Em 10 anos, carro dirigirá melhor que o homem

Aceleramos (quer dizer, o computador acelerou) o carro que anda sozinho

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Foi um test-drive bem diferente de todos os que fiz até hoje. Não pude avaliar a pegada ao volante, a textura dos materiais, a posição dos comandos, o aceso aos pedais de embreagem, acelerador e freios. Não foi preciso, o Carina fez tudo sozinho. Eu me limitei a sentar no banco e acompanhar o trajeto pré estabelecido no computador. De braços cruzados.

O dia em que o carro autônomo estará à disposição do consumidor está muito mais próximo do que você imagina. No máximo em dez anos, apostam os especialistas, o carro vai dirigir melhor do que o homem. Antes disso, porém, o carro que anda sem motorista, já está dando suas voltinhas pelas ruas das principais cidades do mundo. Em caráter experimental ele já roda por aí, ou melhor, por aqui: o Carina (Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma) é resultado de pesquisas feitas da USP de São Carlos, sob o comando do professor Denis Wolf, do Departamento de Sistemas de Computação, que monitorou o test-drive feito com exclusividade para a Agência Autoinforme.

Visualmente o Carina não tem nenhum atrativo: ele foi montado em um Palio Weekend, e ficou mais feio com os equipamentos instalados para ele “enxergar” a rua, os semáforos, a sinalização vertical, carros, motos, pedestres, enfim, para substituir os olhos do motorista e saber se comportar diante do inusitado. Mas a tecnologia que ele carrega é linda.

O carro percebe o ambiente com três tipos de sensores: 1 - Câmeras, que informam tudo em relação à sinalização, identifica o tipo de obstáculo, vê a sinalização, faróis, pessoas, ruas e calçadas. 2- Sensor a laser, que identifica com precisão cirúrgica todos os obstáculos, cria um modelo em 3D desses obstáculos, vê degraus, enxerga saliências no terreno e 3 – Um GPS super sofisticado que mapeia as faixas de trânsito com uma margem de erro de pouco mais de 10cm.

O professor Denis Wolf explicou que a maior dificuldade na construção do carro autônomo é o programa de computador, uma vez que a programação precisa ser extremamente exata. “O sistema tem centésimos de segundos para detectar o problema, entender do que se trata e tomar a decisão (de brecar, acelerar ou desviar da rota)”, explicou o pai do Carina.

“É um programa que imita o cérebro humano. Ele tem que saber quantos graus vai virar o volante, e isso depende da velocidade do carro; qual a pressão exata que deve ser exercida no pedal do freio ou do acelerador. E tudo precisa ser feito muito rapidamente.”

O Carina precisa ser aperfeiçoado em relação à segurança em alta velocidade. Ainda não está suficientemente resolvido, por exemplo, o problema da ultrapassagem numa rodovia, operação que exige soluções sofisticadas: é preciso detectar o carro que vem em sentido contrário, sua distância e velocidade, assim como o carro que pode vir atrás, também tentando uma ultrapassagem. Além disso, uma rodovia oferece situações inesperadas, como um carro que entra na via vindo de uma estrada vicinal, um animal cruzando a pista, um pedestre desavisado.

Depois de tecnicamente pronto, será a vez dos desenhistas do setor automobilístico fazerem as suas propostas: o carro que anda sozinho poderá ter um aspecto bem diferente do carro que o homem dirige. O princípio do carro atual, com painel, direção, pedais e controles à mão do motorista, cai por terra. O carro poderia ser em formato de uma sala de estar, quadrada ou circular, onde os ocupantes ficariam conversando; poderia ser um módulo de escritório, onde o ocupante trabalharia durante o percurso, ou quem sabe um carro-dormitório, onde o ocupante se acomodaria confortavelmente numa cama enquanto o seu carro o levaria de uma cidade para outra.

O professor Denis Wolf ri das propostas; acha que as mudanças virão, mas deverão acontecer vagarosamente, com cautela, pois o usuário terá que ter um tempo para se acostumar com uma tecnologia que faça tudo pra ele, sem a menor interferência.

