O perigo que vem do céu

Veja o quão ameaçadoras podem ser as linhas de pipas contra os motociclistas
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Geraldo Simões
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Todos os fins de semana um jovem se posiciona na beira de uma estrada movimentada, com um rifle de caça, munido com apenas uma bala. Ele espera um motociclista se aproximar e atira, mesmo sem fazer pontaria. Pode ser que acerte ou não, é uma probabilidade. Mas além deste, outros 99 jovens e adultos fazem a mesma coisa em várias estradas pelo Brasil, sem que as autoridades policiais façam qualquer coisa para impedir. A única ação preventiva do Estado para evitar a morte destes motociclistas foi criar duas leis: uma que proíbe os cidadãos brasileiros de portar rifles e outra que obriga os motociclistas a saírem de casa com um colete à prova de balas.

 

Você achou que eu fiquei maluco? Que essa história é uma grande mentira? Mais ou menos. Não fiquei maluco, mas essa analogia é exatamente o que acontece diariamente com as linhas de pipa preparadas com cerol. Se você vem de outro planeta e não sabe o que é cerol, trata-se de uma mistura de pó de vidro (ou limalha de aço) colada na linha de algodão e usada em disputas particulares para ver quem é o melhor caçador de pipas.

 

Essa atividade de laçar pipas (ou papagaio, ou pandorga) é tão antiga quanto a civilização. Na China já se empinava pipa 1.200 anos antes de Cristo. Dificilmente alguma criança não saiba o que é ou nunca tenha brincado. É um dos mais antigos, divertidos e democráticos brinquedos do mundo, porque custa pouco e pode ser feito em casa. O escritor Khaled Hosseini registrou muito bem a paixão por essa brincadeira no livro (e filme) O Caçador de Pipas, que se passa no Afeganistão.

 

Portanto a brincadeira é tão natural quanto jogar bola, só que pode matar. E está matando quase diariamente. Não existe uma estatística, mas a cada semana sabe-se de alguma vítima de linhas de pipa com cerol. Não só motociclistas, mas também ciclistas, pedestres e até os próprios praticantes. E o mais impressionante é ver que o policiamento não age para combater essa chacina, deixando para as vítimas (especialmente os motociclistas) o ônus de se proteger por meio de equipamentos como a antena corta-linha (que se tornou obrigatória por lei aos motofretistas) ou colares protetores de pescoço.

 

Em outras palavras, mais uma vez no Brasil não é o Estado que faz o papel de proteger o cidadão, mas a vítima que tem de se defender como pode. A velha história do rabo que balança o cachorro...

 

Nas rodovias próximas de São Paulo podem-se ver centenas de pipas no céu. Algumas vezes a poucos metros de distância de um posto da polícia rodoviária. Uma vez fiquei tão indignado que parei no posto de fiscalização e avisei os policiais que tinha gente soltando pipa na rodovia dos Imigrantes. O policial me olhou como se eu fosse algum tipo de aberração, disse que "não podia fazer nada" e que esse era o papel da GCM - Guarda Civil Metropolitana.

 

Uma banana que é!

 

Na verdade todos nós sabemos que a polícia no Brasil pratica o socialismo conveniente. Pobre pode usar um carro caindo aos pedaços para recolher lixo, a título de "reciclador", porque ele "está trabalhando", mas se o rico for pego com um carro zero km, 100% seguro, mas com o documento atrasado terá o veículo apreendido. Pobre pode soltar pipa com cerol porque é "brincadeira popular de criança" e o único lazer acessível. Só que não, porque, segundo a Eletropaulo, que também tem uma relação problemática com pipas, mais de 60% dos usuários de pipas são adultos entre 18 e 25 anos. E que 40% das ocorrências que resultam em queda da energia são causadas por linha de pipa na rede elétrica.

 

Não há uma estatística precisa, mas calcula-se que aconteçam 100 acidentes por ano envolvendo motociclistas e linhas de pipa com cerol, destes 25 com óbito. Pela nossa legislação, o único que pode ser punido e multado é o comerciante que vende o cerol (vidro ou ferro), mas não existe punição para quem solta a pipa, apenas a apreensão do material. Naquele exemplo do primeiro parágrafo, essa situação é tão ridícula quanto punir o vendedor da arma em caso de homicídio. É evidente que isso precisa mudar!

 

Já peguei linha de pipa cinco vezes, nenhuma chegou a me atingir, mas enroscou em alguma parte da moto.  Uma das vezes foi no autódromo de Interlagos, enquanto treinava de motovelocidade. A linha cortou a carenagem da moto como se fosse uma serra elétrica. Em outra ocasião, em frente ao parque do Ibirapuera, consegui ver a pipa descendo de forma estranha e freei a moto no meio da avenida, com a linha a poucos metros do meu nariz. Por sorte o taxista que estava atrás percebeu o movimento e segurou o trânsito. Na última ocasião quase resultou em acidente múltiplo: consegui ver a linha da pipa, desviei a moto e surpreendentemente surgiu um adolescente entre os carros correndo para pegar a pipa. Ele quase foi atropelado por vários carros. Isso aconteceu a menos de um quilômetro do posto da Polícia Rodoviária, aquela mesma que me explicou que não pode fazer nada... sei! 

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