Recall: excesso de cuidado ou descuido com a qualidade?

A última fábrica a recolher seus carros foi a Nissan, que anunciou uma convocação de 539.864 modelos nos EUA
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Você reparou que de uns tempos pra cá, só se fala em recall na indústria automobilística? O que está acontecendo: é uma preocupação excessiva das montadoras com seus clientes ou um descuido com a qualidade na produção?

A última fábrica a recolher seus carros foi a Nissan, que anunciou hoje 3 o recall de 539.864 modelos nos Estados Unidos Titan, Armada, Quest e Infinit com defeito nos freios e no medidor de combustível. Ontem a GM chamou 1,3 milhões de donos de Cobalt e Pontiac nos EUA, Canadá e México para solucionar um problema na direção.

A Toyota chamou 8,5 milhões de carros para fazer a troca no pedal do acelerador. A Honda mais 438 mil Accord, Civic, Acura, Odyssei e CRV para fazer a troca do sistema de acionamento do airbag. Na PSA-Peugeot Citroën, 97 mil unidades do Citroën C1 e do Peugeot 107 foram chamadas para fazer o reparo no sistema de freio. E na semana passada Suzuki, Nissan e Daihatsu iniciaram o conserto do cabo elétrico do airbag de 570 mil carros.
No Brasil, só nas últimas semanas teve recall da Volkswagen Voyage e Gol, da Volvo C30 e da Honda Fit.

Por que tem acontecido tantos problemas? Defeitos sempre foram comuns, os carros sempre tiveram problemas de fabricação, em relação à segurança ou a qualquer outro item.

Mas hoje o consumidor está mais exigente e seus direitos são mais respeitados. Os órgãos de defesa do consumidor são mais atuantes, levam os casos mais escandalosos à mídia e à Justiça e acabam expondo o fabricante do produto à execração pública.

Além disso, as consequências de um acidente provocado por uma falha numa peça defeituosa podem manchar a imagem da montadora.
É por isso que as fábricas passaram a ficar mais atentas em relação aos defeitos dos carros.

Traço um paralelo em relação ao aumento das denúncias de corrupção e roubos de dinheiro público: na época da Ditadura não se ouvia falar nisso; hoje parece que há mais corrupção, mas na verdade é a transparência das informações que é maior.

Isso não quer dizer que não há resistência das fábricas em admitirem os defeitos dos produtos. Ao contrário: o governo está avaliando atualmente dois casos de montadoras que têm defeitos nos seus carros e que nos próximos dias podem ser definidos como recall. Elas estão fazendo de tudo para que não precisem fazer a chamada aos consumidores.

Há os casos, também, do recall branco, em que a fábrica troca a peça defeituosa apenas dos carros que vão às concessionárias fazer a revisão. O dono do carro nem fica sabendo que a peça foi trocada. No caso de recall branco, o carro que não fizer a revisão na revenda autorizada vai ficar com a peça defeituosa, com o risco de tê-la quebrada e não ser indenizado. Isso sem contar que o problema se perpetua no mercado de usados, já que o comprador daquele carro nunca saberá do problema.

A imagem da marca é prejudicada com a chamada do recall, veja o caso da Toyota, cujo presidente, Akio Toyoda, foi ao congresso dos Estados Unidos pedir perdão aos consumidores pelos erros cometidos na fabricação dos carros.

Mas o prejuízo seria maior se acidentes e mortes ocorressem por conta de um defeito não anunciado pela fábrica.

Além da necessidade de oferecer mais transparência ao consumidor, os defeitos se ampliaram por causa do aumento de produção nos últimos três anos, por conta da forte demanda. De 2006 para cá as vendas cresceram 63%, exigindo reestruturação nas linhas de montagem, agilidade na produção e consequentemente o aumento dos defeitos nos carros.

Em condições normais, uma montadora leva no mínimo dois anos para lançar um carro; um motor roda 500 mil quilômetros para ser aprovado. Com a forte concorrência e a necessidade de colocar o produto o mais rapidamente possível no mercado, algumas montadoras podem estar fazendo vistas grossas aos detalhes.

Ao consumidor não resta outra alternativa se não levar o carro para o conserto o mais rapidamente possível logo que a montadora anunciar o recall.
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Joel Leite joelleite@autoinforme.com.br é diretor da Agência AutoInforme, especializada no setor automobilístico, que fornece informações para vários veículos de comunicação. Produz e apresenta o Boletim AutoInforme, das rádios Bandeirantes, Band News e Sul América Trânsito. É formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em Semiótica e Meio Ambiente.

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