Trânsitos da vida

Monja Coen ensina a ter sabedoria nos congestionamentos de 2007
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Adriana Bernardino
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- “Certa vez, eu indicava freneticamente ao taxista em que ruas entrar e que outras evitar para fugir do trânsito. A certa altura, ele me disse: ‘ainda bem que não sou egoísta’. Sem entender, perguntei por que ele estava dizendo aquilo. O motorista respondeu: ‘eu gosto de gente, não me importo com o trânsito’’. Que bonito isso, não?”, encanta-se monja Coen, missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo e Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista no Brasil, ao relembrar o inesperado ensinamento.

Muito requisitada pela mídia quando o assunto é apontar soluções simples isto é, que começam dentro de cada um para grandes problemas contemporâneos, a monja zen-budista trafega sobre dificuldades com a bravura de um Land Rover Defender, mas há tanta poesia e leveza em sua performance, que ela mais parece um balão deslizando em céu azul, mesmo que o tema seja congestionamento, estresse, raiva e competição.

“A opção de viver em uma grande cidade” – diz ela, referindo-se ainda à fala do taxista – “exige que convivamos com uma infinidade de pessoas. Devemos lembrar que são nossos semelhantes e que também somos semelhantes de alguém”.

Espumar de raiva, ficar ansioso ou ser grosseiro com tantos outros motoristas que dividem o mesmo espaço adianta tanto quanto querer acelerar na marginal Pinheiros, às seis da tarde, depois de uma hora de chuva: nada. O conselho da monja não é fingir que não se está sentido nada, mas perceber as emoções e permitir que elas se aquietem, em vez de alimentá-las. “Tudo que começa acaba, até o mau-humor”.

Uma explosão de raiva pode trazer conseqüências irreversíveis. “Fiz a cerimônia no velório de um rapaz que, após reclamar de uma fechada, levou um tiro na cabeça. Tanto o agressor quanto a vítima morreram. Quem atirou morreu para tudo aquilo que já tinha sido até aquele momento e se transformou em um assassino. Também a família e amigos dele sofreram com a perda. Quando acontece uma tragédia dessas, aproximadamente mil e duzentas pessoas são afetadas”.

O ideal, então, seria fechar os olhos aos erros no trânsito? “Não”, explica a monja, “ele deve ser avisado para que não repita o gesto. Mas aponte o erro de uma forma carinhosa. Um leve toque na buzina – ao contrário daquela buzinada nervosa – é suficiente para o vizinho perceber que foi imprudente. Não tente ser a palmatória do mundo. Para isso, existe a lei”.

A monja lembra àqueles que não se importam em parar em fila dupla, trafegar pelo acostamento, entre outros gestos prejudiciais, que estão criando condições para outras pessoas fazerem o mesmo. “Gandhi diz que quando damos um passo para a paz, toda a humanidade dá”.

“Também não espere reconhecimento pela buzinada amorosa que deu” – alerta Coen. “Não é todo mundo que gosta de ser ajudado. Devemos lembrar que, ao fazer uma boa ação, somos como pontes. Há pessoas que – ao passarem por uma ponte – abençoam sua existência. Alguns cospem na ponte; há ainda os que xingam e reclamam por ela estar ali. Então, não espere agradecimentos”.

Reaprendendo a viver no trânsito

Ver a vida por outro ponto de vista nem sempre é fácil. Albert Einstein dizia que é mais difícil quebrar um preconceito do que desintegrar um átomo. Mesmo assim, vale tentar algumas mudanças que podem melhorar a qualidade de vida do motorista. Monja Coen ensina alguns:

Exercitando mãos e cérebro – Quem acha pesado o trânsito das grandes cidades brasileiras precisa conhecer o de Tóquio. Segundo conta Coen, que morou lá, o trânsito diário é parecido com o que temos aqui na volta da praia em feriado de fim de ano. Lento. “Tanto que a maioria das batidas são as menores, porque os motoristas dormem ao volante”, diz a monja.

Para diminuir o problema, são ensinados alguns exercícios nas auto-escolas de Tóquio, como o ilustrado na foto ao lado. Se estiver com sono ou cansado, experimente fazê-lo. Com as palmas abertas, articule para baixo dedo por dedo, dizendo o nome de cada um polegar, indicador, médio, anular e mínimo. Depois, quando todos os dedos estiverem fechados, faça o caminho inverso. Articule-os para cima, começando pelo dedo mínimo.

Relaxamento total – Com a lista de compromissos aumentando, está cada vez mais difícil conseguir relaxar. Um bom exercício para fazer todo dia, principalmente nos momentos de maior exaustão, é, por um minuto, fazer de conta que não há mais nenhuma atividade. “Sabe aquela sensação de dever cumprido? Então, sinta isso. Diga para si mesmo: “que bom, consegui terminar tudo! Estou livre”, diz Coen, enfatizando que esse momento de relaxamento ajuda a recobrar as forças.

Curta-se – Há quanto tempo você não consegue ficar sozinho? O trânsito pode ser uma ótima oportunidade. Aproveite para fazer perguntas, refletir. “Pense em quem você é. De onde veio. Para onde vai. Por que faz isso, por que gosta daquilo, o que não suporta. O que gostaria de mudar. É o seu momento. Que bom que o trânsito fará a gente chegar atrasado naquela reunião chata e nem precisamos mentir! Que bom que o trânsito fará a gente esperar um pouco mais para ver quem gostamos a emoção aumenta!”

A vida não pára – “É bom que comecemos a perceber que a vida não pára enquanto estamos dentro do carro, ela entra junto. A tapeçaria de nossa existência continua”, alerta a monja. Por isso, enquanto estiver no trânsito, aproveite o agora.

Nada de remoer passados nem ficar ansioso com o que está por vir. “Olhe para as pessoas ao redor, olhe para cima às vezes, nos esquecemos de olhar o céu, olhe para o horizonte. Observe as árvores. Ouça o canto dos pássaros, mesmo na cidade é possível escutá-los. Se estiver chovendo, relaxe. Nosso corpo é 65% água, o som da chuva acalma. Faça tudo que não costuma fazer. Se você ouve rádio todos os dias, experimente desligá-lo. Se não ouve, grave um CD com suas músicas preferidas. Mude. Faça tudo diferente”, instiga Coen. “Tudo é uma questão de ponto de vista.”

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