Andamos no Lamborghini Reventón, o mais poderoso de todos

Modelo de 650 cv teve apenas 20 unidades fabricadas ao preço de € 1 milhão cada uma
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Karl Funke
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- Estou diante de um complexo de vidro escuro e brilhante. Do meio de uma grama verde e perfeita, um monólito negro, metálico e alto, no qual está inserido um escudo com um boi dourado correndo a toda velocidade, aponta para o céu. Estou em Sant’Agata Bolognese, na porta da frente do quartel-general da Lamborghini. Vim aqui para andar no Reventón.

Entro por meio de um par de portas automáticas no museu da marca, que abriga um exemplar em perfeito estado de cada modelo já fabricado pela Lamborghini e a maioria dos protótipos históricos. Enquanto eu babo diante dos modelos em exposição, sou cumprimentado por minhas “supervisoras”, Fcaptionica Fazzini e Rita Passerini, do departamento de imprensa da empresa. Almoçamos juntos na lanchonete da marca e eu expresso surpresa pela oportunidade de dirigir este carro ter surgido, lembrando algo que alguém havia dito a respeito do “carro mais legal do Salão de Frankfurt”, que nunca teríamos a chance de dirigir. Apenas 20 foram fabricados, certo?

Mais um, diz Rita, sorrindo de um jeito malicioso. O Reventón 0 de 20, identificado por uma plaquinha polida no habitáculo, será o boi sacrificial que enfrentará a imprensa especializada mundial antes de ser aposentado e guardado para a posteridade no museu da Lamborghini. Se eu já cruzei com um carro de carreira, é este querendo dizer que, se eu o bater, minha carreira já era....

Sob a pele, o Reventón se diferencia muito pouco de um Murciélago 2007. A força do motor V12 de 6,5 litros foi aumentada levemente para 650 cv; o torque máximo continua em 550 Nm e não há diferenças também no tempo de aceleração de 0 a 100 km/h 3,4 s nem na máxima de 340 km/h. Apesar de seu motor chicotear apenas 10 cv a mais que o mais plebeu LP640, ele tem força suficiente para ser o Lamborghini mais poderoso da história. Também é mais caro, por € 1 milhão, coisa de R$ 2,5 milhões na Europa.

Como se justifica o preço diante de um aumento marginal de performance? O objetivo do Reventón não é performance, diz Rita, balançando as mãos de forma evasiva quando eu lhe faço a pergunta inevitável: “É arte?”.

É um ponto difícil de refutar. Como expressão dos valores mais fundamentais da empresa, os de ser extremo, de não fazer concessões, de ser italiano, o Reventón é um dos produtos mais convincentes até hoje. Ele não divide nenhum painel externo da carroceria com o Murciélago, recebendo uma carroceria de fibra de carbono totalmente nova, supostamente inspirada no desenho do caça norte-americano F-22 Raptor.

Se você passar alguns minutos andando em volta deste Lamborghini, entretanto, você poderia dizer que ele é visualmente mais agressivo do que o avião. A inspiração militar é reforçada pela pintura, elaborada especialmente para esse uso limitado, um verde semifosco metálico puxado para o cinza. A Lamborghini chama a cor de Reventón, para facilitar. Ela parece absorver luz mesmo na sombra.

Há aqueles que criticam o desenho por ser muito anguloso, muito exagerado. Pessoalmente eu acho que não. Enquanto um carro curvilíneo como o Miura é considerado como um dos mais bonitos jamais fabricados, eu sou um fã dos trabalhos mais recentes da Lamborghini, angulosos e cheios de polígonos.

O Murciélago reescreveu a identidade visual da marca e o Reventón praticamente destrói esse pacote todo. Para mim, ele fica carros-luz à frente dos carros mais agressivos do mundo e amplia essa distância a cada vez que olho para ele. Só espero que alguns elementos de seu desenho passem para o sucessor do Murciélago, como o nariz pontudo e as entradas de ar laterais enormes, ou a tampa do motor insetóide do motor, os LEDs brilhantes do sistema de iluminação e os difusores de fibra de carbono que não pedem licença nem desculpas.

A agradabilíssima Rita me apresenta a meu co-piloto, Giorgio Sanna, piloto de testes da Lamborghini, então segura a chave do carro, com um sorrisinho se insinuando nos cantos de sua boca. Reventón. É tudo que ela diz. E nós dirigimos.

Na estrada, o tamanho do carro me surpreende mais uma vez. Ele é incrivelmente ágil, considerando seu tamanho total, e muda de direção com grande disposição, além de monstruosas doses de força e aderência. Mas suas dimensões beiram o absurdo, especialmente em uma rodovia italiana típica. Estamos falando de bitolas dianteira e traseira de 1,64 m e 1,69 m, respectivamente as mesmas do Porsche Cayenne com entreeixos pouca coisa menor. Em alguns trechos, o carro parece tomar uma faixa e meia. Honestamente, o evento inteiro me deixou apavorado.

Conseguimos sair da área mais populosa da cidade e seguimos em direção às montanhas. Aqui o piso se eleva e se curva um pouco, além de haver menos tráfego. Uma vez superado o fato de que você está ao volante de um carro de € 1 milhão, dirigi-lo não é muito diferente de dirigir um Murciélago, o que não torna a experiência menos interessante.

Sanna me diz que os novos painéis de carroceria melhoraram a aerodinâmica levemente, particularmente na estabilidade da dianteira para a traseira, mas a diferença se faz notar principalmente em velocidades altas e não é muito perceptível em condução comum. Mais direto ao ponto, eles parecem imponentes à beça. Dirija este carro pelo sul da Califórnia e você terá pessoas caindo das calçadas. A reação na Itália é muito mais discreta. “As pessoas daqui estão acostumadas a esse tipo de carro”, diz Sanna.”Mesmo modelos extremos como este.”

