A marca tinha os modelos "baratos", notadamente as Sportster 883 e 1200. Logo acima, subindo "degraus", vinha as linhas Dyna, Softail e Touring, com uma boa variedade de modelos. Na mesma gestão surgiram a Pan America - primeira big trail da história da marca -, modelos elétricos e até streetfighters. Uma diversificação inédita.
Mas em 2020 assumiu outro CEO, o alemão Jochen Zeitz. E tudo mudou. Zeitz implementou uma nova estratégia comercial, a "Rewire and Hardwire", eliminando as linhas Sportster e Dyna em 2022 e mantendo apenas as Softail e Touring, e a Pan América - que, apesar de ser uma ótima moto, nunca foi um grande sucesso.
Além disso, Zeitz levou a marca a encerrar as operações em alguns países e a reduzir a atuação em outros - caso do Brasil. No geral, o objetivo passou a ser ganhar menos no volume e mais no valor agregado. Além disso, o CEO queria tornar a Harley-Davidson uma marca "super premium" e uma das "mais desejadas do mundo".
Aparentemente não funcionou. A Harley-Davidson registrou prejuízos nos últimos balanços comerciais, foi bastante criticada pelos harleyros mais conservadores - principalmente nos Estados Unidos - e viu suas vendas encolherem.
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Em outubro do ano passado veio um novo CEO, o americano Artie Starrs. E agora a Harley-Davidson dá um novo cavalo-de-pau e tenta retornar ao que dava certo lá atrás. Tanto que o nome da nova estratégia é "Back to the bricks", que em tradução livre significa "de volta às origens". E que, na prática, revela a intenção de voltar ao que era antes.
O retorno da lenda: a Sportster 883 vai voltar!
E dentro dessa nova estratégia o ponto mais importante neste momento é a volta da Sportster, anunciada para 2027. Obviamente a Harley-Davidson não confirmou todas as especificações, mas a moto deverá voltar como antes: motor Evolution V2 refrigerado a ar, com 883 cm³, jeito minimalista e tradicional, e preço acessível - ali em torno dos US$ 10 mil. Exatamente como a última das Sportster, a Iron 883, de 2022.Ou seja, nada a ver com a Sportster S que existe atualmente, que tem motor V2 Revolution Max de 1250 cm³ com refrigeração líquida e custa, lá nos Estados Unidos, US$ 16.300 - e que de Sportster só tem o nome. E nem com a Nightster, que atualmente é o modelo mais barato da marca nos Estados Unidos - custa exatamente US$ 10 mil -, e que também tem motor V2 Revolution Max com refrigeração líquida, mas com 975 cm³. Vale destacar: os harleyros mais conservadores não curtem os motores com refrigeração líquida.
Além da Sportster, outra novidade: a Sprint
E mais: além do retorno da Sportster tradicional, a Harley-Davidson também promete lançar um novo modelo, ainda mais acessível. Será a Sprint, cujo nome remonta ao de uma Harley desenvolvida em parceria com a italiana Aermacchi e que foi usada em provas de flat track nos anos 1960.Durante a apresentação dos balanços, uma imagem da Sprint foi exibida - na verdade, um desenho sombreado pouco revelador. Porém, é possível ver na imagem que o motor provavelmente não será um V2, mas um monocilíndrico ou um bicilíndrico em linha.
As especificações obviamente não foram reveladas, mas vale lembrar que existem Harley-Davidson com motores de 350 cm³, 440 cm³ e 500 cm³ vendidas na Ásia - onde são produzidas em parceria com a Hero Motor Corp indiana e com a Qianjiang chinesa.
Segundo o prestigioso site Cyclewolrd, a Sprint usará o motor de 440 cm³, que tem refrigeração a ar e óleo, 27 cv de potência, 3,8 kgfm de torque e câmbio de seis marchas. A refrigeração a ar até poderá agradar aos harleyros mais tradicionalistas, pois as outras duas opções têm refrigeração líquida. Mas uma Harley-Davidson com motor monocilíndrico de potência e torque modestos certamente levará boa parte dessa turma a torcer o nariz...
Em motor pequeno a refrigeração líquida é melhor
Aqui vale destacar, porém, que a "exigência" de que seja a ar nem seria tão forte. É mais do que sabido que, em motores de baixa capacidade cúbica, a refrigeração líquida é melhor para se obter um desempenho mais consistente - e até para reduzir emissões e permitir a homologação em países especialmente exigentes nesse aspecto - caso do Brasil.Uma configuração bicilíndrica em linha provavelmente desagradaria menos aos harleyros mais conservadores - que idolatram os V2. Mas com o monocilíndrico a Sprint será bem mais barata do que a própria Sportster. E o objetivo do novo modelo é justamente esse: ser acessível para um público jovem, que quer ter uma Harley mas não pode ou não quer pagar o que considera demais por uma.
Também seria possível obter um preço razoável com um motor bicilíndrico refrigerado a ar em torno de 40 cv - modelos de 650 cm³ da Royal Enfield são prova disso. Mas, ao que tudo indica, não será esse o caminho.
A Harley-Davidson Sprint provavelmente custará entre US$ 6 mil e US$ 8 mil lá nos Estados Unidos. Caso essa faixa de preço se confirme, a Sprint terá chance de cumprir seu papel - são valores bem acessíveis para o mercado norte-americano.
Objetivos financeiros
No aspecto puramente financeiro, a Harley-Davidson pretende chegar a US$ 350 milhões de lucro operacional em 2027 - valor bem superior aos US$ 124 milhões obtidos em 2025.Para chegar lá, a marca aposta nos novos modelos e também em redução de custos operacionais, aumento nas margens de lucro e reforço nos segmentos de serviços, acessórios e lifestyle.
Além disso, pretende incrementar as operações das próprias concessionárias - por exemplo, acelerando os negócios com motos seminovas e usadas - a meta, ambiciosa, é dobrar a rentabilidade dos revendedores já neste ano de 2026 e repetir o desempenho até 2029.
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