Batalha da indústria

Por que o americano está perdendo para o japonês
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Celso Lamas
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- Este relato tem como base matéria escrita por Micheline Maynard no jornal New York Times – Today’s Headlines, de sábado, 03 de junho de 2006. Micheline é jornalista especializada na indústria automobilística e relata todos os fatos que acontecem em Detroit e outras partes do mundo no que diz respeito à situação dos automóveis no mercado.

Para poder entender o que está ocorrendo com a competição entre os carros americanos e japoneses e por que o americano está perdendo cada vez mais o seu próprio mercado, veja o que ocorre com o mais vendido carro familiar fabricado nos Estados Unidos pelos próprios americanos.

Os gerentes Edward J. Peper Jr. geral e Mark A Clawson marketing, da Divisão Chevrolet, dizem que “as vendas do Chevrolet Impala cresceram em cerca de 6,4% este ano”. Nos anos 1960, o Impala foi o Rei das Estradas – a GM vendeu mais de 1 milhão de unidades do modelo em 1965. Hoje o Impala ainda é o melhor de vendas da marca, mas atinge apenas 1/3 do total de 1965, cerca de 300 mil carros. O sedã Chevrolet fica atrás das quatro ofertas dos japoneses – os Toyota Camry fabricado nos EUA e Corolla e os Honda Accord e Civic – na corrida anual para ser o melhor de vendas na América.

Edward J. Peper Jr. acha que “estão aptos a conquistar mais compradores de Impalas porque possuem uma rede imensa de concessionárias”. Mr. Peper se esquece de que, para conquistar mercado, é preciso ter um produto competitivo, não basta ter a maior rede de atendimento ou de vendas se o seu produto está ultrapassado e enfrenta problemas no pós-venda.

Se você comparar um Impala atual com um Camry poderá ver que as diferenças de “design” são mínimas, tendo ambos o mesmo porte, pára-choques semelhantes, faróis parecidos, grade maior no Camry talvez devido a proporcionar melhor arrefecimento do motor.

Quando você compara os três: Impala, Camry e Accord, aí a coisa piora, pois os três têm praticamente a mesma “cara”. O Accord se aproxima mais do Impala em termos de faróis e grade, porém sua lateral é praticamente idêntica. Claro que cada fabricante falará que o seu é o melhor, o mais bonito, mas temos que analisá-los pelos olhos do comprador. Afinal, ele comprará sempre o produto que lhe ofereça as melhores vantagens. E quem oferece o melhor?

Difícil. Em termos de preço, todos os três variam em torno dos US$ 25.000 até os US$ 27.000 ou de R$ 56.250 a R$ 60.750 sendo que a Chevrolet dá um desconto de US$ 500 na compra de seu produto, seja lá de que modelo for. Em seus interiores, claro que os japoneses colocaram todas as parafernálias possíveis de atrativos da eletrônica atual: iPod, MP3, Booster Sound System, GPS, controle automático de velocidade, transmissão automática, entre outros itens, mas o Impala oferece algo que nenhum deles tem: o acesso livre ao porta-malas pelo interior do carro.

O Camry tentou, mas não conseguiu tirar o reforço lateral que segura toda a estrutura da parte traseira, proporcionando assim apenas um “buraco” para se chegar ao porta-malas. Claro que, para isto, o encosto do banco traseiro tem que se escamotear totalmente, senão você não conseguirá chegar lá. O Accord não tem o benefício do acesso ao porta-malas. O banco é fixo e não se pode chegar ao porta-malas pelo seu interior.

O Camry ainda oferece GPS, o acessório da moda hoje em qualquer parte do mundo até aqui no Brasil já tem carro com GPS, em fase de liberação para uso.

Então por que o Impala vai perdendo gradativamente o mercado para os japoneses? Por que os outros carros, tais como o Buick, o Malibu e o Pontiac, também não conseguem se aproximar das vendas dos asiáticos? Estranho, não é? Não, não é estranho. A maior vantagem que os carros japoneses oferecem, para a qual a indústria americana ainda está "dormindo de touca", é a manutenção e reposição de peças. O carro japonês não quebra, tem garantias que superam qualquer outra do carro americano e oferece exatamente o que todo consumidor quer: sossego. Ele paga para não entrar numa concessionária por considerar tudo muito caro: a mão-de-obra, o preço das peças... Tudo que se vai fazer demora aproximadamente cinco dias para ficar pronto, seja conserto, reparo ou troca de peça.

Quando gerentes como Peper e Clawson acordarem e derem um soco na mesa do Departamento de Estilo e Engenharia lá de Waren, enfrentando a realidade do que os japoneses estão tentando fazer no mercado americano, talvez consigam salvar o ídolo nacional. Se não o fizerem, adeus, será tarde demais, vão fechar as portas. A Toyota, por exemplo, fabricou mais de 400 mil carros em sua fábrica de Georgetown, Kentucky, em 2005. Usando as instalações da conterrânea Subaru, em Lafayette, Indiana, vai começar a produzir mais 100 mil veículos em 2007. Juntados com o que ela já fabrica e ainda por cima importa, eles chegarão a mais de 500 mil veículos por ano.

Quem vai conseguir batê-los com um carro que custa os olhos da cara para sustentar como o Impala? Não adianta fazer um carro competitivo para os olhos do mercado se você não oferece o principal: seu custo de vida útil. Cinco anos de revisão e manutenção, segundo eles, custa a bagatela de US$ 5.000.

As indústrias americanas Ford, GM e DaimlerChrysler precisam acordar e lutar contra a invasão nipônica em seu mercado; precisam fabricar um automóvel que seja competitivo em design – em primeiro lugar –, competitivo em preço e competitivo em sua qualidade de produto, diminuindo o custo/peça e o custo/manutenção, aumentar os prazos de garantias e acabar com descontinhos ridículos para que o comprador se sinta atraído por um engodo.

O WebMotors não se responsabiliza pelas declarações de seus articulistas e colaboradores.

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Celso Lamas cellam@ajato.com.br é “designer”, tendo desenvolvido sua carreira na indústria automobilista brasileira com a Ford, Chrysler e Volkswagen e trabalhado em diferentes países, como os EUA, Alemanha, Argentina e Reino Unido.

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