Brasil e Alemanha: métodos diferentes para sair da crise

Os dois países cresceram com incentivos governamentais: Brasil reduziu IPI, Alemanha jogou carro no lixo.
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O Brasil, nas Américas; e a Alemanha, na Europa, foram os países que mais se destacaram neste ano de crise econômica em relação à indústria automobilística.

Ambos encerram o ano com crescimento nas vendas em relação a 2008, diferentemente da grande maioria dos países produtores e consumidores.

O bom desempenho dos dois também foi calcado em ações do governo junto ao setor, que incentivaram a compra de carros novos. Mas o estímulo ao consumo dos dois países foi bem diferente. E aí - devo reconhecer - fico com a solução adotada pelo Brasil.

Como se sabe, o governo incentivou o setor reduzindo o IPI para carros até 2.0-litro, medida aprovada pela sociedade e que realmente deu resultado. Passamos o ano noticiando recordes mensais de vendas e 2009 já cresceu quase 10% sobre no ano passado.

A Alemanha experimentou crescimento este ano, enquanto seus pares europeus amargaram queda de vendas. Mas os bons resultados da Alemanha foram obtidos graças a uma política de destruição de carro velho. O governo promoveu a renovação da frota oferecendo quatro mil euros cerca de R$ 10 mil para destruir o carro do cidadão, com mais de nove anos de uso, na troca por um zero.

Mesmo na Alemanha, onde o poder aquisitivo é infinitamente maior do que no Brasil, um carro com nove anos ainda pode estar em boas condições de uso. E com bom valor de revenda, acima dos quatro mil euros oferecidos. Mas muita gente sacrificou o seu carro ainda em bom estado para fazer a troca por um novo.

Essa política contribuiu para a recuperação das vendas, aqueceu a economia, fez a Alemanha se diferenciar dos demais países europeus, como o único a crescer num mar de retração em 2009. Mas a que custo? Muitos carros ainda em condições de uso foram destruídos; nenhuma peça podia ser reaproveitada: pneus novos, catalisadores em bom estado, motor, partes da mecânica e da lataria e até sistema de som foram pro lixo.

Prevaleceu a política de destruição, para depois construir outro. E assim, de forma tosca e atrasada, salvar o deus mercado e fazer girar a economia. Desperdiçando matéria prima e força do trabalho. Destruindo material que ainda poderia ser utilizado. Produzindo lixo desnecessariamente. Agredindo o meio ambiente.

De quebra, essa política de incentivo derrubou o preço dos usados, fazendo com que muita gente perdesse dinheiro, já que, também como aqui no Brasil talvez menos, o carro usado tem um bom valor de revenda na Alemanha.

A política de incentivos do Brasil ao setor automobilístico também deve ser contestada, pois o governo está abrindo mão de uma parte importante da arrecadação - que poderia ser investida em transporte público - para ajudar as multinacionais e a elite compradora de carro zero, formada por apenas 1,5% da população. Mas entre um caso e outro, sou mais o incentivo financeiro do que a destruição.

O carro – ou outro bem de consumo – que teve para sua produção teve investidos horas de trabalho humano, insumos e materiais não renováveis, deve ter a vida alongada até o quanto possível, de forma que esse investimento e esse gasto sejam aproveitáveis ao máximo.

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Joel Leite joelleite@autoinforme.com.br é diretor da Agência AutoInforme, especializada no setor automobilístico, que fornece informações para vários veículos de comunicação. Produz e apresenta o Boletim AutoInforme, das rádios Bandeirantes, Band News e Sul América Trânsito. É formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em Semiótica e Meio Ambiente.

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