto, pois sempre faltam pequenos detalhes. Aliás, diz-se que eles nunca ficam prontos mesmo... O fato é que o Mahalet é muito mais interessante de andar no mundo moderno, sustentando 130 na estrada sem estresse, coisa que oi Chevrola de Papai Mahar não queria saber, como atestaram as bielinhas batendo em uma viagem a Sampa com o amigo que tinha Oldsmobile V8 dirigindo... Pena que em uma crise financeira de 2008 o Mahalet se foi.


* Não repita isso em casa.

As opiniões de nossos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.

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José Rezende Mahar jrmahar@gmail.com
tem uma longa história de participação no mundo dos motores. Desde 1980 escreve sobre veículos: carros, motos, lanchas, caminhões e ônibus, sejam eles atuais ou clássicos. Editou vários cadernos de automóveis ao longo de sua vida profissional, tais como a Manchete, Gazeta Mercantil, o setor de lanchas da Motor 3, além de colaborar frequentemente no Globo, Jornal Do Brasil, O Dia, Transporte Mundial, Mar, Vela E Motor, Automóveis Antigos e O Radiador, órgão do Veteran Car Club do Rio de Janeiro. Também foi piloto de moto, organizador de competições, chefe de equipe de corridas e mecânico. Em suma, um homem que viveu o encanto da máquina e o feitiço do asfalto em sua totalidade, que sente a emoção dos motores a fundo.

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