Participação de mercado: "novo normal" dos carros?

A coluna Chão de Fábrica mostra quem pode se dar bem quando o setor voltar a crescer, de fato, no segundo semestre

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Fernando Miragaya
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O balanço do mercado de modelos 0 km no primeiro semestre trouxe algumas surpresas. Obviamente, não quanto ao número de vendas, pois nem o mais otimista dos seres poderia imaginar algo diferente de uma queda após mais de três meses de quarentena e incertezas causadas pela Covid-19. Mas as mudanças entre os mais emplacados em determinados segmentos e, principalmente, no ranking das marcas líderes merece atenção. Teremos um "novo normal" também entre os carros e fabricantes que mais vendem?

Primeiro, é preciso cautela. Assim como os campeonatos estaduais de futebol não podem servir de referência para o Brasileiro ou a Libertadores, as vendas em tempos de pandemia do novo coronavírus não são parâmetros para consolidar novos sucessos de vendas ou montadoras nesta ou naquela posição no market share.

Os fatores são diversos: muitas concessionárias abriram em regimes de horários diferentes, há desequilíbrio no abastecimento, algumas marcas têm estoque maior, outras se valem de canais digitais de vendas mais eficazes, sem falar nas questões de logística com a interrupção da produção. Enfim, um sem número de situações que não pinta um retrato fiel do mercado. Porém, pode adiantar algumas cores do futuro próximo e traça um esboço do que podemos esperar do restante de 2020.

Essa tela não será uma obra abstrata de Kandinsky, mas também está longe de ser um desenho previsível do meu filho de sete anos. Marcas que souberam trabalhar seus canais digitais neste momento de crise provavelmente terão sucesso logo ali na frente. Mas o que vai ditar o novo normal para o mercado automotivo estará no que fala ao bolso do consumidor.

O mercado vai crescer, é fato - já deu sinais disso em junho, com aumento de 116% nos emplacamentos de automóveis e comerciais leves na comparação com maio, segundo dados da Fenabrave. Contudo, quem tiver variedade de carros de entrada, econômicos e com custo de pós-venda moderado terá mais chances de passar por esse cenário ainda incerto do pós-pandemia - ou pós-quarentena, uma vez que dizem que o coronavírus estará entre nós por alguns anos.

Isso fica ainda mais evidente em recente pesquisa da Webmotors, que apontou que 68% dos usuários do portal vão aderir ao transporte particular nos próximos meses. Ou seja: quem usava transporte público, vai comprar um automóvel. Quem alternava, vai trocar o seu seminovo ou usado.

Na base do mercado

Em um quadro de incerteza econômica, esse movimento vai apontar justamente para a base do mercado, os modelos que chamamos de entrada, especialmente hatches e sedãs compactos. Isso é quase unanimidade entre os executivos das marcas com quem conversamos ao longo da crise: os carros mais baratos serão os mais procurados.

Quem vai se dar bem? Não dá para cravar, claro, mas quem tiver variedade de produto compacto na prateleira da concessionária, varejo agressivo e boa reputação provavelmente celebrará bons números.

Vamos dar nomes aos bois? Chevrolet, com seu imbatível custo/benefício de Onix, Onix Plus e Tracker, sem falar nas suas quase 600 revendas e a base da pirâmide com a veterana linha Joy, dificilmente deixará de acompanhar o recrudescimento de vendas - e o Onix dificilmente perderá o posto de carro mais vendido do país.

Volkswagen e Fiat são outras candidatas a se manterem no topo. Basta ver a quantidade de modelos compactos: Up!, Mobi, Gol, Uno, Voyage, Grand Siena, Polo, Argo, Crono, Virtus… A alemã, inclusive, assumiu o posto de líder de mercado entre automóveis e comerciais leves, segundo a Fenabrave, em junho, com 17,82% de participação. Vendeu T-Cross como nunca e ainda lançou o Nivus para ampliar o leque de SUVs compactos.

Renault, Toyota e Hyundai são outros exemplos de marcas que tentam cobrir esse mercado de entrada - e que terão produto de sobra para esse futuro. Sentiu falta da Ford? Pois é,  no balanço de junho, um sinal claro desse “novo normal” foi a repercussão para o fato de a empresa ter ficado na sexta posição das que mais vendem, com 6,33%, pela Fenabrave.

A montadora já pode ser desconsiderada uma das “quatro grandes”? A atual linha enxuta da marca por aqui pode selar esse destino cruel para o tradicional fabricante americano no Brasil? Só que isso é assunto para a nossa próxima coluna Chão de Fábrica. Até lá!

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