Moda em SP, reúso de água é praxe na indústria

Montadoras chegam a recuperar 99% da água usada no processo produtivo
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Incomodada com a recente crise de abastecimento de água em São Paulo, a balconista Célia Maria Pereira passou a recolher a água da chuva e a usar a água da máquina de lavar para lavar o quintal de casa. No fim do mês veio a compensação: a valor da conta de água caiu quase pela metade.

 

“Não sabia que a economia era tanta”, surpreendeu-se a moça, que agora estabeleceu regras na casa: ao primeiro sinal de chuva inicia-se uma correria atrás de baldes e vasilhas para não deixar escapar o chamado precioso líquido.

 

A atitude de Célia estimulou o uso consciente da água em todos os moradores da casa, que passaram a economizar na cozinha, no tanque, no banheiro, no quintal.

 

A crise de abastecimento fez as pessoas repensarem o uso da água e estimulou o reúso, coisa que boa parte da indústria já faz há muito tempo.

 

Criado em fevereiro de 2014, o incentivo à redução do consumo de água já poupou quase 100 bilhões de litros no período, segundo a Sabesp, volume suficiente para atender um milhão e meio de pessoas. Mas o assunto só começa agora a ganhar espaço no dia a dia do usuário comum, que sempre viu a água como um bem natural e infinito.

 

Grande consumidora, a indústria automobilística tem no reúso da água um dos pilares da política de sustentabilidade. Algumas fábricas já atingiram níveis de reúso extraordinários, com o reaproveitamento de 99% da água utilizada na produção de veículos.

 

Praticamente todas as montadoras fazem do reúso da água não apenas um mote para conquistar o selo ambiental ISO 14001 e ficar bem na fita, mas para reduzir despesas, conforme veremos mais adiante.

 

O consumo de água na indústria automobilística caiu expressivos 29% em três anos. Dados da Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos, indicam que cada carro produzido no Brasil gastava, em 2008, uma média de 5,5m3 de água. Em 2011, o gasto foi reduzido para 3,9 m3 por unidade.

 

A Toyota é uma das empresas que puxa esse índice para baixo: no ano passado a marca japonesa gastou apenas 2,12 metros cúbicos de água por carro fabricado, reduzindo o índice que era de 2,81 m³/veículo em 2012. Entre as iniciativas, a fábrica eliminou o banho de água deionizada e melhorou o sistema de spray da pintura, além de captar água de chuva para uso nos sanitários.

 

Como se sabe, a cabine de pintura é uma grande consumidora de água no processo de produção de veículos. Daí os esforços da indústria em aperfeiçoar o sistema para fazer economia. Atualmente a Scania faz estudos para redução do tempo dos banhos das cabinas dos caminhões na cabine de pintura. O objetivo é reduzir de 5,9 minutos para 4,6 minutos. A medida vai reduzir em 25% o consumo de água e, de quebra, mais 30% de redução no consumo de eletricidade.

 

O reúso de água é parte de uma atividade mais abrangente: o uso racional da água, que inclui o controle dos desperdícios e a redução da produção de efluentes.

 

Assim, muitas fábricas tratam a água usada na produção, reduzindo o consumo e os gastos com a conta de água. Em alguns casos, a água tratada é devolvida à natureza, jogada nos cursos d´água às vezes mais limpas do que quando foi captada.

 

O reúso provoca também a redução do consumo de água potável e a destinação de água de qualidade inferior para atividades menos nobres, como limpeza de galpões e uso em jardins.

 

No final dos anos 1990 a Fiat investiu cerca de R$ 10 milhões na construção de um sistema de recuperação e reúso da água utilizada na produção dos veículos em Betim. Foi um investimento pesado, mas rapidamente amortizado. Em menos de três anos, com a redução do custo da conta de água, o investimento já estava pago.

 

Para se ter uma idéia do que essa recuperação representa para a natureza, saiba que o consumo da empresa na época em Betim era equivalente ao de uma cidade de 300 mil habitantes.

 

O Complexo de Tratamento de Efluentes Líquidos, que permitiu o reúso de 99% da água, é feito pelo sistema de membranas (MBR) e osmose reversa. – A tecnologia MBR funciona como um filtro que deixa passar, através das membranas, somente água, alguns íons e moléculas de baixo peso molecular, barrando os sólidos e bactérias. Já a Osmose Reversa funciona como uma membrana semipermeável que absorve o sal e componentes nocivos à saúde humana.

 

A empresa praticamente eliminou a captação da água potável da rede pública para o uso industrial e uma economia que corresponde, em valores, ao abastecimento de uma cidade de 30 mil habitantes.

 

Atualmente a fábrica da Fiat traçou o objetivo de ampliar o reúso de 99% para 99,4%, além de reduzir os desperdícios e inserir novos processos com consumo menor de água na produção. Até o vapor d’água gerado pelos sistemas de compressores de ar é reaproveitado: o “suor das máquinas” gera uma economia de quatro mil litros por hora. Essa água é reaproveitada no sistema de resfriamento dos próprios compressores.

