Alcance versus ofuscamento: a polêmica dos faróis

Estudos recentes apontam que brilho e potência dos faróis atuais contribuem para diminuir acidentes

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Fernando Calmon
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Os faróis são um dos principais exemplos da evolução do automóvel neste século e meio de existência do veículo que mudou o mundo e a maneira como nos deslocamos. Das lanternas a vela "herdadas" das carruagens no século 19 aos complexos conjuntos de iluminação brilhante por LED nos automóveis atuais houve enorme evolução deste importante item de segurança.

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    Contudo, surgiu uma controvérsia: quanto mais aumentava a potência e o brilho dos faróis para garantir maior alcance e visibilidade aos motoristas, havia reclamações quanto ao ofuscamento dos que rodavam em sentido contrário. Isso obrigou a um acordo de cavalheiros entre os pioneiros condutores de automóveis.

    No começo do século 20, com a introdução dos faróis de acetileno (gás incolor, altamente inflamável e instável), para não ofuscar quem vinha em sentido contrário, os motoristas gentilmente reduziam o fluxo do gás nos queimadores, fechando levemente uma torneira no painel. A intensidade da luz demorava a diminuir e, depois, também para aumentar. Muitas vezes apagavam, obrigando o motorista a estacionar e acender novamente os queimadores.

    Cord 810 De 1936 Com Faróis Amarelos
    Produzido entre 1936 e 1937, o Cord 810 já usava faróis com lentes amarelas
    Crédito: Reprodução
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    Quando surgiu o sistema elétrico, automóveis da era "vintage" (1919 a 1930) costumavam ter faróis montados à frente do radiador. Uma alavanca na cabine permitia girá-los para baixo quando fossem cruzar com outro veículo, especialmente nas áreas urbanas, e para cima quando queriam aumentar a visibilidade. Algo ainda rudimentar.

    Com a evolução do automóvel e o consequente aumento da velocidade, os faróis ganharam maior importância. Nos EUA a ênfase foi maximizar visibilidade e alcance dos fachos, deixando em segundo plano efeitos do ofuscamento. Na Europa, preocupação oposta: minimizar o ofuscamento, mesmo reduzindo o alcance da iluminação.

    A polêmica dos faróis amarelos

    A França adotou um regulamento curioso em 1937. Faróis de cor amarela tornaram-se obrigatórios, inclusive os de visitantes de outros países. Para evitar multas, aplicava-se uma película amarela sobre os faróis originais de luz branca.

    Justificativa: a cor amarela supostamente reduzia o cansaço visual e diminuía o ofuscamento. Alegava-se ainda que o tom proporcionava ganho de 8% de acuidade visual, mesmo reduzindo em 15% a intensidade de iluminação.

    Testes realizados em diferentes países nas décadas de 1960 e 70 não confirmaram nenhuma vantagem significativa dos faróis amarelos. Mas muitos motoristas preferiam esse tipo de farol para dirigir em condições atmosféricas adversas, a exemplo de nevoeiro ou chuva.

    Fiat Toro Ranch 2020
    Em 2020, modelos como a Fiat Toro ainda usavam far´pis halógenos - bem antes da popularização dos faróis de LED
    Crédito: Divulgação
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    Isso se deve à maneira como o olho humano processa diferentes tipos de luz. O branco reúne todas as cores: azul, anil e violeta são os mais difíceis de processar, além de provocarem mais brilho e cansaço à visão. O uso obrigatório de faróis amarelos manteve-se na França até 1993, quando o país teve que adotar a iluminação "branca" para estar em conformidade com normas europeias.

    Graças à evolução no desenvolvimento dos faróis e ao surgimento dos assimétricos no final da década de 1950, com facho dirigido mais para a lateral da estrada, o poder de iluminação pôde ser aumentado sem implicar ofuscamento.

    Outra evolução foi o farol com bloco elíptico, que proporciona distribuição mais homogênea do facho. No começo deste século surgiram os faróis de LED. Estes consomem menos energia e proporcionam muito mais potência e intensidade de luz.

    Mas isso fez ressurgir a polêmica de ofuscamento. Queixas de que os faróis atuais têm maior probabilidade de ofuscar os motoristas de carros rodando na direção oposta intensificaram-se nos últimos anos.

    Situação atual ficou mais tranquila

    Conforme recente estudo do Instituto de Seguradoras para Segurança Rodoviária (IIHS, na sigla em inglês), o ofuscamento representa apenas uma pequena fração dos acidentes noturnos. Isso praticamente não mudou na última década.

    "Embora possa ser desconfortável, o brilho e potência dos faróis atuais contribuem para um número muito menor de acidentes do que a visibilidade insuficiente", afirma David Harkey, presidente do IIHS. "Isso não significa que reduzir o brilho não seja um objetivo importante e para o qual temos dedicado muito tempo no IIHS".

    Atualmente é consenso que o ofuscamento representa apenas uma pequena fração dos acidentes noturnos. Acima, o Volvo XC 60 Polestar
    Crédito: Ricardo Rollo/Webmotors
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    Os efeitos de diferentes níveis de ofuscamento são mais difíceis de avaliar. A maioria dos acidentes noturnos ocorre quando o motorista afetado pelo brilho dos faróis em sentido contrário sai da pista, enquanto o veículo que provocou o ofuscamento não está envolvido e, portanto, impossível de ser identificado.

    Não há como saber se o acidente ocorreu devido à potência e à capacidade de iluminação dos faróis ou se o motorista esqueceu de mudar do farol alto para o baixo. Em comparação a acidentes sem relatos de ofuscamento, aqueles com ofuscamento foram mais frequentes envolvendo apenas um veículo em dias de chuva ou pista molhada em estradas vicinais, sem divisória central, apenas duas faixas e limites de velocidade relativamente baixos. Além disso, motoristas envolvidos em acidentes desse tipo tendiam a ser mais velhos e também dirigiam veículos mais antigos.

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