Coluna do Tite: o difícil começo

O Brasil ainda sofre com o despreparo dos novos motociclistas
  1. Home
  2. Motos
  3. Coluna do Tite: o difícil começo
Geraldo Simões
Compartilhar
    • whats icon
    • bookmark icon

– Uma simples olhada nos dados do mercado mostra que o crescimento das vendas de motos no Brasil está crescendo sem parar e com perspectiva de manter essa curva positiva ainda por muitos anos. Além de ser o veículo motorizado mais acessível, nas grandes cidades, com trânsito intenso, a moto se transforma no meio mais rápido de se deslocar.

Estas questões de natureza financeira e estrutural fizeram com que muita gente adquirisse a moto até como o primeiro veículo motorizado. E nem sempre essa aquisição é precedida da devida informação. Por incrível que pareça, muita gente ainda acredita que moto é um carro de duas rodas e trata como tal.

O automóvel praticamente faz parte de nossas vidas. Costumo exemplificar afirmando que ao nascer, vamos da maternidade para casa dentro de um carro. E ao morrer nosso corpo é transportado em um carro funerário. Daí a naturalidade com que muita gente aprende a dirigir automóveis e a dificuldade para entender a dinâmica de uma moto. Esta é a raiz para aquela tendência em achar que moto é um carro de duas rodas e que tudo que funciona nos carros deve funcionar também nas motos.

Mas não é! E é isso que os departamentos de trânsito precisam começar a explicar. E aqui começam algumas distorções.

Recentemente minha filha mais nova foi tirar habilitação. Aproveitei para ler o livro/apostila que os candidatos são obrigados a decorar para fazer o exame teórico e fiquei estarrecido por ver que tudo que se refere a trânsito é pensado exclusivamente no automóvel. As poucas questões relativas a moto são muito evasivas e com erros primários de conceituação. Por exemplo: na apostila ensina como retirar o capacete de um motociclista acidentado. Um absurdo! Só uma pessoa treinada deve mexer em qualquer vítima de qualquer tipo de acidente. Mexer no capacete é a ÚLTIMA coisa que se deve fazer em um motociclista, a menos que seja um socorrista profissional.

Também não se ensina nada que sirva de ajuda aos novos motociclistas. Fiquei com a nítida impressão de que os motociclistas fazem a moto-escola apenas burocraticamente e depois são obrigados a aprender na prática do dia a dia. E aí sim, começa a carnificina no trânsito todos os dias.

Pilotar uma moto não é tão intuitivo quanto o automóvel e os novos motociclistas não nasceram em cima de uma moto. Quando assistimos reportagens na TV comentando o “problema das motos” nunca tocam nesta questão na habilitação que não habilita. E vai continuar assim, porque a inércia do serviço público impede qualquer mudança a curto prazo. E quando ocorre alguma mudança ela é quantitativa e não qualitativa: aumentam-se as horas de aula prática e teórica – para enriquecer as auto e moto-escolas – mas não melhoram a qualidade dos formadores.

Então sobra para os fabricantes e missão de conservar seus clientes vivos. Não é papel das montadoras, afinal ninguém vê curso VW, Fiat, Ford ou GM de pilotagem, portanto não há motivo para que Honda, Yamaha, Dafra, BMW façam o papel que deveria ser do Estado. Mas fazem! E precisam, porque as fábricas não podem mais ficar impassíveis diante da guerra civil que se tornou o trânsito. Todas as grandes marcas tem seus centros de formação de motociclistas. Mas não conseguem atender a demanda do mercado. E fábricas vivem de fabricar e não de ensinar!

Periodicamente sou consultado por pessoas que querem comprar sua primeira moto. Minha recomendação sempre é: faça o moto-escola, quantas aulas forem necessárias para se sentir seguro; depois procure os cursos de fábricas, particulares ou instrutores particulares para praticar e fazer hora de vôo.

Quando se trata de motos pequenas, utilitárias ou scooters, o aprendizado é tranqüilo e em poucos dias pode-se adquirir vivência suficiente. Pilotar motos não é difícil, qualquer pessoa aprende. Entender a dinâmica da moto é que se torna o desafio a ser vencido. Por isso fico ainda mais preocupado quando vejo novos motociclistas adquirindo motos acima de 500cc como se fosse uma pequena 125cc. Ultimamente vi muitos casos de novos motociclistas adquirindo como primeiro veículo motorizado de duas rodas uma moto de 1.000 cc ou mais, que passam de 250 km/h fácil.

Seria uma ingenuidade muito grande acreditar que se alguém chegou a tal ponto da vida, capaz de comprar uma moto de 50 ou 60 mil reais, estaria no estágio de equilíbrio emocional na vida. O que vejo hoje são pessoas muito despreparadas pilotando motos super esportivas sem experiência alguma anterior.

Já defendo há décadas a volta da classificação da habilitação de motos por categoria, como já foi um dia. Determinando diferentes níveis de formação e exigência de acordo com a potência das motos. Como – mais uma vez – o Estado é inoperante para legislar sobre esse assunto, a responsabilidade volta para o cidadão. São poucos casos de sensatez, que leva o novo motociclista a procurar aprender e se informar mais antes de enfrentar as ruas ou de se aventurar em motos maiores.

Por isso, a minha dica serve para tudo na vida e se aplica quando ela a vida fica mais exposta: use o bom senso! Na hora de escolher a primeira moto, muitas vezes não é preciso partir para uma pequena 125cc, mas também não se jogar em cima de uma 600 ou 1000. Pouca gente acredita, mas uma moto na faixa de 250/300cc apesar de ter quase o dobro da potência 12,5 cv contra 25 cv ela não tem o dobro do desempenho. Se uma 125cc chega a 120 k/h, a velocidade máxima de uma 250cc é na faixa de 140 km/h. Só que os freios são muito mais eficientes, os pneus são melhores, os faróis são mais fortes e a moto tem mais visibilidade.

E não tenha vergonha de ser um novato. A qualidade que mais beneficia os novos praticantes de qualquer atividade é a curiosidade. Se tiver dúvida, pergunte a um especialista. Nós existimos para isso mesmo!

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
_________________
Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

Leia também:
Questão de moral

Somos a bola da vez

Brasil, país das motos?

Pilotando na chuva Parte 2

Pilotando na chuva Parte 1

Armadilhas urbanas

Lições da pista

RPG sobre 2 rodas

Qual o limite de inclinação da moto nas curvas

Nunca é tarde para aprender – todo mundo concorda, menos os motoristas e motociclistas

A vez das potentes – o Brasil entra de vez no mercado das grandes cilindradas

Motos: mania mal iluminada – vira e mexe aparece uma novidade no trânsito para infernizar

Técnica de pilotagem – contraesterço é uma das formas mais eficientes de pilotar

Como escolher uma moto? – perguntas simples podem ajudar você a evitar erros e arrependimentos

A história de um caos – devemos caminhar felizes rumo ao inevitável apagão viário?

Síndrome de Highlander – qual a condição essencial para um motociclista morrer?

As mentiras da rede – nem tudo que você lê nos fóruns é verdade

Cada macaco no seu galho – inexperientes podem pilotar de scooter a superesportiva

Comentários

Ofertas Relacionadas

logo Webmotors