Câmeras flagram os horrores do trânsito, mas e daí?

Infelizmente quando se fala em rigor na lei de trânsito os burocratas só enxergam cifrões.
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Geraldo Simões
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O ano de 2014 começou com cenas horripilantes de acidentes de trânsito. Em uma delas uma motorista visivelmente desequilibrada, dirigindo um SUV, invadiu a calçada em Ferraz de Vasconcelos, SP, e atropelou cinco crianças. Outra cena mostrou dois carros tirando racha na zona Leste de São Paulo que causou o atropelamento e morte de um pai de família. Na outra cena um motorista completamente bêbado em Curitiba atropelou um ciclista, que ficou preso ao para-brisa e carregou o corpo por seis quilômetros em uma clara tentativa de fuga. A motorista do SUV vai responder o processo em liberdade, enquanto o atropelador embriagado está preso. Já o rachador assassino nem sequer foi identificado.

 

Lá nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova York, o ex-prefeito Rudolph Giuliani adotou a política de tolerância zero. Vários pequenos delitos passaram a pagar uma pena alta, seja por multa ou encarceramento temporário. Foram colocadas câmeras de vigilância em ruas, estabelecimentos comerciais e prédios públicos. Como resultado os pequenos delitos caíram em progressão geométrica e junto com eles os grandes delitos.

 

A filosofia da tolerância zero é exatamente essa: combater os pequenos delitos antes que se tornem grandes crimes. Pitágoras já dizia isso cinco séculos antes de Cristo. Não gosto de usar exemplos de países mais ricos e desenvolvidos, porque apesar de o Brasil ser a sétima economia do mundo, a realidade social está mais para Burundi do que do Reino Unido. Mesmo assim esse exemplo de Nova York precisa ser olhado com atenção.

 

Aqui na nossa terra já existe esse discurso de “tolerância zero” e maior rigor na aplicação de penas e multas. Mas... do jeito brasileiro. Hoje a Justiça não acompanha esse recrudescimento nas punições. No caso do atropelador bêbado ele foi preso em flagrante, será julgado por crime doloso (quando há intenção), mas um dia ele poderá voltar a dirigir.

 

O mesmo com a desequilibrada do SUV. As câmeras mostraram que ela não tinha capacidade para dirigir, deveria ter a habilitação suspensa no ato, sem perder tempo com julgamento, porque as imagens são claras e falam por si.

 

Já o rachador da zona Leste estava em alta velocidade, muito acima dos 60 km/h permitidos para a via e mesmo assim não havia radar nem câmeras que conseguissem identificar a placa do veículo. E ainda somos obrigados a ouvir “especialistas” defendendo uma maior redução na velocidade máxima nas vias de São Paulo. Nesse caso adiantou alguma coisa encher a avenida de placas? Não, porque a fiscalização em SP tem horário comercial.

 

Infelizmente quando se fala em rigor na lei de trânsito os burocratas só enxergam cifrões. Adoram aumentar o valor das multas porque esse dinheiro não tem uma destinação clara e pode ser usado para qualquer fim. Pior do que isso, a multa nunca teve, não tem e nunca terá caráter educativo. Aquela conversa mole de que o órgão mais sensível é o bolso é uma tremenda besteira, porque em São Paulo tem um número enorme de veículos que rodam livremente com milhares de reais em multas.

 

Recentemente foi apreendido um carro – velho – que tinha mais de 300 mil reais de multa! Não adianta multar se o infrator jamais será cobrado. Quanto mais cara a multa maior a inadimplência!

Portanto esse papo de aumentar as multas já não cola. Além disso, já escrevi dezenas de vezes que o fator educacional/correcional só funciona se for aplicado no ato da infração e não 45 dias depois. Aí entra em cena o papel do agente fiscalizador. Quando foi a última vez que você viu algum desses agentes conversando ou orientando motoristas?

 

Só a título de exemplo e curiosidade, nos anos 70 eu estava viajando para o Interior de São Paulo, com minha habilitação estalando de nova, quando um policial me flagrou a apenas 10 km/h acima do limite de velocidade que era 80 km/h. Depois de lavrar a multa ele virou pra mim e disse: “já que você está com pressa vai ficar aqui de castigo por uma hora”. Uma hora!!! Todo mundo me esperando pro churrasco, passeio de barco e eu ficaria “preso” por uma hora! Não podia haver uma punição pior que essa! Esse castigo foi tão emblemático que eu nunca mais esqueci, mesmo passados quase 40 anos.

 

Recentemente, enquanto eu ministrava uma palestra para a Polícia Militar de uma cidade entre São Paulo e Minas, contei essa história e o oficial me disse que se fizer isso hoje em dia pode ser processado por abuso de autoridade, cárcere privado e outras coisas. Ou seja, a Justiça tirou dos agentes fiscalizadores o papel educador e deixou apenas o de multador.

 

Se o Brasil pretende realmente reduzir o número de acidentes e vítimas de trânsito precisa começar a devolver a função orientadora aos agentes fiscalizadores. E mais uma vez tentar aproximar a Justiça da realidade das ruas e estradas. Algumas punições precisam ser imediatas, seja por meio de uma multa paga na hora, ou a reclusão temporária (aquele meu castigo de uma hora) de um motorista/motociclista em atitudes como trafegar pelo acostamento, ultrapassagem em local proibido.

 

Só para encerrar, mais um exemplo comigo mesmo quando eu viajava de carros pelo Estado de Nevada, EUA. Para cortar caminho eu simplesmente afastei os cavaletes de uma estrada bloqueada por causa do excesso de gelo e neve e segui tranquilamente de carro, deslizando e bem devagar.

Depois de rodar alguns quilômetros, parei para tirar fotos e em poucos minutos apareceu uma picape enorme escrito Sheriff na lateral. Tremi. E não foi de frio!

 

O policial percebeu que eu era estrangeiro e relaxou a punição, mas ficou mais de uma hora e meia, num frio siberiano, me explicando tudo que podia e não podia fazer no trânsito nas estradas daquele Estado. Ah, e ainda me fez voltar pelo mesmo caminho e recolocar os cavaletes no lugar. Quando perguntei como ele havia descoberto a minha traquinagem, o policial simplesmente mostrou o painel da picape com uma tela e explicou: “você foi filmado lá atrás!”

 

Lá as câmeras funcionam para evitar os acidentes. Aqui elas são usadas para mostrar o acidente!

 

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