Motociclistas continuam achando que são super-homens

Até hoje ainda morre-se pelo mesmo motivo: a ingenuidade de acreditar em super-heróis
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Geraldo Simões
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Nos anos 70, quando a TV colorida começou a ganhar os lares, surgiu um tipo de acidente ao mesmo tempo trágico e macabro: crianças se vestiam com a capa do Super-Homem e, acreditando ter super-poderes, se atiravam da janela do apartamento para morrerem na calçada.

 

Era a ingenuidade infantil, típica da idade, que confundia a ficção com realidade e que deixou alguns pais desesperados de dor. Naquela época a TV foi demonizada - e é até hoje - por pessoas que não conseguem enxergar além do que se passa na tele de cristal líquido.

 

Por mais impressionante e dolorido que este tipo de acidente era, até hoje ainda morre-se pelo mesmo motivo: a ingenuidade de acreditar em super-heróis.

 

A semana começou com a notícia de um motociclista que se julgou mais capacitado do que realmente era e morreu após colidir violentamente de frente com um automóvel. O impacto foi tão forte que arremessou o piloto a mais de 15 metros de distância, já praticamente morto.

 

Como a vítima tinha perfil nas redes sociais fui olhar e descobri que era mais uma criança que acreditava em super-heróis. Um jovem advogado bem sucedido, casado, com uma filha pequena e linda, uma família destroçada por causa de um segundo de insensata ingenuidade.

 

A moto era uma esportiva de 1.000cc com quase 200 cavalos, capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 3,5 segundos e chegar a quase 300 km/h. Ou seja, praticamente uma moto de corrida com desempenho muito superior ao da maioria dos automóveis. Mas teria esse motociclista algum super-poder secreto que lhe desse capacidade para dominar tanta potência com segurança e inteligência? Obviamente que não.

 

Volto a discursar exaustivamente sobre a importância em dedicar mais atenção ao comércio de motos super esportivas e a devida capacitação técnica para pilotá-las. Um dos argumentos mais idiotas que leio num momento desse é: "quem compra uma moto esportiva quer acelerar!". Sim, quer, mas é capaz?

 

Já faz anos que defendo a volta da habilitação de motos por categoria, de acordo com a potência. Não existe a menor chance de um motociclista inexperiente sair acelerando uma moto de 180 ou 200 cavalos pelas estradas sem correr riscos. Até os experientes estão expostos a riscos.

 

Mesmo assim veja cada vez mais motociclistas que adquirem motos esportivas e desprezam qualquer recomendação de fazer um curso especializado, com a infantil justificativa de que "já piloto moto faz tempo". Como se vê, nem sempre o tempo é um bom formador de pilotagem.

 

Pelas imagens gravadas e publicadas nas redes sociais, o motociclista não conseguiu fazer a curva, invadiu a pista contrária e bateu de frente com o carro sem a menor chance de sobrevivência. Em uma situação dessa existem várias formas de recuperar o controle da moto, mas isso precisa ser ensinado, entendido, treinado exaustivamente e aplicado no momento certo. Diante da perda de controle a reação mais comum de um motociclista e frear violentamente com o freio dianteiro, o que o leva diretamente para fora da curva.

 

E é bom ressaltar que pelas imagens nem precisa ser perito para imaginar que a velocidade da moto no momento do impacto era pelo menos o dobro da permitida no local. Nestas condições não há equipamento de segurança que proteja, porque o que pouca gente sabe é que os equipamentos funcionam muito bem para evitar lesões por abrasão e até pequenas fraturas, especialmente em caso de queda. Mas diante da energia desprendida no choque de dois veículos em sentido contrário e na velocidade que estavam as lesões são muito mais decorrentes dos choques internos do que externos e para isso não há equipamento que amenize.

 

Em uma colisão ocorrem três grandes ondas de choque: 1) o choque do veículo contra um objeto; 2) o choque do corpo dos ocupantes contra a parte interna do veículo (no caso de veículos fechados) e 3) o choque dos órgãos internos entre eles, que faz literalmente explodir baço, rins, fígado etc...

 

No caso de acidentes de motos, com colisão, a segunda onda de choque é do motociclista contra o outro veículo, o solo, guard-rail, poste, árvore etc. Dessas ondas de choque a terceira é a que leva mais rapidamente ao óbito, porque não tem como colocar uma tala nos rins ou estancar um sangramento interno.

 

Por isso a necessidade de pressionar o Estado para investir imediatamente na formação adequada de motociclistas, de acordo com a potência. Não é mais aceitável que um cidadão inexperiente faça seu aprendizado em uma moto de 12 cavalos, num ambiente fechado, a 30 km/h e no dia seguinte à retirada da habilitação possa pilotar na estrada uma moto de 180 cavalos. A menos que o motociclista seja um super-homem. E isso a gente já sabe que não é desde os cinco anos de idade!

 

 

 

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