A turma do WM1, desconfiada como é, resolveu ouvir dois especialistas para averiguar se tal projeção é possível, e qual caminho trilhar para esta possibilidade. Ainda mais que a participação deste tipo de veículo, hoje, é de 2%. Apesar desse market share ser um recorde, não há qualquer movimento claro da indústria ou do governo no sentido de acelerar mais fortemente o desenvolvimento da eletrificação dos carros no Brasil.
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Vale lembrar que a grande maioria dos grupos automotivos estabeleceu metas bastante arrojadas neste sentido. Vários fabricantes pretendem ter só veículos eletrificados em seus portfólios até 2030.
No Brasil, atualmente, só dois modelos híbridos são feitos por aqui. Ambos do mesmo fabricante (Toyota) e sobre a mesma arquitetura: o sedã Corolla e o SUV Corolla Cross. Ou seja, em 14 anos seria necessário incrementar em muito a produção e desenvolvimento locais para chegarmos próximos das projeções dos estudos.
"O processo de eletrificação é um caminho sem volta, mas existem várias rotas tecnológicas disponíveis. É importante projetar o futuro e um diálogo com todas as esferas de governos e definir para onde a indústria deve rumar, quais tipos de investimentos e quais tecnologias podemos trazer. E também entender as necessidades dos clientes e a disposição deles em investir nesse tipo de tecnologia", diz Thiago Sugahara, vice-presidente de Veículos Leves da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e executivo da Toyota do Brasil.
Para muitos dos agentes envolvidos na questão da eletrificação dos carros no Brasil, é preciso ter, antes de tudo, planejamento definido. Não só em relação ao sistema tributário que vai incidir sobre os modelos elétricos e híbridos, como também em relação a regras bem definidas a médio e a longo prazo que contemple toda a cadeia automotiva.
"Temos que aumentar a discussão sobre eficiência energética. Hoje, por exemplo, o sistema tributário penaliza carros mais eficientes, pois é uma legislação dos anos 1990, que olhava mais para a capacidade do motor para definir o IPI", exemplifica Sugahara.
Consumidor vai comprar?
Um dos muitos obstáculos para termos quase 2/3 de carros eletrificados no Brasil esbarra no momento econômico e fiscal do governo. O que implica também na questão de o quanto as pessoas estão dispostas a pagar para ter um veículo com baixas emissões - ou emissão zero."Qualquer programa desse naipe contempla um custo mais elevado dos veículos. Porém, nossa capacidade de consumo se encontra em um nível bem aquém da dos países que estabelecem metas arrojadas para minimização dos motores a combustão. Possivelmente seremos penalizados porque a renda per capita não está à altura, como também a capacidade fiscal do país não comporta a concessão de incentivos que possam minimizar esse problema", analisa Antônio Jorge Martins, coordenador Acadêmico de Cursos Automotivos da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
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Isso implica em outra questão. Para tornar o carro eletrificado no Brasil acessível, um dos caminhos é, naturalmente, aumentar a produção para ganhar escala. Para tal, é necessário olhar também para o mercado externo.
"O Brasil precisa participar desse processo de transformação da indústria sem ignorar nenhuma rota tecnológica. É importante que haja previsibilidade, com regras claras para produzir não só para o mercado interno. Não podemos nos fechar no mercado brasileiro. Essa indústria precisa olhar para fora, exportar, fazer produtos que atendam a outros mercados", diz o vice-presidente da ABVE.
"Na medida que se tem crescimento de mercado, aumenta a escala e se favorece a nacionalização. É preciso projetar a Internacionalização de empresas e fazer investimento em toda a cadeia, gerar estímulos para que mudemos o patamar", completa Martins, da FGV.
Valor agregado
Ao mesmo tempo, faz parte do processo conscientizar melhor o público quanto aos automóveis elétricos e híbridos. Além de muitos mitos e tabus que envolvem esse tipo de veículo - como, por exemplo, o medo de ficar sem bateria no meio da rua ou o valor da conta de eletricidade -, para Antônio Martins é preciso criar valor para os carros eletrificados no Brasil."É necessário criar valor para que o cliente se sinta motivado a ter o veículo. Claro que isso esbarra na renda per capita do brasileiro, mas acaba sendo um sonho de consumo ter e usufruir de um carro elétrico e com conectividade plena. O melhor exemplo é a Tesla, que conseguiu se consagrar. Hoje, quando alguém vai para os Estados Unidos quer alugar um Tesla para ter essa experiência", ressalta o coordenador da FGV.
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