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Fernando Calmon
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- Em todo o mundo, o maior fator isolado de mortes no trânsito é a direção sob influência do álcool ou mesmo embriaguez. O problema torna-se mais grave no Brasil pelo pouco respeito à vida.

Estima-se que cerca de metade dos mortos em acidentes tenha origem direta ou indireta em um motorista alcoolizado. Isso se constata com facilidade ao se analisar o nível de álcool acima do limite legal em um terço dos motoristas e motociclistas que passam por autópsias, decorrentes de mortes violentas, nos institutos de medicina legal. Outros motoristas e pedestres, que não beberam antes de dirigir, engrossam as estatísticas por terem se envolvido em acidentes com o pior tipo de irresponsável ao volante.

Vários especialistas destacam as campanhas educativas como um recurso muito importante para enfrentar essa verdadeira tragédia. Há quem defenda, inclusive, a tolerância zero: motorista teria que dirigir sem ingerir nenhuma gota de bebida alcoólica. No recente XV Fórum Volvo de Segurança no Trânsito, realizado em Porto Alegre, RS, o diretor do instituto belga voltado ao assunto, Patric Derwediwen, relatou a inteligente campanha em favor do motorista voluntário em rodízio que, em um grupo de amigos, decide deixar o copo de lado e guiar sóbrio. A Bélgica influenciou outros países europeus e cedeu sua experiência.

Para evitar estigmatizar os jovens, também há iniciativas inteligentes. Uma seguradora na Espanha oferece descontos de 50% no preço do seguro para motoristas de 18 a 25 anos de idade que se comprometam, por contrato, a não beber e dirigir especialmente entre meia-noite e 6 h da manhã. A expectativa da companhia é quadruplicar o número de jovens segurados. Eles permaneciam fora do mercado porque as apólices são caras demais por estarem incluídos em um grupo de alto risco.

Ponto pouco explorado é a recomendação para deixar de aceitar carona de quem bebeu, mesmo que aparente sobriedade. Café e banho frio de nada adiantam nesses casos. Amizades podem ser abaladas, festas talvez fiquem menos alegres, mas a vida agradece.

Fiscalização, obviamente, tem que haver. Lá fora, as multas chegam a R$ 30.000,00, além de cassação da carteira. Depois de novo exame de habilitação, o motorista é proibido de dirigir entre meia-noite e 4 h da manhã. Exames com bafômetro também são corriqueiros. No Brasil, entretanto, há uma decisão judicial no Ceará liberando o motorista no Estado dessa obrigatoriedade para não produzir prova contra si mesmo. Mais grave, ainda, também já existe um projeto de lei no mesmo sentido na Câmara dos Deputados.

Para Alberto Sabbag, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego, isso não resiste a qualquer análise séria. “Ninguém, então, poderia se submeter a exame de paternidade ou de impressões digitais. No limite, guardas nem checariam documentos do motorista”, pondera. Realmente assusta como se pode ter tal interpretação esdrúxula da Constituição. Gilberto Lehfeld, consultor e Secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, concorda, porém é mais cético: “Existe uma corrente jurídica forte com essa interpretação. Alguns países que seguem a mesma linha contornaram o problema com outras ações que, na prática, acabam levando ao exame alcoólico. É preciso vontade política.”

Cabe, assim, ao Contran lutar por uma causa de fato importante para salvar vidas. Infelizmente, as prioridades tem sido outras.

RODA VIVA

CONSCIENTIZAÇÃO quanto ao problema do álcool ao volante é tão séria que a Saab, subsidiária sueca da GM, está oferecendo o modelo médio-grande 9-5 com um bafômetro acoplado à chave de ignição. Se o motorista sopra e passou dos limites legais, motor simplesmente não dá partida.

INDÚSTRIA automobilística continua em curva de recuperação. Produção acumulada de janeiro a agosto, superior a 1,4 milhão de unidades, é recorde histórico, puxada pelas exportações também em nível inédito. Mercado interno segue em ritmo mais lento, embora crescendo 14% em relação a 2003. Deve fechar o ano com 8% de aumento, mantendo-se o atual panorama.

SUPERINTENDENTE da Fiat, Cledorvino Belini, tem posição serena em relação à internacionalização dos preços por parte das siderúrgicas. Ao contrário de outros executivos. “É uma realidade que precisa ser enfrentada em um mercado livre.” A coluna defende a mesma tese. Fácil pregar para os outros o que não se deseja para si mesmo.

NOVA onda ameaça implantação da Inspeção Técnica Veicular. Há oposição quanto à tarifa, estimada no custo médio de um tanque de gasolina, na faixa de R$ 100,00. Geraldo Negri, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, acredita que 50% disso já remuneraria o serviço. Problema são acréscimos a outros títulos embutidos na tarifa.

FABRICANTES de dispositivos anti-radar e autoridades estão em guerra aberta na Inglaterra. Anúncio pintando guardas como demônios acirrou ânimos. Lá o dispositivo é legal. Há sentimento de “revolta”, dentro da fleuma britânica, por motivo simples: limites de velocidade e de tolerância irreais. Acusações de indústria de multa são as mesmas. Que coincidência...
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E-mail: fernandocalmon@usa.net

Fernando Calmon, engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Sua coluna semanal Alta Roda é publicada, desde 1999, em onze jornais brasileiros e no site WebMotors. Assina as colunas Direto da Fábrica na revista Carro e Roda Viva na revista Jornauto. Correspondente para América do Sul do site americano The Car Connection. Diretor editorial das oito revistas automobilísticas da On Line Editora. Consultor técnico, de mercado e de comunicação.

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