Você se curou do medo de dirigir?

Como saber se a coragem venceu sua fobia ao volante
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Andréia Jodorovi
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A superação do medo de dirigir deve caminhar de acordo com o ritmo de cada motorista. Este, por sua vez, precisa achar o equilíbrio entre ousadia para avançar e cautela para não colocar tudo a perder. Há o momento de “forçar a barra”, sem o qual nunca sairíamos da zona de conforto; mas esse avanço é, na medida do possível, calculado. Precisamos, por um tempo, – seja no momento de ligar o carro, dar a primeira volta no quarteirão ou encarar uma rodovia, com um professor ao lado, terapeuta, sozinho ou seguindo alguém em outro carro – ter uma margem de segurança.

Um dia, porém, um fato, um caso, obriga você a tirar o carro da garagem sem programação prévia, acompanhante ou amigo para servir de porto seguro. Nesse momento, você saberá se, enfim, vai engrossar o grupo de pessoas para quem dirigir é tão natural quanto comprar uma fruta na feira. É preciso um bom motivo, um motivo de vida ou morte, que o desafie nas profundezas do seu ser. No meu caso, o teste veio disfarçado de casamento de uma grande amiga.

Desde que recebi o convite, não me importei em ver o endereço. Hábito de ex-não-motorista. No dia do casamento, porém, meu acompanhante – e motorista – pegou uma gripe daquelas. A solução era ir de táxi. “Por que você não vai dirigindo?”, ele me sugeriu entre espirros. “Não sei tirar o carro da garagem”, me defendi. “O carro já está na rua, você nem precisará manobrar”, ele insistiu. “Não sei chegar”, aleguei. “O GPS leva você, é fácil”. Estava ficando tentador. “Não saberei estacionar lá”, resisti um pouco mais. “Deixe com o manobrista”.

Pensei um pouco. Será que estou pronta para isso? Eram 9h30 da noite, lugar desconhecido; eu, sozinha. Titubei, mas aceitei que minha hora tinha chegado. Se sobrevivesse à experiência, alcançaria um novo patamar na minha vida de motorista.

Tinha um GPS no meio do caminho

GPS são péssimas companhias se você não tem habilidade para mudar rapidamente de faixa ou ainda não tem uma ideia clara de direita, esquerda ou de medidas. “Vire à esquerda a 180 metros”, por exemplo, pode tornar-se um enigma do tipo decifra-me ou devoro-te. Acabei devorada várias vezes. Entrei em ruas em saídas, contramão e outras ciladas que, até agora, me dão calafrios de lembrar.

Quase uma hora depois – para um percurso que levaria no máximo trinta minutos – meu companheiro eletrônico tinha uma boa notícia: “você alcançou o seu destino”. No local, entretanto, não havia nada além de motéis. Troquei, então, o GPS por homens barbudos e bêbados, criaturas da noite cujas informações eram tão surreais que me senti num filme dirigido por Tarantino ou David Lynch.

Enquanto isso

Eu pensava em minha amiga. Imaginar que perderia um dos momentos mais especiais da vida dela me deu aquela coragem ancestral de mãe que abre boca de crocodilo para salvar um filho. Em meu roteiro labiríntico, cai em uma marginal, também conhecida como “pesadelo” para quem tem medo de dirigir. Eu não imaginava dirigir ali, sozinha, tão cedo. Entretanto, o pavor ficou em segundo plano. Meu único medo, agora, era o de não chegar.

Parei o carro. Tentei ligar para alguns amigos que estavam na festa, mas ninguém ouviu o celular. Tentei ligar o GPS novamente. Vingativo, resolveu ficar mudo. Misteriosamente, o som havia desaparecido. Agora, sim, eu estava absolutamente perdida e cada vez mais distante de assistir ao casamento. Minhas esperanças estavam nas últimas. Com elas, meu combustível. Fiz o que toda mulher nessa situação faz: chorei.

Voltei para casa sem saber qual música embalou sua entrada no salão de festas, nem quais flores formavam seu buquê. Não sei se a alegria a fez chorar ou rir, se – como prometeu – bebeu uísque para driblar o nervosismo. Sei que a felicidade – e é isso que eu gostaria de dizer a ela se estivesse lá – é feita de incompletude, mas existe. Basta procurá-la para além das coisas que, aparentemente, não são como gostaríamos. Eu, por exemplo, havia perdido o casamento, mas encontrado minha superação.

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