Comece mudando a si mesmo

Toda mudança de comportamento social deve começar no indivíduo e com o trânsito não é diferente
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Geraldo Simões
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No mês de maio tive a oportunidade de participar de várias reuniões e comitês sobre segurança veicular, com ênfase nos motociclistas. Na minha nova função como consultor da Assohonda também recebo notícias veiculadas pela imprensa de todo o Brasil. E mais: as colunas publicadas aqui ajudaram a difundir o tema e também recebi mensagens de leitores e convites de prefeituras para conhecer os trabalhos desenvolvidos em algumas reuniões. Em suma, estou no meio de um tornado de informações que chega a ser difícil compilar. Por isso vou tentar subdividir por itens:


III Workshop Abraciclo de Segurança – Pela primeira vez participei deste workshop que teve representantes de várias áreas ligadas a segurança de trânsito, inclusive médicos, secretários de Meio Ambiente e Cidade, militares e todo tipo de especialista.


Algumas posições foram meio óbvias com relação ao incentivo e regulamentação do uso de bicicleta. Outras foram surpreendentes, como a desmistificação da educação primária no papel de preparar melhores autores do trânsito (classificação que engloba pedestre, ciclista, motociclista, motorista, frotista etc.). E algumas foram ridiculamente obsoletas e ineficazes como a “educação pela coerção” defendida obviamente pelos policiais do trânsito.


O que ficou evidente é aquela minha velha teoria de que é preciso atingir o caos para depois tentar implantar o controle. Nenhum setor da sociedade chama para si a responsabilidade pelo descontrole do trânsito, como se fosse um fenômeno de vida própria que chegou ao Brasil por meio de alguma nave espacial. As autoridades tratam as soluções de trânsito como se uma semana atrás nada disso existia. Ou seja, ninguém entra em um workshop sobre o assunto com hombridade suficiente para assumir “erramos nisso, naquilo e naquilo, ok, vamos tentar arrumar a casa”. Nada, o jogo de empurra se manifesta em todos os segmentos. Isso se explica porque a direção do trânsito é cargo de nomeação política e não técnica. E se tem uma coisa que político não assume são seus erros.


Da mesma forma que nenhuma mãe assume ter filho feio, a administração pública nunca admite seus erros e prefere jogar no cidadão a responsabilidade pelo caos e ainda transfere aos cidadãos o ônus pelo controle. A tal “educação pela coerção” defendida ridiculamente pelo capitão Julyver Modesto de Araújo nada mais é do que aumentar a fiscalização dos cidadãos motorizados, aplicar multas – que em São Paulo deve chegar a casa de um bilhão de reais ao ano em breve – e punir quem justamente não pôde se manifestar sobre as decisões nas obras públicas.


Com este tipo de pensamento na cúpula da administração do trânsito eu não espero que a situação melhore, mas apenas que novas decisões na base da canetada sejam enfiadas goela abaixo de quem sempre pagou o pato.


Mas teve boas notícias. Há mais de 10 anos venho publicamente condenando o uso indiscriminado de película solar nos vidros dos carros, mas sou uma voz afônica neste mar de insensatez. Uma das regras elementares da segurança é “ver e seja visto” e a película solar impede as duas ações. O motorista dentro do carro não vê e quem está do lado de fora não é visto. Pela primeira vez vejo um especialista defendendo a mesma teoria. Foi Reginaldo Assis de Paiva, engenheiro e presidente da comissão de bicicletas da ANTP – Associação Nacional de Transportes Público.


Foi preciso que ciclistas começassem a morrer para que alguém percebesse a película solar como denominador comum e defender a bandeira da proibição deste acessório. À despeito de todos os motociclistas que foram vítimas desta cegueira, não entendo como ninguém notou isso antes! É tão claro quanto um vidro 100% transparente: película solar reduz a acuidade visual durante a após o pôr do sol, mas as autoridades fazem vista grossa porque usam este artifício para rodar com seus carros sem serem vistos.


Outra decisão que me surpreendeu pelo atraso foi o projeto do Hospital das Clínicas de São Paulo em propor uma qualificação das estatísticas dos acidentes com motociclistas. Faz mais de 10 anos que escrevi pela primeira vez que não se pode reduzir os acidentes sem saber COMO eles acontecem e com QUEM? E que se faria urgente QUALIFICAR a estatística. Analisando estatísticas puramente numéricas não se chega a nenhuma conclusão minimamente científica. E a conseqüência são decisões equivocadas de todos os lados. Por exemplo: a sociedade condena os motoboys como se eles fossem o grande vilão do trânsito em São Paulo. Só que os acidentes com estes profissionais caíram de 11% em 2010 para 8% em 2011. Hoje o principal envolvido em acidente com motos são os motociclistas novatos que entram nas ruas sem nenhum preparo.


