Os SUVs fecharam o primeiro bimestre de 2026 com uma fatia de quase 59% dos automóveis emplacados no Brasil. E boa parte desses automóveis ainda é 100% a combustão. De olho em um mercado enorme, a GAC resolveu ir contra a tendência de boa parte das outras marcas chinesas - com carros médios e motorização eletrificada - para apostar no GS3: um utilitário esportivo a gasolina, que chega para brigar com modelos compactos na faixa abaixo dos R$ 160 mil.
O GAC GS3 estreia no Brasil em duas versões: Premium (R$ 129.990) e Elite (R$ 159.990). Ambas equipadas com o mesmo motor 1.5 turbo a gasolina. Uma oferta que salta aos olhos. Tem linhas bonitas e ousadas, muitos equipamentos de série e equipado com um motor potente. Tudo isso pelo mesmo preço de SUVs menores, menos potentes e menos completos.
Parece um baita negócio, não? Bem. Sendo honesto contigo, aqui vale aquela velha regra de não julgar um livro pela capa. E nas próximas linhas você confere alguns itens que podem fazer você se apaixonar pelo GS3. Ou repensar a compra.

Não dá para negar: o GS3 é um carro bem bonito. De linhas ousadas e que fazem esse modelo produzido na cidade chinesa de Guangzhou parecer bem diferente da média dos SUVs compactos vendidos no Brasil. E as rodas de 19 polegadas - calçadas com pneus Michelin Pilot Sport 4 e que deixam aparecer as pinças de freio pintadas de vermelho - sugerem que eu estou diante de uma máquina agressiva e nem um pouco familiar.
Aliás, não é só no visual que esse carro é diferente dos outros SUVs de menos de R$ 160 mil. O GS3 é avantajado. Tem 4,41 metros de comprimento, 1,60 metro de altura, 1,85 metro de largura e entre-eixos de 2,65 metros. Praticamente as mesmas dimensões de um Jeep Compass. Só que custando bem menos.
E com medidas tão generosas por fora, o GS3 também é bem espaçoso. Pelo menos para os passageiros, que encontram piso com assoalho plano e amplo espaço para as pernas na traseira. Além daquele do bom acabamento e do tradicional painel com multimídia gigante - de 14,6 polegadas -, que são um padrão nos SUVs chineses vendidos no Brasil.

Mas o interior do GS3 não é só flores. E um dos pontos que podem incomodar é o porta-malas.
A capacidade é de apenas 341 litros. Pequeno para um carro desse porte. Só para comparar, o bagageiro de um Renault Kardian - um SUV subcompacto e bem menor - tem 410 litros de capacidade. Pelo menos a tampa do porta-malas tem abertura e fechamento elétricos. Raridade entre os utilitários de menos de R$ 200 mil.
O outro ponto que eu não curti é o quadro de instrumentos: uma tela pequena (de sete polegadas) colorida, mas de baixíssimo brilho e fundo escuro, ladeada por outras duas telas monocromáticas que parecem saídas de um aparelho eletrônico dos anos 1990. Visual absurdamente datado e que destoa tanto das linhas gerais do GS3 quanto dos outros carros vendidos pela GAC no Brasil.
Confesso que eu fiquei bem indignado com esse quadro de instrumentos do GS3. Não custava nada botar um quadro de instrumentos melhor e mais condizente com o estilo geral do GS3. (Respira, Evandro!)
Talvez, sei lá, um cluster melhor custe absurdamente caro. E aí, a GAC não pudesse oferecer o mesmo pacote de equipamentos sem afetar tanto os preços. Aliás, o GS3 até que é bem equipado já na versão de entrada Premium.
O GS3 Premium tem ar-condicionado automático, seis airbags, faróis de LED com acendimento automático, controlador automático de velocidade, multimídia com tela de 14,6 polegadas e espelhamento sem fio, câmera de ré, sensor de estacionamento traseiro, rodas de 18 polegadas, monitor de pressão dos pneus e bancos de couro.
Já o Elite, esse sim, é completasso. Além dos itens anteriores, inclui bancos dianteiros com ventilação e ajustes elétricos para o motorista, teto solar panorâmico, rodas de 19 polegadas, câmera 360°, sensor de chuva, e um pacote ADAS completo, com itens como alerta de colisão frontal com frenagem automática, controlador adaptativo de velocidade, assistente de permanência em faixa, monitor de pontos cegos e sistema de estacionamento autônomo.
