Mas o que explica a derrocada de um império tão popular, a ponto de a marca Gol ser diversas vezes confundida com a VW? Como um veículo encerra 2013 emplacando mais de 255 mil unidades consegue ficar abaixo das 184 mil vendas no ano seguinte? O WebMotors listou cinco vacilos da Volks que ajudam a explicar o cataclismo de sua cria mais bem-sucedida.
1 – COROA DE FLORES PARA O VELÓRIO ERRADO
Lágrimas e homenagens foram despejados sobre o caixão da Kombi, em janeiro. O primeiro utilitário feito no País foi vítima de insuficiência à necessidade de possuir, a custos competitivos, freios ABS e airbags. A enfermidade também estava descrita na autópsia do Gol G4, que foi enterrado solitário, enquanto todos se esmagavam para dar o último adeus à Kombi.
A morte da Kombi foi determinante para a perda de espaço da Volkswagen no mercado de comerciais leves – a marca fechou com 13,18% de participação, contra 23,6% da líder Fiat. No entanto, a ausência da quarta geração foi a peça-chave para o destronamento do Gol.
Com o G4, o hatch superava a margem dos 20 mil emplacamentos mensais durante 2013. Sem ele, tal resultado só foi alcançado no primeiro e no último meses de 2014. Por conta do preço baixo, o modelo era o queridinho dos frotistas, que tiveram que migrar para outros modelos. Um deles, o Fiat Palio Fire.
Pois é, a Volks acabou provando do próprio veneno. Famosa por lançar uma nova geração de um modelo, mas manter a antiga, a fabricante viu sua arquirrival fazer o mesmo e ganhar espaço.
2 – AOS 45 DO SEGUNDO TEMPO
Representante do mercado de entrada, o Gol G4 foi substituído pelo Up!. O modelo que representa um salto de qualidade nos carros nacionais (cinco estrelas em segurança pelo Latin Ncap, melhor no índice de reparabilidade do Cesvi e um dos modelos mais econômicos no levantamento do Inmetro/Conpet) ficou longe das expectativas da Volks – foi apenas o 16º modelo mais vendido de 2014, quando a pretensão era o top 10.
Além disso, o compacto roubou alguns clientes do Gol e foi mal em vendas diretas (14º), resultado consequente, principalmente, de posicionamento de preço. Para preencher tais lacunas, surgiu em outubro a versão Special do Gol. A configuração tabelada na época a partir de R$ 27.990 (hoje, R$ 29, 5 mil), entretanto, teve pouco tempo para inflar as vendas. Resultado: o Gol ficou a 16,7 mil unidades de distância do líder de vendas diretas, Fiat Strada.
3 – BANHADO NO SAL GROSSO
O Gol adquiriu naturalmente a alcunha de carro do povo após a descontinuação do Fusca. Pensar em carro barato era ter o Gol entre as primeiras opções de compra. Mas a política de preços de mercado mudou e um modelo consegue preencher mais de um segmento. A tabela de preços de janeiro de 2015 do hatch parte de R$ 29,5 mil na versão Special duas-portas e pelada. A configuração mais salgada é a Rallye, que chega em R$ 58.190.
4 – DEIXADO DE LADO
A Volkswagen intensificou seus investimentos no Brasil. No ano passado, a montadora projetou injetar R$ 10 bilhões em solo brasileiro até 2018 – o Brasil é o quarto maior mercado mundial para a marca.
Parte do aporte está sendo destinado à adequação da fábrica de São José dos Pinhais (PR) para a produção do Golf. Outra parte foi alocada ao desenvolvimento do Up! na planta de Taubaté (SP), que foi profundamente reformulada.
A unidade de São Bernardo do Campo (SP) também foi reajustada visando a implementação do novo Jetta nas linhas de montagem.
Um exemplo de que o Gol ficou para escanteio está também no Salão do Automóvel. A Volkswagen apresentou 13 atrações entre lançamentos, facelifts e novas versões, nenhuma delas relacionadas ao campeão de vendas.
5 – SEM AS RÉDEAS DO MERCADO
Quase duas décadas de liderança, fiel na cabeça do consumidor e inovador. Não faltam predicados para o Gol ditar as regras do mercado, assim como já fez em seus 35 anos de história – em 1988, a versão GTI inaugurou a injeção eletrônica de combustível e, em 2003, o modelo foi pioneiro em relação aos motores flexíveis.
Entretanto, o Gol viu Chevrolet Onix e Hyundai HB20 surgirem como os novos querinhos do consumidor final por trazerem novos conceitos de design, conectividade e espaço. Eles ocuparam a segunda e terceira posição, respectivamente, no ranking dos preferidos do varejo.
O maior exemplo da queda de popularidade do Gol, no entanto, está na comparação com o Palio, líder também do mercado varejista. O Fiat emplacou 137.713 unidades, sendo 44.130 a mais que o Volkswagen.
Tal fato se confunde um pouco com o quarto item desta lista: o Gol foi deixado de lado. Enquanto o Up! inovou em segurança, reparabilidade e economia de combustível, o Fox trouxe câmbio de seis marchas, assistência de partida em rampa e design superior. Já o Gol ficou a ver navios.
Resta saber o que o modelo trará de novidades em sua nova geração, cotada para este ano.
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