Coluna do Tite: é tudo uma questão moral

Como nosso trânsito reflete a crise da sociedade
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Geraldo Simões
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– Imagine, leitor, se um importante executivo de uma multinacional fosse parar na delegacia, junto com três travestis, acusados de tráfico de drogas. Quais as chances de esta pessoa manter o emprego e sua vida seguir normalmente, como se aquele caso fosse apenas um delírio coletivo e nada tivesse acontecido. Ou então, que outro grande executivo de uma instituição financeira também fosse parar na delegacia porque ao sair de uma balada, uma garota pegou a arma dele e disparou contra si mesma dentro do carro. Você acha que este executivo manteria seu emprego?

Não, porque o código moral e ético dentro das grandes empresas são muito rigorosos com relação a imagem de seus executivos. Mas se os personagens forem jogadores de futebol, ídolos, com salários na faixa acima de um milhão de reais por mês, tudo passará impune, com um inaceitável atestado de impunidade. O perigoso exemplo de quem traz na imagem pública o poder de influenciar pessoas certamente induz a opinião pública a acreditar que tudo está liberado, sem conseqüências.

É isso que estamos vivendo neste momento aqui no Brasil: uma das maiores crises morais de todos os tempos, mas não se assuste, ainda, porque vai piorar!

O local onde fica mais evidente o baixo nível de educação de um povo é no trânsito. Não só motoristas, mas todos os agentes do trânsito. Dos mais altos burocratas que permitem e incentivam o clima de permissividade inimputável – ratificando o exemplo de impunidade dos ídolos indolentes – até o pedestre que atravessa uma movimentada avenida exatamente debaixo da passarela para mostrar ao mundo que ele é imune às regras.

A cada ano vimos autoridades apresentando números que mostram no número de vítimas fatais no trânsito. E quando, raramente, os números revelam uma queda eles são divulgados com clima de festa. Oh, realmente podemos nos surpreender se houve 2.000 mortes a menos, mas ainda temos de 40.000 pessoas morrendo anualmente. E por mais que tentem convencer do contrário, mais de 90% destes acidentes são causados por falha humana, que inclui todo tipo de desrespeito às regras de trânsito.

Pois eu tenho uma má notícia: não existe a menor condição de reduzir o número de acidentes no Brasil nos próximos anos. Enquanto especialistas – e eu me incluo entre eles – discute como reverter este quadro de carnificina aumenta a sensação de que vivemos em uma terra sem leis. Recrudescer as leis e sobretaxar as multas tem efeito com prazo de validade muito curto. Pelo motivo já explicado da impunidade viral e de uma legislação anacrônica que permite – entre outras coisas – um cidadão envolvido em acidente não se submeter a um exame de teor alcoólico.

Basta olhar em volta para percebermos que não existe a mais vaga possibilidade de mudança neste quadro atual, então temos de começar a pensar em como agir com as próximas gerações.

E também não podemos cair na ingenuidade de acreditar que é possível ensinar “trânsito cidadão” nas escolas. Um rápido exame no nível das escolas públicas mostra que mal conseguimos ensinar matemática, geografia, história, português e o currículo atual, como acreditar na capacidade de ensinar “trânsito”? E quem seriam estes professores? Os atuais agentes fiscalizadores, que só conseguem enxergar na multa a única forma de educação?

Não, não será o ensino de trânsito nas escolas que vai mudar o quadro sinistro. Mas a reviravolta passa pela educação. Não a educação para ensinar as pequenas crianças a respeitar regras de trânsito, nem fazer a manutenção do veículo. A educação que pode começar a mudar o trânsito nos próximos 10 anos é a educação social, também chamada de cidadania, aquele simples conjunto de noções de vida em sociedade.

Será preciso que as escolas se empenhassem em acabar com esta distorção ética que vivemos hoje em dia. Mostrar que o estereótipo do brasileiro que leva vantagem sobre o outro é ruim, não forma indivíduos socializáveis e mina os preceitos básicos da cidadania. As escolas precisariam inculcar nas cabecinhas dos futuros motoristas que respeitar o próximo se manifesta não apenas no trânsito, mas nos gestos mais simples como respeitar os horários e locais de silêncio, ccaption a passagem ou o lugar aos idosos, proteger os mais fracos e compreender de forma natural que viver em sociedade significa ter e exigir limites.

Não passamos nem um dia sequer sem ler notícias de corrupção em todos os setores. Esse excesso de exposição traz a anestesia social. São tantos casos, repetidos à exaustão, que não sensibiliza mais a opinião pública. Vira o padrão e surpreendente passa a ser o inverso, ou seja, quando um gari encontra dinheiro em uma caixa de lixo e devolve ao dono. A crise moral e ética da sociedade aparece nas situações de inversão de valores: o esperto é o herói e o honesto é o trouxa.

E se existe um elemento eficiente na difusão da crise moral é a Internet, que nasceu com a melhor das intenções de levar conhecimento acessível ao maior número de pessoas. A internet tem sido uma ferramenta fácil de identificar a crise moral, ou na evidente inversão de valores que estamos vivendo. As “notícias” são divulgadas sem nenhuma preocupação com o fato, mas com a versão do fato. São criados os mais diferentes hoaxes embustes só pelo prazer de ver o alcance na rede.

Se a geração que cresce na velocidade da informação não receber indicativos do que é sério e verdadeiro daquilo que é invenção ou trote o futuro promete um caos moral comparável com o que havia na Idade Média.

Nosso futuro está cada vez mais nas mãos das novas gerações. Vamos torcer para que uma onda de sensatez sobreponha este apavorante futuro amoral.

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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