 

O cuidado com a água nas fábricas de veículos é condição primordial para a obtenção do ISO 14001, a certificação ambiental mais conhecida no mundo e que implementa sistemas de gestão ambiental nas organizações visando sua conformidade com a realidade do empreendimento. Esta norma internacional ajuda a reduzir o impacto ambiental de empresa e é uma referência pública do cuidado com o meio ambiente.

 

Mas muitas organizações têm sua própria certificação, com objetivos de redução do impacto ambiental mais rigoroso que a norma oficial. A Honda aplicou no Brasil o conceito mundial da empresa chamado Green Factory. O programa prevê redução de consumo em todas as suas fábricas no mundo. A Estação de Tratamento de Água da fábrica de Sumaré, com capacidade diária de 720 mil litros, é parte desse processo.

 

Após a utilização da água ns linhas de produção, os efluentes são tratados antes de serem lançados ao meio ambiente. Todos os efluentes (da produção, dos refeitórios e dos sanitários) passam por um processo bioquímico de purificação. Parte da água é direcionada à irrigação e parte é devolvida para o Ribeirão do Quilombo.

 

Na fábrica de motos em Manaus, a água é captada em poços e, após usada na produção, é submetida a um tratamento físico-químico e biológico. Passa por desinfecção e segue para a lagoa de estabilização, onde uma parte é usada na irrigação dos jardins da fábrica e outra volta para a natureza, lançada no Igarapé do 40.

 

A Ford atingiu dois anos antes do previsto as metas traçadas de redução do consumo de água em suas fábricas, estabelecidas como estratégia global em 2000. O Brasil contribuiu para esse resultado com várias ações, especialmente a intensificação do reúso de água nos processos industriais. Na fábrica de Taubaté, em São Paulo, a água dos processos industriais é reciclada e abastece um lago que abriga aves nativas. Na fábrica de Camaçari, na Bahia, o esgoto é tratado por processo ecológico para reúso na rega dos jardins.

 

Neste ano o plano é reduzir em mais 2% o uso de água, conforme o 15º Relatório Anual de Sustentabilidade da empresa e vai começar a trabalhar em conjunto com seus fornecedores para obter reduções de uso de água.

 

Na fábrica da Hyundai de Piracicaba, o sistema de uso de água é do tipo “fechado”, isto é, a água captada fica circulando pela fábrica, sem retornar ao meio ambiente. Para outras atividades que demandam captação, a Hyundai reduziu praticamente a zero a coleta a partir do rio Piracicaba.

 

Em Anápolis, a Hyundai Caoa tem uma estação de tratamento de resíduos e a água potável é usada apenas para fins nobres, o que contribui para a preservação dos recursos. A água reciclada serve para uso nos banheiros e na irrigação das áreas verdes. Também é tratada com a tecnologia por membranas de ultrafiltração, com capacidade de tratamento de 55 mil litros/hora. A redução de consumo em 2014 foi de 30% em relação ao período de estiagem de 2013.

 

Em Catalão, a Mitsubishi faz captação e armazenamento da água da chuva, recolhida dos telhados dos galpões da fábrica e a empresa faz campanhas de uso responsável de água junto aos funcionários. A nova cabine de pintura foi projetada para reduzir ao máximo o uso de água na operação.

 

Quase todas as montadoras de veículos utilizam água de poços artesianos na produção. Outras, como a Nissan, também usam água de fontes naturais. A marca japonesa capta água do rio Paraíba para uso na fábrica de Resende e, após o uso no processo produtivo, é tratada e devolvida à natureza.

 

A Mercedes-Benz mantém estação de tratamento de efluentes em São Bernardo do Campo, assim como a General Motors em suas unidades no País. No total, a GM, com seus processos de tratamento, evita o consumo de água potável e faz o reúso de mais de 225 milhões de litros por ano. Produzindo na região na fábrica da PSA, Citroën e Peugeot têm como prioridade em seus programas de gestão ambiental a redução do uso de recursos naturais.

 

Funcionários da Fiat contam com orgulho o caso da morte de peixes na lagoa que recebe a água tratada na fábrica de Betim, construída para controlar a qualidade da água reciclada. Certo dia, funcionários encontraram grande quantidade de peixes boiando; ao verificar a causa, constatou-se que, por uma necessidade momentânea, a lagoa tinha sido abastecida com água da empresa distribuidora da cidade.

 

A crise de abastecimento está fazendo despertar em parte da população a consciência de que os recursos naturais do planeta são finitos e portanto devem ser preservados. Além de contribuir para a construção de um mundo mais solidário e sustentável, ações como Redução, Reaproveitamento e Reciclagem colocam os “três erres” na ordem do dia.

 

Não se trata de diletantismo em defesa do meio ambiente, mas de uma ação que visa a economia de preciosos reais. Que diga dona Célia Maria, que está economizando na conta da água, e principalmente a indústria automobilística, que, com suas ações ambientais, reduz os custos de produção, aumenta a margem de lucro e melhora a imagem junto ao consumidor.

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