À beira do abismo

A falsa inocência do motociclista imprudente em acidentes
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Geraldo Simões
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Arriscar a vida em busca do limite não é novidade na história da humanidade. Não sei explicar se é uma herança genética, mas está presente no ser humano, independentemente de ser homem ou mulher. Mas parece que esta tendência está aflorando nas últimas décadas. Uma rápida pesquisa nos sites de compartilhamento de vídeos é suficiente para encontrar toda espécie de atividade de risco e não raro cenas de acidentes fatais com milhões de acessos.

Depois de parar de correr fui buscar a fonte de endorfina na escalada. Ao contrário do que se pensa, a escalada esportiva é extremamente segura, mas muito emocionante pelo aspecto da altura e desafios. Já não é o caso da escalada de alta montanha, chamada popularmente de alpinismo. Nos montanhas acima de 8.000 metros em relação ao nível do mar os limites do ser humano são levados a extremos que podem ser fatais pelo simples fato de estar lá.

Um fenômeno comum aos escaladores de alta montanha é a “febre do cume”, situação de quase entorpecimento quando o alpinista abandona todas as regras de segurança e se lança em direção ao cume. Não por acaso, cerca de 80% dos acidentes fatais acontecem na descida, depois de voltar do cume, porque simplesmente esqueceu que descer é tão ou mais perigoso do que subir. O cume pode até ser o objetivo, mas se não voltar vivo não faz o menor sentido.

Quando questiono o que leva um homem adulto, bem de vida, financeiramente estável e com família estruturada a correr de moto acima de 250 km/h na estrada ouço todo tipo de argumento furado. Mas se a TV noticia que homem adulto, bem de vida, financeiramente estável e com família estruturada morreu ao tentar atingir o cume do Everest a opinião pública acha um “absurdo”, “loucura”, “suicídio” etc. Para mim as duas situações são iguais.

Não existe uma explicação para essa superexposição aos limites, embora quando aconteça um acidente sempre tenha alguém disposto a buscar “culpados”. Nesta exposição de acidentes fatais com motociclistas que chegam pela Internet o processo é dividido em três partes: primeiro a notícia da “tragédia” e a surpresa pela descoberta da mortalidade; depois vem as manifestações de dor e pesar para, finalmente, terminar na busca por culpados. O acidente pode ser resultado de um motociclista que atravessou a estrada pelo canteiro central, um motorista que não olhou pelo espelho retrovisor, um pedestre que correu pela rua desatento. Raramente a culpa volta-se para a vítima. Como se correr na estrada acima de 250 km/h fosse o trivial de quem compra uma moto esportiva.

Desde que a Igreja católica criou a culpa ao afirmar que “Jesus morreu para nos redimir dos pecados” o mundo ocidental católico passou a viver a eterna condição de caçador de culpados! Já nascemos culpados por alguma coisa que não sabemos, mas que levou um santo homem à morte 1979 anos atrás, então tudo que der errado na minha vida obrigatoriamente será culpa de alguém ou alguma coisa.

A escaladora sul-africana Cathy O’Dowd viu uma americana morrer bem diante de seus olhos durante uma tentativa de atingir o cume do Everest em 1998. Em seu livro “Just for the love of it” (sem tradução em Português), ela descreve como é enfrentar este limite entre a vida e a morte, a consequente perseguição aos praticantes e a busca por culpados. O alpinismo acima dos 8.000 metros não tolera erros, nem permite resgate. Se um colega cai em exaustão profunda não há como socorrê-lo sem colocar em risco a vida de outras pessoas. É um risco solitário, assumido. Ela escreveu uma teoria que talvez explique o que se passa quando alguém vive na beira do abismo:

“De quem é a escolha que representa o risco afinal? Não é da pessoa que resolve ir até lá? Vivemos em uma sociedade voltada para a culpa, que exige explicações e prestações de contas, indo atrás de bodes expiatórios se necessário. Se caminho pelas vias estreitas da vida, faço isso porque eu quero. Se essa beirada se rompe sob mim, aceito isso como conseqüência da minha escolha. Não posso culpar os outros pelo o que aconteceu. Tão pouco espero que aqueles que me acompanham por aquela passagem, caso me acompanhem, carreguem a culpa por minhas decisões. Eu faço uma escolha e vivo por ela, ou morro. A morte não é a intenção, mas é aceita como uma possibilidade em vista do risco da atividade.”

Por isso acho cada vez menos aceitável que os amigos e parentes das vítimas de um motociclista que se expôs conscientemente ao risco tentem tratar a fatalidade como uma tragédia, ou falta de sorte. É preciso voltar para o foco essencial: a responsabilidade de assumir o risco. Não há transferência de culpa quando se roda perto de 300 km/h em estradas. A vítima é o próprio algoz.

Gostou? Pois continue lendo a série do Tite sobre velocidade na próxima segunda (25), aqui, no WebMotors!

Confira os textos anteriores:

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As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.

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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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