Dobrando a esquina

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Fernando Calmon
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- Com o preço do petróleo batendo seguidos recordes e se aproximando do patamar de US$ 55,00 o barril, existe a expectativa de aumento da gasolina nas bombas de abastecimento a qualquer momento.

Ao lado da taxa de juros e do aço, já transformado em vilão, a Anfavea pela primeira vez admite que o petróleo também possa ser um fator de impacto indireto no ânimo do comprador de automóveis nestes três últimos meses do ano. Afinal, só em 2004 o chamado ouro negro subiu mais de 60%. E os cenários de incertezas políticas, conflitos regionais, acidentes meteorológicos e até diferenças religiosas, de tempos em tempos, não param de afligir as regiões produtoras do mundo.

Até agora gasolina e diesel subiram apenas pouco mais de 10%, em junho último. Existe forte suspeita de a Petrobrás vir segurando artificialmente os preços por ordem do poder central, seu maior acionista, até o resultado final das eleições municipais. Um dos argumentos da estatal é que há uma componente especulativa e, assim, se deve esperar a definição de um novo patamar de estabilização. Este nível estimado já foi de US$ 35,00 e pode ter saltado para US$ 40,00, segundo analistas do setor.

Especulação torna-se sempre a palavra mágica para explicar o inexplicável. Tanto que, agora, a Petrobrás, a bem da verdade, tem sido comedida nessa avaliação. Prefere, com mais ênfase, advertir sobre as dificuldades a enfrentar, se deixar de ser remunerada adequadamente, para cumprir o ambicioso plano de investir mais de US$ 50 bilhões nos próximos anos e garantir a sempre anunciada e adiada auto-suficiência em petróleo. Por outro lado, há vozes argumentando que, se o Brasil já produz 90% de suas necessidades internas, para quê seguir os preços internacionais?

Esse raciocínio é típico de “me engana que eu gosto”. Há tempos, quando havia cotas de aquisição de dólares para viagem pelo câmbio oficial e a cotação paralela passava de 100% de ágio, brasileiros “patriotas” avaliavam suas compras no exterior pelo valor oficial. Esqueciam de que, se dobrassem a esquina, o dólar valia o dobro em relação à moeda nacional. Com o petróleo, ressalvadas as proporções, ocorre o mesmo. A Petrobrás já teve que socorrer a pequena destilaria da Ipiranga, no sul do País, em função das diferenças entre os valores interno e externo do óleo cru.

Portanto, a pior solução é ignorar o que acontece fora das fronteiras. Inglaterra e Noruega, dois países exportadores líquidos de petróleo, não baixaram os preços internos à medida que faziam descobertas no Mar do Norte. O caso recente do aço no Brasil e no mundo, reflexo da disparada das cotações puxadas pelas compras da China, é emblemático. A Petrobrás, como estatal e maior empresa brasileira, parou de investir na Argentina e só voltou sob intensa pressão do governo vizinho porque, se dobrasse a esquina, alguém pagaria mais pela matéria prima descoberta e exportável.

O petróleo, de fato, nunca vai faltar. Só encarecer, até chegar o momento de sua substituição ou reservá-lo a uso rentável. Enquanto isso, se deve resistir à tentação de intervir de forma disfarçada nos mecanismos de formação de preços. Um prêmio ao País pela auto-suficiência talvez pudesse ser levado em conta. Mas adiar aumentos, sob critérios duvidosos, definitivamente não funciona.

RODA VIVA

PASSADOS os meses de agosto e setembro, muito inadequados como base comparativa com o fraco ano de 2003, a indústria automobilística espera agora a verdade dos números do último trimestre de 2004. Setembro 203.000 unidades quase bateu o recorde histórico de produção mensal de 1997, novamente graças às exportações. Aparentemente, o bom humor dos compradores continua inabalável.

MERCADO brasileiro ainda atrai num segmento mais rentável como os médios. Sentra começa a ser importado do México sem imposto de 35% e vendido aqui esta semana. Objetivo da Nissan é ocupar 1% de um universo de 10 modelos, cerca de 700 unidades em 2005. O carro tem o mesmo porte externo do Corolla, mas perde um pouco em espaço interno e porta-malas.

ESTILO conservador do Sentra pode deixar de ajudar, bem como a potência de 115 cv do motor 1.800, inferior à necessária para uso do câmbio automático, único disponível. Pelo que demonstrou em avaliação por estradas mexicanas, é um automóvel robusto, bem acabado e equipado, como versão intermediária de preço R$ 58.000,00. Freios ABS são de série.

NOVIDADE proposta pela Valeo, no recente Salão de Paris: pedal da embreagem sem cabo. Motorista escolhe se deseja usá-lo. Se não, basta trocar as marchas diretamente como no sistema de embreagem automática. Se preferir usar o pedal de dimensões menores, a carga simulada virtualmente é bem menor e constante ao longo da vida útil da embreagem, bastante aumentada com este recurso.

MUITO cuidado com borracheiros que prometem vulcanizar pneus cortados. Segundo a Pirelli, nenhum conserto é viável se atingidos os cordonéis de carcaça, em particular nos flancos. Na região da banda de rodagem permitem-se reparos de cortes não superiores a 5 mm de extensão, que só tenham atingido a borracha.
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E-mail: fernandocalmon@usa.net

Fernando Calmon, engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Sua coluna semanal Alta Roda é publicada, desde 1999, em onze jornais brasileiros e no site WebMotors. Assina as colunas Direto da Fábrica na revista Carro e Roda Viva na revista Jornauto. Correspondente para América do Sul do site americano The Car Connection. Diretor editorial das oito revistas automobilísticas da On Line Editora. Consultor técnico, de mercado e de comunicação.

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