Mercado reage... será?

Altos e baixos do mercado de motos
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Geraldo Simões
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Os últimos dados do mercado brasileiro de motos mostrou uma leve recuperação após um longo e preocupante período de ladeira abaixo. Foi um crescimento discreto, de 3,7% nos três primeiros meses do ano, em relação ao igual período de 2013. Em números absolutos foram 365.306 unidades vendidas no varejo, dados esses auferidos apenas das marcas afiliadas à Abraciclo - associação que reúne fabricantes de motos e bicicletas. Das 23 marcas que atuam regularmente no mercado brasileiro, só 10 são medidas nesta estatística, mas as outras 13 representam nem 3% do mercado.

 

Quem vê só esse dado pode achar que o mercado está em franca expansão, mas não é bem assim, porque continua preocupante, em vista do que já foi no período de 2011. Se comparado com o mês de fevereiro, março de 2014 apresentou uma queda de 6,1% e uma das explicações foi o feriado de carnaval que este ano caiu em março.

 

Não queria ficar aqui despejando esses números porque isso é uma chatice sem dó, mas percebe-se que algo de errado não está certo. Em 2011 o mercado brasileiro apontou para cifra de 2 milhões de unidades/ano e já se preparava para ser o terceiro maior do mundo (hoje é o quinto). Mas alguma coisa aconteceu aí no meio do caminho para que voltasse à cota de 1,6 milhão.

 

Um dos fatores foi o recrudescimento das financeiras em liberar o dinheiro. Ainda persiste o cenário de apenas 20% de aprovação de fichas cadastrais de crédito. Restam as modalidades consórcio e pagamento à vista. Como a fatia do mercado mais afetada é justamente das pequenas, que representam mais de 80% das vendas, a modalidade à vista não representa grande coisa.

 

Algumas concessionárias conseguem garantir sua própria operação de crédito, criando promoções como taxa zero que, na verdade, é uma forma disfarçada de desconto, porque não existe taxa zero na prática. Outras oferecem licenciamento ou IPVA grátis, tanque cheio (pra moto é ridículo) ou capacete de brinde (do mais vagabundo). Enfim, o varejo inventa várias formas de atrair o freguês.

 

Mas existe aí neste sistema alguém que pouco ou nada faz para incrementar as vendas de motos, porque na verdade queria mesmo é que as motos desaparecessem de uma vez por todas: o Estado. A União. O País. Ou se preferir um substantivo abstrato, mas capaz de gerar problemas bem concretos, o Governo.

 

Falta de coragem

A mola propulsora do medo é o desconhecido. A gente tem medo daquilo que não conhece e não quer conhecer, porque pode perder o medo. Hoje percebe-se que a moto representa uma relação de amor e ódio de todos os lados. Ainda tem gente inocente que acha que representa a liberdade, símbolo da contemplação hippie, viver sem destino etc. Bobagem pura. Tirando meia-dúzia que ainda não voltou de Woodstock, a moto é o meio de transporte mais econômico e acessível sobretudo para as faixas C e D do nosso sistema de casta social.

 

Enquanto os analistas paulistanos enxergam a moto como a solução motorizada para se mover na cidade, no Brasil que não fala "ôrra meu" a moto é o meio de transporte motorizado mais acessível. Longe de ser sonho de consumo, é uma necessidade mesmo e no Nordeste já se sabe há milênios que é a necessidade que faz o sapo pular.

 

Geograficamente analisando, o mercado de motos que mais cai fica do Sudeste pra baixo. Onde a moto ainda é vista como coisa de apaixonado. Agora começa também a ser vista como uma forma de melhorar a qualidade de vida naquilo que o homem moderno tem de mais escasso e valioso: o tempo!

 

Para conseguir qualidade de vida no trabalho as empresas investem em ambiente climatizado, redução de ruído, limpeza e segurança. Mas e antes e depois da jornada de trabalho? Ninguém trabalha feliz sabendo que vai ficar 90 minutos em pé, espremido em um meio de transporte sacolejante. E atualmente ainda existe uma epidemia nacional de incineradores de ônibus. Cara taca fogo no ônibus até se a namorada lhe deu um fora!

 

Esse deslocamento no ir e vir do trabalho faz parte da qualidade de vida. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro já estão entre as piores do mundo nesse quesito. O tempo perdido nesse percurso não reverte em nada de bom para empresa nem para o empregado. Se pudesse reduzir esse período em um terço sobraria quase duas horas por dia para investir em qualidade de vida com iniciativas como estudo, aperfeiçoamento profissional, lazer, esporte ou simplesmente permanecer mais tempo com a família.

 

Esse é um dos papéis que a moto pode assumir, mas a entidade "Governo" não consegue enxergar. As fábricas investem em produtos mais seguros e acessíveis. Os equipamentos de segurança também estão melhores e mais baratos. Agora só falta o primordial: ensinar a pilotar.

 

Boa parte da carnificina que se transformou o trânsito no Brasil é só em função da falta de preparo ao conduzir, seja moto, bicicleta, carro, ônibus ou caminhão. Qualquer abestalhado se habilita nessas categorias, independentemente de ser capaz técnica ou mentalmente. É nesse ponto que o Estado falha, mas gosta de cobrar a conta, aumentando o valor do seguro obrigatório, por exemplo.

 

Do status de solução para mobilidade urbana, a moto está com a pecha de vilã (logo ao lado das bicicletas). É isso que afeta diretamente todo o business  que envolve a produção e venda do veículo. Do mercado de moto-peças ao de prestação de serviço existe uma cadeia de comércio que depende da moto. Se o atual Governo já está com uma enorme dificuldade para esconder uma crise silenciosa que estamos vivendo, o setor de moto pode ser o que faltava para fazer um barulho ensurdecedor.  

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