Carro a álcool faz 40 anos

Preferido dos brasileiros na década de 1980, biocombustível só é competitivo em somente cinco Estados

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Lukas Kenji
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Se hoje assistimos à corrida pelo carro elétrico à margem do desenvolvimento das indústrias norte-americana e europeia, há 40 anos o Brasil via uma disputa pelo pioneirismo da tecnologia de automóveis movidos a álcool. Foi em 5 de julho de 1979 que a Fiat apresentou o popular 147, impulsionado por combustível vegetal.

Em meio à crise do petróleo, que teve elevações recordes de preço diante da instabilidade de países do Oriente Médio, a indústria brasileira passou a buscar soluções mais baratas de combustíveis. Encontrou no álcool derivado da cana-de-açúcar uma saída mais eficiente em relação a desempenho e menos agressiva ao meio ambiente.

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Legenda: Fiat 147 com motor a álcool
Crédito: Divulgação/FCA

Naquele tempo, o 147 venceu a corrida do etanol contra o moderno Volkswagen Passat, que já havia marcado história ao ser o primeiro carro vendido no País com refrigeração a água. Não demorou muito para que os automóveis abastecidos pelo biocombustível conquistassem o consumidor. Com o embalo do Pró-Álcool, programa nacional para combater a crise do petróleo, 95,8% dos modelos vendidos eram embalados pelo composto vegetal.

Atualmente, a relação é inversa. Se a engenharia conseguiu aliar o consumo de gasolina e etanol em um só motor, a economia não conseguiu tornar a segunda opção competitiva. Levantamento da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) afirmam que o composto à base da cana-de-açúcar só tem preço competitivo em 5 Estados: Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.

O setor sucroalcooleiro vive cenário de sucateamento das usinas e estagnação da produção de cana, mesmo diante da alta do preço do petróleo. Nos últimos dez anos, 80 usinas de açúcar e etanol fecharam as portas, e outras 70 entraram em processo de recuperação judicial, segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar).

 Fiat 147 foi o primeiro carro movido a álcool do Brasil
Legenda: Fiat 147 foi o primeiro carro movido a álcool do Brasil
Crédito: Divulgação/FCA

FUTURO DO ETANOL

Mesmo assim, a indústria automotiva demonstra que não vai deixar o etanol de lado. Em abril deste ano, a Toyota anunciou o desenvolvimento do primeiro carro híbrido equipado com motor flex do mundo. A tecnologia será implementada na nova geração do Corolla (que chega às lojas no último trimestre do ano) e, segundo a montadora, “está em linha com o Programa Rota 2030 que busca, entre outros temas, estimular a produção de veículos mais eficientes”.

A marca japonesa destacou ainda que o etanol é importante por proporcionar baixos níveis de emissão de poluentes e capacidade de reabsorção dos impactos de gás carbônico (CO2), por ser um combustível renovável.

O posicionamento está alinhado com o da Fiat. De acordo com João Irineu, diretor de Assuntos Regulatórios e Compliance da marca, o etanol só não é 100% renovável porque a extração da cana-de-açúcar é feita por meio de máquinas agrícolas movidas a combustíveis fósseis.

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Legenda: Fiat 147 movido a álcool na pista de testes de Betim (MG)
Crédito: Divulgação/FCA

O executivo afirmou ainda que o próximo desafio é tornar o etanol fonte de energia para carros movidos a célula de combustível. “Já estão sendo desenvolvidos estudos para extrair hidrogênio do etanol e, assim, gerar energia para baterias de carros elétricos”, explicou Irineu em evento realizado pela Fiat na fábrica de Betim, a fim de comemorar o lançamento do 147 a álcool.

VOLTA AO PASSADO

Na ocasião, o WM1 teve a oportunidade de guiar uma unidade do primeiro lote vendido do simpático modelo. Com pintura preta e faixa lateral branca, ela tem carrega a sigla MP nas portas por ter sido vendido ao Ministério da Fazenda. Até hoje o exemplar pertence ao órgão, agora chamado de Ministério da Economia.

Segundo Robson Cotta, gerente de Engenharia Experimental da Fiat, o modelo que acumula pouco mais de 81 mil quilômetros rodados tem quase todos os equipamentos originais. “Só trocamos o tanque de combustível porque ele já estava completamente corroído”, afirmou o executivo que fez parte do processo de desenvolvimento do 147 movido a álcool.

O modelo de 3,62 metros de comprimento carrega motor 1.3 de quatro cilindros, capaz de entregar 62 cv de potência e 11,5 kgf.m de torque a 3.000 rpm. Ao dar arranque, o escapamento logo emana o particular aroma da combustão do álcool. Também por isso, o modelo carrega a alcunha de “Cachacinha”. Outro motivo, segundo Ronaldo Ávila, supervisor de engenharia da Fiat, é que durante os diversos testes de rodagem com o sedã, os engenheiros levavam garrafas de cachaça como uma espécie de combustível reserva.

O folclore veio a tornar o 147 ainda mais icônico. Com posição de dirigir próximo ao solo, engates precisos das 4 marchas e agilidade desde as velocidades iniciais, o sedã acumulou 120.516 emplacamentos de 1979 a 1987, período em que foi vendido no Brasil.

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