O Reventón ainda consegue sua quota de olhares, mas na maioria são crianças ou jovens os que parecem mais gostar do carro. Em um cruzamento, um motorista de caminhão se debruça para fora de sua janela, apontando com entusiasmo para o painel de seu caminhão e para o Lamborghini. “Quer trocar?”, ele pergunta, esperançoso.

De volta ao QG da Lamborghini, uma multidão se reuniu do lado de fora, pulando de um lado para o outro, como pombos, enquanto o Reventón 0/20 urra na entrada, depois zumbindo em volta do carro enquanto a porta-tesoura se abre, apontando para o céu. Impossível dizer quem são exatamente essas pessoas turistas, moradores da área, possíveis clientes, mas o carro não teve uma recepção assim durante o dia todo. Câmeras de celulares disparam. Sanna está ao volante, agora. Saio do lado do passageiro me sentindo um pouco como a Britney Spears ainda que esteja vestindo calças.

“Quanto custa dar uma voltinha?”, me pergunta um jovem incrédulo enquanto eu abro o capô do carro. “Sou jornalista”, eu respondo. “Não custou nada.” Não menciono que eu pude dirigir o carro.

Os italianos têm um termo, sprezzatura, que significa “fazer o que é difícil parecer fácil”. Leonardo da Vinci era considerado um mestre em captar a sprezzatura de uma pessoa em seus quadros, o definitivo sendo o de Mona Lisa, com seu sorriso torcido e expressão relaxada comunicando sua alta posição social e sua autoconfiança inerente lição: é difícil ser blasé, mas até mulheres feias podem fazer isso parecer fácil.

Castiglione leva o conceito um pouco adiante em seu livro “O Cortesão”: “É preciso praticar em todas as coisas uma certa sprezzatura, desdém ou falta de cuidado, de modo a fazer qualquer coisa feita ou dita parecer sem esforço e quase sem nenhuma consideração a respeito.”

Se há algum exemplo disso na indústria automobilística, é a Lamborghini. Poucas fabricantes conseguiram ganhar tanto mercado nos últimos seis anos e fazer isso de um modo que parecesse tão risivelmente fácil. Desde a apresentação do Murciélago, a companhia vendeu mais de 2.700 exemplares do superesportivo, quase o mesmo número de Diablo vendidos em uma década inteira 2.989. Mais de 6.000 Gallardo foram entregues desde 2003, um número já três vezes maior que o de Countach vendidos de 1971 a 1990. O lucro de 2006, de US$ 346 milhões, cresceu mais de 530% em relação ao mesmo resultado de cinco anos antes disso. O ano passado quebrou outro recorde, com apenas 2.400 carros entregues aos consumidores, um crescimento de 15% em relação a 2006. Isso é uma companhia ganhando força e dando longas passadas em seu esforço para se tornar “a fabricante de supercarros mais lucrativa do mundo”.

Tudo isso vem de uma operação surpreendentemente humilde em Sant’Agata, uma cidadezinha fora de Bolonha, sede da Lamborghini desde que a divisão de automóveis foi fundada, em 1963. Outros prédios foram adicionados à planta, como o museu e os escritórios, mas a fábrica original, em que Ferruccio Lamborghini criou seu primeiro automóvel, continua intacta e absolutamente funcional. Ainda é o berço de todo Lamborghini.

E é diferente de qualquer fábrica a que eu já tenha ido. Nada é automatizado. Na Linea Murciélago, os operários empurram os automóveis, colocados sobre pesados suportes com rodas e em vários estágios de montagem, a cada uma das estações de montagem, onde todos os componentes, do interior ao motor, são instalados a mão.

Mais adiante, atrás das linhas de produção, está a área de montagem dos motores, onde cada um dos V10 e dos V12 é montado e depois empurrado à posição da linha em que ele e a carroceria passarão a ser um só.

O mesmo prédio também abriga o setor de tapeçaria, uma área aberta pertinho da Linea Murciélago onde artesãos cortam peças de couro e de Alcântara e os costuram, à mão, para forrar bancos, painéis de porta, consoles e volantes.

Além da integridade da fábrica em si com sua manutenção cuidadosa evidenciada pelo estado primoroso do assoalho original de tijolos, o processo final de montagem é motivo de orgulho por si só. Os componentes da linha do Gallardo, da carroceria pintada às partes do motor, vêm especialmente da Alemanha, mas cada carro é montado em Sant’Agata. Os fornecedores do Murciélago ainda vêm em sua maior parte da Itália.Quando completos, cada veículo é levado diretamente para fora do edifício a uma área descoberta segura, onde ele espera pela inspeção final e pela avaliação. Mas não há pista de corrida em Sant’Agata. Cada carro que deixa a fábrica é testado nas estradas em volta da cidade. Assim, mesmo que você nunca tenha rodado pela Itália, seu Lamborghini já rodou.

“As pessoas mais velhas aprenderam a ler seus jornais dentro de casa em determinadas horas do dia”, diz meu guia. Na média, a fábrica completa três Murciélago e 10 Gallardo por dia. As linhas dos dois carros estão com fila de espera de mais de um ano.

Faça as contas. Uma empresa que mal tem 800 empregados, com operários empurrando superesportivos semiprontos em carrinhos glorificados, moças rebitando componentes à mão, construindo apenas uns poucos carros todo santo dia, não deveria estar com um balanço tão bom, deveria? Esta é a essência de sprezzatura.

The New York Times Syndicate


Tradução de Gustavo Henrique Ruffo


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