Coluna do Tite: faça a sua parte

Para mudar o dia-a-dia do trânsito, não basta só reclamar
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Geraldo Simões
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– Lembro de uma história que não sei se é chinesa, grega, africana, mas conta que durante um incêndio na mata todos os animais saíram correndo. Menos o rouxinol deve ser chinesa mesmo que corria até um lago, enchia o bico de água e jogava no fogaréu. Um outro animal viu aquela cena e comentou algo tipo “deixe de ser ridículo, nunca vai conseguir apagar esse incêndio”. E o pequenino respondeu, “mas pelo menos eu fiz a minha parte!”.

Claro que a história deve ser bem mais comprida, mas o importante é mostrar que a vida em sociedade é assim: cada um deve fazer a sua parte e deixar espaço para que todos façam o mesmo.

No trânsito não é diferente. Todos os dias lemos, ouvimos e vimos as mais diferentes teorias sobre como melhorar o trânsito, sobretudo nas redes sociais. Mas ao sair nas ruas o que vejo é cada um agindo como bem entende e a sensação de que jamais terá conserto. Eu mesmo já tinha perdido a esperança porque diariamente vejo mais exemplos de falta de educação do que ações dignificantes.

Todos os dias vejo e ouço motoristas de ônibus e vans escolares buzinando na porta das casa para chamar as crianças. Que tipo de adultos serão estes estudantes? Criados por um analfabeto social incapaz de apertar uma campainha por pura preguiça?

Essa visão catastrófica e caótica do futuro começou a mudar depois de ouvir duas notícias. Uma delas é sobre um shopping center de São Paulo que concedeu um enorme desconto no estacionamento para motoristas que deixam o carro e usam o metrô. Uma iniciativa que deveria ser incentivada, aplaudida e copiada por outros estabelecimentos próximos de estações de metrô e de trens. A proposta é incentivar o uso de transporte coletivo.

Outra notícia era sobre uma balada, também em SP, que oferecia uma promoção a quem chegava de taxi. Quem comprovar o uso do taxi não paga a entrada que pode custar até R$ 40,00. Também é a forma encontrada para que o baladeiro possa consumir bebida alcoólica sem precisar dirigir depois.

Infelizmente eu ouvi estas notícias na rádio e não consegui anotar – nem lembro – o nome dos estabelecimentos para ter o prazer de dar os nomes aos bons bois.

Outra boa notícia é o início da construção do monotrilho, um trem suspenso que deverá complementar as linhas de metrô e trem, sempre em São Paulo, a cidade mais próxima de um caos social.

O bom destas notícias é que começam a surgir soluções por parte da iniciativa privada, uma vez que o Estado já assinou seu atestado de incompetência no gerenciamento do trânsito há décadas. Toda vez que você ouvir na rádio que o trânsito está congestionado por excesso de veículo, traduza por “congestionado por FALTA de investimento em infra-estrutura”.

Na cabeça arrogante e autoritária dos funcionários públicos que gerenciam o trânsito. A única forma de educação reconhecida oficialmente é a punição por meio de multas. E ainda querem nos fazer acreditar que funciona. Passado o impacto emocional da ameaça das multas tudo volta a ser como era antes.

Já escrevi dezenas de vezes que cachorro velho não aprende truque novo. Não adianta aplicar multas 20 ou 30 dias depois da infração porque perde o caráter educativo e vira apenas um impulso para o cidadão se revoltar contra todo o sistema. Os pedagogos cansam de explicar que a punição só tem eficiência quando aplicada no ato, como os policiais americanos que fazem o motorista pagar a multa na hora, ou ainda leva o motorista na hora na frente de um juiz que pode até mandar o motorista pro xilindró.

Eu fui multado nos EUA e posso garantir que é uma experiência humilhante: o policial passa o cartão de crédito na maquininha ali na frente do motorista e ainda passa um sabão vergonhoso! Nunca mais ultrapassei em faixa dupla...

Pena que na contra-mão dessa filosofia tem o Estado, que do alto de sua política autoritária e egoísta só pensa em soluções que tragam arrecadação, como o pedágio para entrar na zona central da cidade ou câmeras capazes de flagrar motoristas que não pagaram as taxas de licenciamento.

Por isso temos de esquecer as iniciativas públicas para melhorar o trânsito e começar a pensar como o rouxinol da fábula: faça a sua parte. Respeite para ser respeitado. Vamos torcer para que outros estabelecimentos adotem medidas para tirar os veículos das ruas, para evitar que motoristas dirijam alcoolizados e que as empresas busquem soluções para reduzir o deslocamento de seus funcionários. Se cada um fizer a sua parte a sociedade melhora e sem representar um fardo pesado para cada um.

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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