Cem quilômetros por litro de diesel

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Karina Autopress
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- A Volkswagen já faz um carro de três litros - não um motor de três litros de deslocamento isso qualquer fabricante faz, e sim um carro que cobre 100 km com três litros de óleo diesel. Ferdinand Piëch, austríaco, neto de Ferdinand Porsche, engenheiro que se tornou industrial, com uma carreira controversa, mas mesmo assim brilhante, e ex-presidente do império Volkswagen, ao se despedir de sua posição de executivo-chefe da quarta maior fabricante do mundo, no dia 14 de abril de 2002, cobriu os 230 quilômetros de Wolfsburg a Hamburgo gastando apenas 2,1 litros de óleo diesel, para uma média de mais de 109 km/litro.

Piëch ia na frente de um imenso comboio, debaixo de uma forte chuva, sempre na faixa da direita, mantendo entre 80 a 90 km/h, uns 30 km/h abaixo da velocidade máxima de seu carro experimental, seguido por uma infinidade de veículos de TV, rádio, jornais e revistas, que forçaram um dos grandes engarrafamentos que a estrada já presenciou, durante quase três horas. A velocidade média para todo o percurso foi de quase 71 km/h.

Ele foi a Hamburgo para presidir sua última reunião com os acionistas da empresa, tendo como passageiro seu substituto, Bernd Pischetsricaption, que depois voltou dirigindo na tarde do dia seguinte. Pronto para a viagem de volta, e já como ex, Piëch entregou as chaves a Pischetsricaption, dizendo “Dr. Pischetsricaption, seu carro está pronto”. A viagem de retorno não foi das mais tranqüilas, tendo começado na hora de maior tráfego da cidade, e Pischetsricaption não conseguiu fazer mais de 88 km/litro.

Piëch queria fazer um carro de 2 litros 50 km/litro, prático, de duas portas e quatro lugares, menor que o Polo e maior que o Lupo. O carro ficou pronto há três anos, mas era caro demais para entrar em produção normal. Resolveu então dar a seus engenheiros o objetivo de chegar aos 100 km/litro num veículo de pesquisas que mantivesse os padrões de segurança dos atuais carros de produção. O engenheiro-chefe de pesquisas da Volkswagen, Ulrich Eichhorn, que a estas alturas já havia feito mais de mil quilômetros com o 1 litro, garante que o carrinho é quase absurdamente ágil, virando quase mais rápido do que seu motorista consegue girar o volante.

O chassi espacial é feito em magnésio, revestido por uma carroçaria em fibra de carbono que pesa apenas 74 kg. O entre-eixos é de 2.205 mm, o comprimento total de 3.646 mm, a largura de 1.248 mm, a altura de 1,10 m, a bitola dianteira de 1 m e a traseira de 810 mm, a capacidade do porta-malas é de 80 litros e o peso global, de 290 kg, apesar da existência de airbag para o motorista, freios ABS de quatro canais, programa eletrônico de segurança, duas câmaras de TV nas lanternas traseiras, para substituir os espelhos retrovisores laterais, e uma terceira câmara no brake light para marcha-à-ré.

O carrinho tem dois lugares em tandem um atrás do outro. O motorista tem à sua frente um volante de direção tipo F1, dois pedais não precisa de pedal de embreagem, painel de instrumentos aeronáutico, conjunto de instrumentos com velocímetro, hodômetro, temperatura do motor e computador de bordo, à esquerda e à direita monitores para as câmaras de TV, controles de aquecimento elétrico, ventilação e luzes à esquerda, e botão de mudanças de marchas, freio eletrônico de estacionamento e botão de partida; o carona tem apoios para os pés à esquerda e à direita do banco do motorista.

A capota transparente em policarbonato, com proteção solar integrada, tem praticamente metade da largura do carro todo, e as rodas traseiras são cobertas por saias, tudo ajudando a atingir um Cx de 0,16 0,159 exatos. Os faróis são bi-xenônio de 32 watts, com iluminação equivalente aos convencionais de 60 watts, e todos os outros aparelhos de iluminação são LEDs

A suspensão dianteira é por braços transversais duplos, os superiores em magnésio e os inferiores em alumínio; a traseira De Dion com molas em fibra de carbono, as rodas são em fibra de carbono, seus cubos em titânio e os pneus são Michelin com 30% a menos de resistência ao rolamento do que um pneu convencional do mesmo tamanho, 95/80 R16 na frente e 115/70 R16 atrás. A direção é por pinhão e cremalheira, mecânica e extremamente direta. Seu tanque de combustível é de 6,5 litros, para uma autonomia superior a 600 km.

O motor é um diesel monocilíndrico monobloco bloco e cabeçote em uma só peça de 299 cm3 69 x 80 mm, taxa de compressão de 16,5:1com injeção direta por bomba de mais de 2.000 bar de pressão, e bico, dois eixos-comando de válvula, duas válvulas de admissão e uma de escape, que desenvolve 8,5 hp de potência a 4.000 rpm e 1,88 kgm de torque a 2.000 giros. Pesa 26 kg sem acessórios, e 38 kg completo, pronto para funcionar. É colocado entre-eixos à traseira e entrega sua força às rodas traseiras através de uma caixa manual automatizada de seis marchas seqüenciais, que pesa ao todo 23 kg e possui função de roda-livre – nas velocidades de cruzeiro, o 1L roda com o motor desligado. Quando o motorista aperta novamente o pedal acelerador, um gerador de partida, alojado entre o motor e a caixa de câmbio, põe o motor a funcionar. Nas frenagens, a energia usada para diminuir a velocidade é armazenada no gerador, que sempre que necessário fornece esta energia como suplemento extra à do motor. O 1L vai de 0 a 80 km/h em 31 segundos, e atinge máxima de 120 km/h.
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José Luiz Vieira é engenheiro automobilístico e jornalista, diretor de redação da revista Carga & Transporte e do site TechTalk www.techtalk.com.br, sócio-proprietário da empresa JLV Consultoria e um dos mais respeitados jornalistas especializados em automóveis do Brasil. Trabalhou como piloto de testes em várias fábricas e foi diretor de redação da revista Motor3. E-mail: joseluiz@jlvconsultoria.com.br

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