Muitas empresas e universidades, em todo o mundo, estão, há pelo menos 20 anos, trabalhando no desenvolvimento do carro autônomo; Denis acredita que nenhum dos projetos tem um programa totalmente desenvolvido. Mas todos estão em busca dessa perfeição; depois de pronto, o carro autônomo terá que passar pelo teste da legislação, talvez o maior entrave para a aprovação do seu uso comercial: quem seria o responsável em caso de um acidente? O fabricante do carro ou a pessoa que está sendo conduzida? Quem vai pagar as multas de trânsito? É preciso definir responsabilidades civis e criminais em caso de um acidente.

É por isso que o setor agrícola é o mais avançado na operação do carro autônomo, onde o homem trabalha sob condições severas e não está sujeito à legislação de trânsito.

Com investimentos governamentais através da Fapesp e do CNPQ, o  Carina é um dos cinco projetos de carro autônomo que estão sendo desenvolvidos no Brasil, todos eles por universidades, mas é o único que já rodou fora dos limites das universidades.

Os carros da Universidade Fcaptional do Espírito Santo e da Fcaptional de Minas Gerais também estão bem desenvolvidos, tendo rodado em circuitos internos. Os outros dois, da Unicamp e da Escola de Engenharia da USP, ainda estão em fase de desenvolvimento.

O carro autônomo está bem avançado; as grandes montadoras desenvolvem projetos, além de universidades e outras empresas, como o Google, que tem o projeto mais moderno do mundo, mais sofisticado, feito em parceria com duas universidades estadunidenses.

Por que o Google foi inventar de fazer carro? Porque a empresa é especialista no mapeamento do mundo, e para a existência do carro que anda sozinho, será preciso desenvolver uma infra-estrutura de comunicação para interagir com os outros veículos (autônomos ou controlados por motoristas) e com os sinais de trânsito. Tudo deverá estar numa linguagem que o carro possa interpretar.

Os estudos estão tão avançados que já se considera a possibilidade de um hacker interferir no computador e assumir o controle do carro, o que teria consequências imprevisíveis Por isso já se discute a instalação de uma caixa preta, como a dos aviões, onde tudo seria gravado e a Justiça teria o registro de todas as operações, o que poderia determinar exatamente o que causou o acidente.

No Reino Unido, a Nissan testa um veículo sem motorista, o RobotCar. Inicialmente o carro foi avalizado rodando dentro do campus da Universidade de Oxford. E neste ano o governo britânico deu permissão para o grupo de estudos de Mobilidade e Robótica da Universidade testar o carro nas vias públicas.

No entendimento do governo britânico, por mais sofisticado que seja o equipamento, ele não deve servir para a produção de carro sem motorista; a tecnologia deveria ser usada ajudar o motorista a não cometer erros, mas não para eliminar totalmente a ação do homem. Quer dizer: a direção autônoma não deve servir para substituir o motorista, mas pra contribuir com a sua segurança.

Até porque, o motorista terá sempre a responsabilidade de assumir o controle do carro e de ter a responsabilidade sobre ele. No Carina, um enorme botão vermelho instalado no painel deve ser acionado em caso de perigo, quando o ocupante do carro perceber que um acidente é iminente. O acionamento do botão faz o motorista retomar o controle do carro.

A Mercedes-Benz tem um projeto de carro autônomo bastante avançado: o Mercedes S 500 Direção Inteligente andou 100 quilômetros nas ruas de Frankfurt, no ano passado. A empresa desenvolveu também o caminhão do futuro, um Actros com tecnologia de ponta, que poderá até rodar sozinho, unindo as tecnologias de telemática com as de assistência do motorista. Ao atingir 80 km/h, o motorista tem a opção de selecionar o modo “Rodovia Piloto”, que faz com que o caminhão fique 100% autônomo, permitindo ao usuário fazer outras coisas dentro da cabine, durante a viagem, mas sempre permanecendo no banco do motorista.

Outras montadoras também estão avançadas nesse aspecto. No Brasil já rodam muitos carros, de várias marcas (Audi, Mitsubishi, Volkswagen, Land Rover) com o ACC, o sistema que faz a leitura do carro da frente e mantém uma distância segura, acelerando e brecando sozinho dependendo da necessidade, o passo inicial do carro autônomo.

A tecnologia está proporcionando a realização de um daqueles sonhos que pareciam impossíveis. O carro que anda sozinho está se tornando realidade, substituindo as ações do motorista, reduzindo os acidentes e garantindo a segurança de todos.

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