As duas versões do GAC GS3 são equipadas com o mesmo conjunto mecânico: motor 1.5 turbo de 170 cv de potência e 25,5 kgfm de torque, e câmbio automatizado de sete marchas e dupla embreagem.
Com esse conjunto, o SUV acelera de zero a 100 km/h em 8,1 segundos. Não é o foguete que sugerem as rodas de 19 polegadas. Mas já consegue ser mais ágil que um Volkswagen Nivus GTS, que parte da imobilidade até os 100 km/h em 8,4 segundos.
Mas carro que anda é carro que bebe e o consumo de combustível do GS3 é apenas razoável: médias de 10,2 km/l (cidade) e 11,6 km/l (estrada) nos testes do PBEV, do Inmetro.
Os freios são a disco nas quatro rodas - ventilados na dianteira e sólidos na traseira -, enquanto a suspensão tem aquele layout que é quase padrão nos SUVs compactos, com conjunto McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira.
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O percurso do test-drive com o GAC GS3 foi de cerca de 60 quilômetros. Metade como passageiro. Saí de uma concessionária da GAC no bairro da Vila Leopoldina, na capital paulista, e encarei um bom trecho de Marginal Tietê seguido por um trecho menor, porém de alta velocidade, na Rodovia dos Bandeirantes. Trajeto curto. Mas foi possível notar as diferenças no comportamento do carro no trânsito urbano e na estrada.
Aproveitei os primeiros quilômetros para comprovar que o quadro de instrumentos poderia realmente ser melhor e que o monitor de pontos cegos - daquele tipo que exibe as imagens na multimídia sempre que a seta é acionada - é menos eficiente que a boa e simples luzinha nos espelhos retrovisores externos.
E, nesses primeiros minutos, o que me surpreendeu é como o carro é afoito no modo de condução esportiva. Segundo a GAC, foi feito um trabalho de recalibração nos GS3 "brasileiros" para deixar o acelerador mais sensível e as trocas de marcha mais ágeis. É que, na China, diferentemente daqui, o pessoal prefere reações mais lentas e trocas de marchas suaves.
O resultado é um carro que ficou ágil - mas até demais. Na cidade, a sensação é de se estar acelerando por meio de um botão do tipo on/off. Nas calibragens mais mansas, voltadas para economia de combustível e conforto, as respostas ao acelerador ficam bem mais equilibradas.
Já na estrada, o acelerador ultrassensível - que incomoda no uso urbano - agrada mais. Mas aí quem poderia ser mais ágil é o câmbio automatizado, que em retomadas se parece mais com um automático convencional que com uma caixa de dupla embreagem. Apesar desses detalhes, os números não mentem e o GS3 realmente é um carro forte.
E, com tanto fôlego, bem que o SUV turbinado da GAC merecia uma direção mais firme e direta e uma suspensão mais dura. Mas a realidade é justamente o contrário: o GS3 tem direção leve e suspensão macia. Conjunto que agrada pelo conforto, mas nem tanto pela dinâmica esportiva.
Outro ponto no qual o GS3 poderia ser mais refinado é no isolamento acústico. Basta pisar um pouco mais fundo para o ronco do motor invadir a cabine. E rodando por volta de 120 km/h, o ruído de vento fica bem evidente.
Como eu falei lá em cima, o GAC GS3 até parece ter um pacote perfeito. No uso, porém, você percebe que o GS3 até tem muitas qualidades, mas não é um carro tão unânime.
Se você se encantou pelo visual, pela potência e pela lista recheada de equipamentos - principalmente na versão Elite -, vale a pena sim passar em uma loja da GAC para dar umas voltas no GS3. Até porque a combinação de preço e pacote é realmente muito tentadora.
Agora, se você está em busca de um automóvel de rodar mais refinado ou que seja mais voltado para a dinâmica que para o conforto, então vale a pena observar outros modelos na mesma faixa de preço.
A boa notícia é que concorrentes não faltam. Sejam híbridos, 100% a combustão, médios, compactos...
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