A indústria automotiva tem uma longa tradição de parcerias, joint-ventures e compartilhamento de projetos. Na prática, isso significa que um carro desenvolvido por determinada fabricante pode acabar com outra identidade, com novos ou até mais equipamentos e até outro posicionamento de mercado ao ser vendido por uma segunda empresa.
Há vários exemplos curiosos dessa estratégia. Alguns são praticamente irmãos, com mudanças concentradas em logos, grade e acabamento. Outros recebem alterações mais profundas de design, suspensão, motores e tecnologia, mas ainda preservam a estrutura e a origem do projeto original.
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Carros no Brasil que nasceram de "primos"
Essa lista de carros que viraram modelos de outras marcas, ou modelos que nasceram de projetos "primos", está prestes a ganhar mais um integrante: a próxima geração da Volkswagen Amarok, prevista para chegar ao Brasil em 2027, será baseada na Maxus Interstellar X, picape da chinesa SAIC.
Isso sem falar de uma segunda geração da picape, que já existe lá fora e é feita sobre a plataforma da Ford Ranger - diferente do que será oferecido no mercado sul-americano.
É certo: a própria Volkswagen confirmou que utilizará a arquitetura desenvolvida pela parceira chinesa enquanto equipes brasileiras e argentinas trabalham na adaptação do produto para a América Latina. Abaixo, listamos a nova Amarok e outros quatro exemplos desse tipo de recurso.
1. Maxus Interstellar X (ou Terron 9) → Volkswagen Amarok
A futura Volkswagen Amarok é provavelmente o exemplo mais recente e chamativo dessa estratégia. A picape da Maxus, marca que pertence ao grupo SAIC, será utilizada como ponto de partida para a nova geração da Amarok, que será feita na Argentina.
A Interstellar X (também chamada de Terron 9) tem 5,50 metros de comprimento, 3,30 metros de entre-eixos e 2 metros de largura, dimensões que colocarão a picape entre as maiores do segmento. O projeto também pode ter diferentes conjuntos mecânicos, incluindo versões a diesel e uma elétrica. Nossa aposta é de que a nova Amarok será híbrida plug-in (PHEV).
Isso não significa, porém, que a Amarok será uma Terron 9 com logotipo Volkswagen. A marca trabalha em alterações de design, acabamento, calibração de suspensão, freios e motorização para adaptar o veículo às necessidades do mercado latino-americano. Ainda assim, a origem chinesa estará presente na estrutura do projeto.
2. Changan Hunter → Ram Dakota e Fiat Titano
Outro caso que ganhou bastante destaque no mercado brasileiro é o da Changan Hunter, também conhecida como Kaicheng F70 ou mesmo Peugeot Landtrek. A picape chinesa deu origem a uma família que inclui modelos vendidos por marcas bastante diferentes, como Fiat e Ram.
A Fiat Titano, por exemplo, deriva diretamente desse projeto, assim como a Ram Dakota. As duas compartilham a base estrutural da Hunter, embora tenham recebido alterações de identidade visual, acabamento e calibração para atender às propostas de suas respectivas marcas.
A Dakota é um caso especialmente interessante porque utiliza uma evolução mais recente do projeto, que inclui interior atualizado. A picape da Ram ainda ganhou ajustes próprios de suspensão e outros elementos para se posicionar acima da Titano dentro da gama da Stellantis.
3. JMC Yusheng S330 → Ford Territory
O primeiro Ford Territory vendido no Brasil também escondia uma origem pouco conhecida: o SUV tinha como ponto de partida o JMC Yusheng S330, desenvolvido pela Jiangling Motors Corporation, parceira da Ford na China.Apresentado em 2018 para o mercado chinês, o Territory daquela geração era uma espécie de evolução e adaptação do Yusheng S330. A Ford modificou elementos externos, interior e acabamento para transformar o SUV em um produto com a identidade da marca americana.
Na época da chegada ao Brasil, em 2020, a origem do modelo chegou a chamar atenção justamente porque o Territory era vendido como um Ford, mas tinha relação muito próxima com um SUV de baixo custo. A parceria entre Ford e JMC foi fundamental para viabilizar o projeto.
Vale lembrar que o Territory atual vendido no Brasil é de uma geração diferente, baseado no JMC Equator Sport. Portanto, a relação com o Yusheng S330 vale especificamente para a primeira geração chinesa do modelo.
4. Dacia Logan → Renault Logan, Sandero e Duster
Esse é um caso um pouco diferente, já que Dacia e Renault são do mesmo grupo, mas serve perfeitamente para mostrar como um projeto pode ganhar novas identidades de acordo com o mercado.
O Logan nasceu como um projeto da Renault desenvolvido para a Dacia, marca romena que havia sido adquirida pela marca francesa. O objetivo era criar um carro relativamente simples, robusto e barato, capaz de atender principalmente mercados emergentes.
O sucesso foi tão grande que o modelo passou a ser vendido com o logo da Renault em diversos países, inclusive o Brasil. Na prática, Dacia Logan e Renault Logan eram do mesmo projeto, com mudanças de acabamento e de identidade visual segundo o mercado.
A família ainda deu origem ao Sandero e depois ao SUV Duster. O hatch usava a mesma base do Logan e foi criado com participação dos centros de engenharia da Renault no Brasil, França e Romênia. No Brasil, chegou em 2007 como Renault Sandero, antes mesmo de estrear na Europa como Dacia.
5. Daewoo Lacetti → Chevrolet Cruze
Por fim, um dos exemplos mais interessantes vem da General Motors (GM). O coreano Daewoo Lacetti teve uma primeira geração vendida em diferentes mercados com nomes de outras marcas, mas a história fica ainda mais curiosa com a segunda geração.
Em 2008, a Daewoo lançou o Lacetti na Coreia do Sul. O modelo era, na prática, a versão local do Chevrolet Cruze, que foi desenvolvido dentro da estrutura global da GM e feito sobre a plataforma Delta II. Enquanto outros mercados receberam o carro como Chevrolet Cruze, a Coreia manteve temporariamente a marca Daewoo.
Assim, a primeira geração do Cruze que conhecemos em mercados como o Brasil também teve uma espécie de "primo" coreano com outro nome. Quando a GM encerrou a marca Daewoo na Coreia do Sul, em 2011, o próprio Lacetti passou a ser comercializado como Chevrolet Cruze.
No fim das contas, os cinco casos mostram como a origem de um automóvel nem sempre está estampada na grade dianteira.
Por trás de um Volkswagen, Fiat, Ram, Ford, Renault ou Chevrolet pode existir um projeto desenvolvido originalmente por outra empresa - especialmente em uma indústria cada vez mais baseada em parcerias globais, compartilhamento de plataformas e redução de custos de desenvolvimento.
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