Este número revela o enorme despreparo dos novos habilitados. As moto-escolas são falhas e o exame é ridículo, com aulas em ambiente fechado onde o examinado não pode usar o freio dianteiro senão é reprovado e o acelerador tem o curso travado. Segundo Wilson Yasuda, da comissão de segurança viária da Abraciclo e responsável por décadas de treinamento na Honda, a cada ano as concessionárias Honda vendem um milhão de peças de reposição do sistema de freios. Deste total 800.000 são sapatas do freio traseiro, 100.000 são sapatas do freio dianteiro e 100.000 são de pastilhas de freio dianteiro. Ou seja: o brasileiro não sabe frear!


O estudo do perfil do acidentado está mais de 10 anos atrasado, mas finalmente terá condições de fazer a real radiografia destas vítimas para finalmente tentar encontrar a melhor forma de protegê-las, seja pela educação, pela qualificação ou pela simples e pura proibição de o indivíduo conduzir uma moto por total falta de capacidade. Todas as possibilidades estão abertas.


Mas também enfrentamos outro problema na habilitação: o custo! Hoje o motociclista paga em média R$ 1.500 para tirar a habilitação sem aprender absolutamente nada. Em alguns casos este valor corresponde a 20% do valor da moto, o que é absolutamente inaceitável. Como conseqüência, 50% dos motociclistas que rodam no Norte/Nordeste não são habilitados.


A cientista jurídica Simiramis G. de Queiroz Lima, de Pernambuco, implantou e defende a “habilitação social” para quem não tem condições de arcar com os custos. Essa isenção visa contemplar a inclusão social de futuros moto-taxistas e moto-fretistas. Poderiam também estender o benefício aos custos de licenciamento e seguro das motos.


Dentre os painéis apresentados, o mais importante e emblemático foi o da mudança de comportamento para um trânsito mais seguro. Talvez pelo fato de os convidados serem basicamente especialistas da área de educação. Mais uma vez o que ouvi é algo que também defendo e escrevo há mais de uma década: não se altera o trânsito sem mudar as pessoas. Trânsito não é composto de carros, motos e caminhões, mas de PESSOAS. Pessoa sem educação será um motorista mal educado por toda a vida. O trânsito de uma cidade reflete exatamente a qualidade do material humano.


Para mim esta será a parte mais difícil de qualquer ação para melhorar o trânsito: mudar as pessoas! Parece que tudo que vimos nos noticiários indicam exatamente o contrário, ou seja, o ser social está piorando a cada geração. E sabe onde está a maior dificuldade em mudar as pessoas? A resposta é uma célebre frase atribuída a algum líder religioso que não me lembro: “se quiser mudar o mundo comece mudando a si mesmo”. Ninguém muda outra pessoa, essa mudança de comportamento só funciona de dentro para fora.


A luz no fim do túnel foi a campanha pela redução de atropelamentos em SP. Com um trabalho maciço nas mídias e nas ruas, a cidade conseguiu reduzir em média 10% os atropelamentos e a redução chegou a 40% na região central da cidade. Outro dado surpreendente é que desse total, os atropelamentos envolvendo motociclistas caíram 40%, enquanto com carros a redução foi de 10%.


O que destaco nesta campanha foi o uso de uma imagem didática, sem mostrar acidentes, nem vitimas atropeladas, que fez toda a população da cidade acordar para algo que estava esquecido há décadas: todo mundo é pedestre! É a tal mudança de comportamento que pregam os pedagogos e cientistas sociais.


Parece que o desafio de reduzir 50% o número de vítimas fatais de trânsito nos próximos oito anos dependerá basicamente da capacidade de cada um processar as próprias mudanças de comportamento.


E ajude-me a produzir mais matéria técnica: mande suas dúvidas e sugestões sobre motos e pilotagem no e-mail info@speedmaster.com.br!


Confira também os textos da série “A vida em perigo”:A segurança na pistaÀ beira do abismoA vida em perigoVelocidade vicia


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