A Fórmula E bem que tenta, mas não consegue ser levada a sério. Sob escrutínio desde sua gênese, a categoria de elétricos fez (mais) um papelão no último fim de semana, no ePrix de Valência. Tamanha foi a fanfarronice que a coluna se viu obrigada a discorrer sobre a patacoada. Também, claro, falaremos sobre o vindouro GP de Portugal de Fórmula 1.
Em Portimão, certamente, teremos uma corrida. Não será uma farsa como a que vimos em Valência sábado passado. Foi um episódio tão bizarro, mas tão bizarro, que fica até difícil de ser sumarizado em algumas linhas.
Sequer havia começado, e a corrida 1 da Fórmula E em Valencia já tinha tons de comicidade. Nem bem caía uma garoazinha e a direção de prova fez questão de lançar mão do safety car para largada com os carros em movimento. Por quê? Para quê?
O circuito Ricardo Tormo, onde ocorreu o prélio, é um autódromo permanente. Ao contrário das usuais (e bisonhas) pistas de rua nas quais a Fórmula E coloca seus carros para "disputa", Ricardo Tormo tem reta larga e área de escape suficiente para uma largada absolutamente normal em condições de chuva.
Mas isso foi só o começo.
A primeira experiência da Fórmula E em um autódromo permanente, daí em diante, descarrilou. Não acostumada a muitas intromissões do safety car, a categoria viu o Mini de segurança entrar na pista em cinco oportunidades.

Segundo o regulamento, há de se tirar autonomia da bateria dos carros sempre que o safety car deixar a pista. Tal resultou num espetáculo diametralmente oposto ao que o esporte a motor deve propiciar. Para não zerar a energia, os carros se arrastaram até a linha de chegada. É como se assistíssemos a um embate entre vários Chevette Júnior equipados com kit GNV.
Para se ter uma ideia, dos 24 pilotos que largaram, apenas nove terminaram a prova. Destes, três tiveram que usar o limitador de velocidade para o pit lane a fim de cruzar a linha de chegada. Aniversariante do fim de semana, Jean-Éric Vergne foi um deles. Para terminar a última volta, o francês precisou de seis minutos. Baita presente.
Para completar, três carros pararam na pista, sem "combustível". Outros cinco foram desqualificados por excederem o uso permitido de energia. Ah, mas não para por aí. Não para mesmo.
Até então líder absoluto da prova, o atual campeão António Félix da Costa viu o triunfo escorrer pelos dedos por falta de energia. Nyck de Vries, da Mercedes, incapaz de ter o mesmo ritmo do português, herdou a vitória. Seu companheiro de equipe, o belga Stoffel Vandoorne, também se deu muito bem. Largou em último e, aos trancos e barrancos, chegou em terceiro.
Mas qual é a graça disso? Corrida de verdade premia quem leva na pista. Uma vitória numa prova jamais pode ser consequência de benesses do regulamento. A Fórmula 1 e o GP de Indianápolis de 2005 sabem muito bem disso.
Admito que, justamente pelo supracitado, esperava por uma retratação da Fórmula E, garantindo que a palhaçada não fosse mais acontecer. O trouxa aqui se enganou. A organização fez foi questão de celebrar a bizarrice. Disse que o "gerenciamento de energia é fundamental" na categoria. Também, olha você, falou o seguinte:
"A corrida de hoje mostra a habilidade e a estratégia necessárias para combinar velocidade e gerenciamento de energia."
Com tal declaração, a Fórmula E foi além da pândega, da loucura. Jogou na frente de um ônibus em movimento praticamente todos os seus pilotos. Fez com que António Félix da Costa, vale lembrar, atual campeão do prélio, tivesse que se defender publicamente. Como uma categoria trata sua maior estrela assim?
E tem mais. Com tais declarações, a Fórmula E ri na cara do seu bem mais precioso. Os (poucos) fãs que a categoria tem foram tratados como moleques que nada entendem de automobilismo. Será que até a parte do séquito mais radical vai aturar uma nova presepada dessas?
A categoria volta a dar o ar da graça no próximo dia 8, em Mônaco. Evidente que a coluna torce por uma bela disputa, por um embate limpo e com muita emoção na pista. Agora, independente do que acontecer na temporada, uma coisa já é imutável para o escriba: a Fórmula E virou, oficialmente, uma piada.
A coluna já está pronta para o terceiro round da luta entre Lewis Hamilton e Max Verstappen. Em Portimão, o holandês novamente terá vantagem ante o rival. O carro da Red Bull ainda se mostra mais competitivo que o Mercedes W12.
Max e Lewis chegam a Portugal separados por apenas um ponto. Verstappen tem 43 pontos no campeonato, contra 44 de Hamilton. A tendência é de que o holandês ultrapasse o britânico este fim de semana, mas, claro, não dá para descartar o heptacampeão assim tão fácil.
Além da disputa Hamilton x Verstappen, destaco também alguns duelos pessoais para Portimão. Algumas figuras do grid já desembarcam pressionadas em Portugal - e olha que ainda estamos na fase inicial do campeonato.
Depois de um péssimo desempenho em Ímola, Sergio Pérez já começa a ver mais distante o ombro amigo de Helmut Marko. O mexicano precisa de um bom resultado para não virar o novo "alvo favorito" do todo-poderoso da Red Bull. Quem também tem que ficar ligado na chefia é Yuki Tsunoda. O calouro da AlphaTauri também foi mal na Itália e vai em busca da recuperação em Portugal.
Após colisão em Ímola, George Russell e Valtteri Bottas precisam garantir alguma coisinha em Portimão. Embora a coluna atribua a Russell a culpa pelo incidente na Itália, também crê que Bottas jamais deveria se ver naquela situação. Disputar, ao volante de uma Mercedes, metro a metro com uma Williams é algo no mínimo patético.
Mas são dois veteranos que chegam muito pressionados em Portugal. Fernando Alonso conquistou seu primeiro pontinho pela Alpine na última etapa do mundial, mas ainda não mostrou a que veio. O bicampeão teve duas atuações muito apagadas (especialmente em Ímola) e tem de ser mais agressivo em Portimão.
No entanto, quem está numa pior mesmo é Sebastian Vettel. O tetracampeão mundial ainda não conseguiu se acertar na Aston Martin. Para se ter uma ideia do calvário, há 15 etapas o alemão não vai ao Q3.
Pelo time britânico, Vettel fez duas corridas muito ruins, e repetiu seus piores momentos de Ferrari em 2020 e Red Bull em 2014. Lance Stroll, inclusive, se aproveita da incapacidade do alemão e faz o nome dele em cima do tetracampeão.
É claro que todos os fãs do esporte querem ver um Vettel revigorado, de volta à boa forma. A coluna espera que o alemão tenha melhor sorte em Portugal e, enfim, conquiste um bom resultado pela Aston Martin e ganhe confiança para o restante da temporada.
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Toda a última quarta-feira do mês a coluna Chicane traz reflexões e histórias do mundo do automobilismo, em especial a Fórmula 1, com Marcus Celestino.
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