Motos: mania mal iluminada

Vira e mexe aparece uma novidade no trânsito para infernizar
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Geraldo Simões
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Lá no norte da Europa, durante os meses de inverno, que duram muito mais do que no nosso habitável país tropical, os dias são curtos, as noites são longas e geralmente a névoa cobre tudo com um manto cinza, bucólico, mas extremamente perigoso. Por isso, carros e motos têm sistemas de iluminação que servem para melhorar a visibilidade de quem os conduz e de quem está de fora. Um destes sistemas é a luz de estacionamento. No caso das motos, pode-se manter as luzes de estacionamento acesas, mesmo com o guidão travado e a chave retirada do contato. Isto evita que algum caminhão passe por cima da querida motocicleta, quando estacionada na rua. A luz de estacionamento é uma lâmpada fraca que fica localizada dentro do farol, geralmente num tom âmbar. Na parte traseira, a luz de estacionamento é a própria lanterna.

Já nos carros, existe ainda outro sistema de iluminação complementar, chamado de luz de neblina, que são dois faróis auxiliares na dianteira, geralmente abaixo da linha do pára-choque, e uma luz traseira mais forte que a luz de freio. Como o nome mesmo diz, serve para reforçar a visibilidade nos dias de baixa condição de luz.

Bom, aí nós deixamos a Europa de lado e descemos abaixo da linha do equador, no chamado hemisfério sul, mais especificamente no Lisarb. Como nossa condição geográfica permite maior insolação, temos poucos problemas de visibilidade, mesmo no inverno. Na verdade nossos problemas maiores são no verão, quando desce uma neblina formada pelo acúmulo de umidade, combinado com excesso de calor. Mais ainda, temos a maior parte das vias urbanas iluminadas por lâmpadas de mercúrio ou vapor de sódio.

Como explicar, então, que motociclistas e motoristas rodem à noite apenas com a lanterna acesa?

Lei, ora a lei...

Pois é, aquele estranho objeto de legislação, chamado Código Nacional de Trânsito, tem um capítulo que especifica critérios de uso da iluminação. Segundo este livrinho, os veículos devem rodar com os faróis acesos desde o momento do pôr do sol, até o nascer do sol. Com exceção das motos, que devem circular com o farol baixo aceso mesmo durante o dia. Com relação aos “não-podes”, o código determina que não pode usar farol auxiliar em perímetro urbano, nem trafegar apenas com as lanternas acesas.

Aí é que começa uma das manias mais tacanhas dos motoristas e alguns motociclistas. Muita gente confunde farol baixo com as lanternas ou luzes de estacionamento. É comum ver carros rodando com apenas as lanternas acesas, o que contraria a lei e ainda aumenta a possibilidade de um acidente com pedestres.

Para evitar esta “confusão” as motos vendidas no mercado americano não são capazes de rodar com a luz de estacionamento acesa. E nem sequer existe a opção de lanterna. Assim que o motor é acionado, o farol baixo entra em funcionamento, o que garante a utilização correta. No Brasil também adotamos este sistema mesmo nas motos pequenas, como nas Honda 150 e Biz 125.

Segundo dados do CET, a maior incidência de atropelamentos ocorre entre 17 e 19 horas, quando aumenta a quantidade de pedestres em circulação e os motoristas não respeitam a utilização correta dos faróis.

Mania errada

Geralmente as manias começam com os motoristas de táxi e afetam diretamente nós, motociclistas e até pedestres. Uma delas é circular com apenas as lanternas acesas e os faróis auxiliares ligados inclusive a luz traseira de neblina!, independentemente da condição de visibilidade. Como este os faróis de neblina ficam abaixo da linha do pára-choque, eles acabam por iluminar apenas poucos metros e espalham a luz mais para a lateral do carro do que para frente. Como consequência, os outros carros, mas especialmente as motos – que são mais altas – não percebem a aproximação do outro carro e pode dar uma fechada sem querer, ou coisa pior. Para os pedestres é ainda mais grave, porque esta luz auxiliar não é bem visível para quem está acima da linha do pára-choque.

Nós, motociclistas, somos obrigados por lei a usar adesivo reflexivo nos capacetes, como forma de aumentar a visibilidade. Mas que estes adesivos só funcionam se receberem a incidência de luz. Eles não têm luz própria! Como os motoristas usam as lanternas ou luz de neblina, o facho luminoso não alcança a altura do capacete. Em suma, somos obrigados a usar um adesivo e multados, na falta dele que não tem função por pura falta de educação dos outros! Legal, né?

Durante uma recente viagem ao litoral de São Paulo fiz uma pesquisa meramente artesanal. Na descida da serra a noite estava clara, com ótima visibilidade e até uma lua crescente belíssima. Contei 26 carros com a luz traseira de neblina acesa, sem a menor necessidade.

Já na volta, com pouco de neblina e uma garoa permanente, vi apenas seis carros com a luz traseira ligada. É mais do que óbvio que os motoristas não sabem para que serve as luzes auxiliares e certamente os instrutores de autoescola são os maiores responsáveis por isso, porque ou também não sabem, ou pior: ensinam errado como já vi várias vezes.

O que mais chama a atenção é que estas manias estão proliferando para outras cidades como sempre, nasceram em São Paulo e outros estados. Não vi, até o momento, nenhuma campanha de caráter educativo para acabar com isso, mas nossas ruas estão abarrotadas de câmaras de vigilância para pegar quem roda nos períodos de “rodízio” ou não pagou o IPVA, mas não servem para detectar quem está usando a iluminação inadequada, ou acessórios ilegais. Em suma, mais uma vez a preocupação número um da fiscalização é arrecadar e não regulamentar o trânsito.


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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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