José Rezende Mahar em: A democratização do automatismo

Andei muito com os dois carros automáticos de mais baixo preço no Brasil, Palio Dualogic e Renault Sandero Automatique
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José Mahar
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– Tive uma experiência única nos últimos dois meses: andei muito com os dois carros automáticos de mais baixo preço no Brasil, o Novo Palio Dualogic R$ 42,70 mil e o Renault Sandero Automatique R$ 43 mil. Carros e câmbios bem diferentes, só se igualam na inexistência do terceiro pedal, o da embreagem, embora sejam bem diferentes de corpo e alma... Durante décadas existiu um preconceito a respeito de câmbios automáticos no Brasil, julgados complexos, difíceis de consertar e causadores de motores gasolinômanos, de consumo Pantagruélico. Isso era causado pelos câmbios americanos dos anos 50, curiosamente invenção básica de um Brasileiro, José Braz Araripe, bastante desenvolvida pela General Motors e sua divisão Hydramatic, daí nome genérico em brasileiro de hidramático. Esses câmbios eram totalmente hidráulicos e desperdiçavam muita energia para oferecer comodidade de não passar marchas e operar a embreagem, além de serem construídos com uma arquitetura mecânica totalmente diferente dos manuais – porque mecânicos todos são, mas alguns automáticos – tornando mexer neles uma arte beirando a feitiçaria, digna de iniciados no lado negro da Força. Mas aí veio o Uno de 300 Reais por mês e as ruas foram inundadas de carros, tornando os percursos urbanos no famoso bate-bate de pára-choques. Isso criou lugar para os automáticos no coração do povo e ocasionou os dois carros que analisamos aqui.

O Novo Palio é o mais recente hit de Betim, onde foi renovado um de seus cavalos de batalha na Guerra das Vendas. Montado em cima de uma plataforma totalmente renovada que chegou com o Novo Uno há alguns meses – com grande sucesso, diga-se de passagem – o Palio chegou com uma carroceria completamente renovada nas formas e no tamanho e espaço interno. Mais confortável e equilibrado por ser equipado com uma suspensão traseira com os amortecedores mais distanciados, permitindo ação controladora dos movimentos de carroceria mais eficiente sem ser ou mole e balançante ou dura como um pau como era no velho Palio, mais ou menos derivado do Uno original, o novo Palio é uma revelação. Muito bem acabado e mesmo bonito e convincente, ele porta motores modernos de origem BMW, muito evoluídos pela engenharia da Fiat Brasil para fazer o modelo 1,8 litro e o funcionamento indispensável Flex, o Palio é um exemplo de porque a Fiat BR é o líder do mercado. Firme como todo carro italiano e bom de curva com pneus Pirelli relativamente mundanos, o Palio vem equipado opcionalmente com o câmbio controlado automático ou manualmente chamado Dualogic.

Todos sabem que se trata de uma caixa convencional controlada por dezenas e homenzinhos verdes que vivem nas sua profundezas passando as marchas para você, bem como fazendo força na embreagem para tornar sua vida mais fácil. A Fiat evoluiu muito o software de controle do cambio desde o saudoso Stilo. Agora não dá mais as cabeçadas fortemente perceptíveis dos modelos antigos e passa as marchas sem trancos desde que o acelerador esteja pouco apertado, em marcha normal de transito ou que se aprenda facilmente a aliviar o pé no acelerador ao sentir a iminência das trocas de marcha. Para andar rápido recomendamos o perfeito controle manual das marchas. No resto do tempo o Dualogic funciona bem e, novidade boa, o novo software pode ser retrofitado nos concessionários se o usuário quiser. Como o Dualogic é um cambio manual com embreagem e sem deslizamento no conversor de torque, além de ter cinco marchas, um leque de opções maior, seu funcionamento menos suave que um automático convencional se paga em um custo inicial menor, por volta de dois mil reais e um consumo de combustível na cidade bem menor, igual aos 9 km/l do carro normal. São vantagens que se revelam quase insignificantes diante dos custos que a escolha envolve.

O Sandero automático tem um motor comparável, de 1,6 litro, 16 válvulas e 110 cavalos, mas é equipado com um câmbio automático convencional, dito epicíclico, que desliza em um conversor hidráulico de torque. Sua suspensão é mais macia, como convém a um carro francês, sem que isso implique em imprecisão ou flutuações parasitas. É só uma questão de personalidade francesa suave ou italiana, nervosa e mais esportivada. A aparência foi renovada de forma bem sucedida recentemente e o Sandero tem tido boa repercussão no mercado, sendo visto freqüentemente nas ruas. É um carro confortável, bem acabado e enérgico, mas eu particularmente julgo que a caixa automática teria casado melhor com o motor de oito válvulas, como todos eles detentor de mais torque em baixas rotações, o que permitiria menos patinação no conversor de torque, assim configurado para aproveitar melhor a energia do motor e permitir reações mais enérgicas ao acelerador, principalmente no transito das grandes cidades ao sair da imobilidade ou reacelerar em baixa velocidade, pois em quarta a ligação entre o motor e a caixa é mecânica. A trava do conversor liga ambos com um relação bem sobremarcha de 0,70:1 e na estrada o Sandero gasta pouco pois na maior parte do tempo está funcionando igual a um cambio manual convencional. O valor relativamente alto é na cidade, onde faz facilmente 5,7 km/l de etanol, valor parecido com os Peugeot e Citroën 1,6 litro igualmente de 16 válvulas. Na estrada consegui mais de 11 por um de gasolina ou nove por um de etanol, o que não preocupa. Mas a suavidade e maciez do cambio são dignas de um carro americano grande. É uma questão de sensação pessoal, por isso recomendamos andar nos dois se você está cansado de passar marchas 1.800 vezes todos os dias no caminho do trabalho...

As opiniões de nossos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.

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José Rezende Mahar jrmahar@gmail.com tem uma longa história de participação no mundo dos motores. Desde 1980 escreve sobre veículos: carros, motos, lanchas, caminhões e ônibus, sejam eles atuais ou clássicos. Editou vários cadernos de automóveis ao longo de sua vida profissional, tais como a Manchete, Gazeta Mercantil, o setor de lanchas da Motor 3, além de colaborar frequentemente no Globo, Jornal Do Brasil, O Dia, Transporte Mundial, Mar, Vela E Motor, Automóveis Antigos e O Radiador, órgão do Veteran Car Club do Rio de Janeiro. Também foi piloto de moto, organizador de competições, chefe de equipe de corridas e mecânico. Em suma, um homem que viveu o encanto da máquina e o feitiço do asfalto em sua totalidade, que sente a emoção dos motores a fundo.

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