Seja você a mudança

Falsas atitudes preventivas só aumentam a desarmonia no trânsito
  1. Home
  2. Pit-Stop
  3. Seja você a mudança
Geraldo Simões
Compartilhar
    • whats icon
    • bookmark icon

IMAGE

Recentemente fiquei impressionado com alguns motociclistas que adotam postura agressiva como forma de se "defender" no trânsito. A novidade agora é rodar durante o dia com o farol alto aceso, de forma a se tornar mais visível pelos motoristas. Junto com a irritante e totalmente desnecessária sinfonia de buzinas por todo o percurso.

 

Estas atitudes só comprovam a minha teoria da degradação do ser humano como ser social e reforça a tese de que as pessoas estão cada vez mais preocupadas consigo mesmas, em uma crise de sociopatia endêmica e incurável.

 

Curioso que a alegação para o uso do farol alto durante o dia esbarra em suposições igualmente egocêntricas. Em primeiro lugar essa atitude é defendida como forma de "evitar as fechadas" pelos motoristas. E tentam me convencer que isso funciona como se eu também não rodasse de moto pela cidade todo santo dia, de norte a sul e vice-versa.

 

Estranhamente eu não uso o farol alto aceso durante o dia (nem à noite) e nem disparo a buzina pelos corredores e nem por isso levo fechadas. Ou a minha moto tem alguma espécie de escudo protetor mágico que impede de ser fechada ou eu adoto uma postura preventiva que me faz ser mais visível pelos motoristas e pedestres.

 

Antes de mais nada é preciso tirar da cabeça dos motociclistas (e ciclistas) de uma vez por todas que eles não tem direito a nenhum privilégio sobre os outros veículos. O espaço urbano é social, democrático e público. O motociclista precisa aprender a dividir o espaço com os carros, ônibus, caminhões, ciclistas e pedestres.

 

Se existe alguma categoria que precisa e merece algum privilégio é o pedestre pela mais elementar das observações da natureza: nós nascemos e morremos pedestres. Ninguém nasce com rodas nem motor. Portanto o estranho no ninho são os veículos sobre rodas e não os seres sobre pernas. Mas aos olhos dos motociclistas nem isso é respeitado, porque para eles há muito tempo calçada virou rua e semáforo é apenas uma luz pendurada num poste.

 

O conceito que vai mandar na vida em sociedade nas próximas décadas é a do compartilhamento de espaços. Quem não se enquadrar nessa filosofia vai mergulhar no abismo social onde já vivem os viciados em tablets e jogos eletrônicos.

 

O que mais surpreende é o fenômeno da prepotência enraizada e espalhada em quem ainda acha que os interesses particulares devem sobrepor os coletivos. Incomodar os outros com um facho de luz ou uma buzina irritante é a forma que os motociclistas encontraram para se tornarem visíveis. E são mesmo, mas são vistos como chatos insuportáveis, que rodam pelas ruas como se fossem donos de cada metro quadrado de asfalto. Ficaram visíveis e mau vistos ao mesmo tempo.

 

Prejudicar a maioria em defesa de si mesmo é uma forma bem antipática de expressar seu egocentrismo. "Para resolver o MEU problema vou criar um problema para os outros". Pode incluir nesta lista os motociclistas que defendem a inacreditável teoria de que os escapamentos barulhentos são mais seguros, algo que só pode ser defendido por quem perdeu qualquer vestígio de civilidade. O barulho incomoda todo mundo, inclusive quem está em casa, no trabalho, no hospital ou na escola e que nunca atrapalhou este desgraçado com sua moto barulhenta! Percebe a inversão de valores?

 

Se você não quer levar fechada no trânsito é muito simples:

 

- Obedeça uma velocidade compatível com a do fluxo. Se o trânsito está congestionado não precisa passar pelo corredor a 90 km/h, buzinando como um idiota porque não é isso que vai fazer a moto frear em 10 metros! Os freios não fazem milagre, portanto reduza a velocidade.

 

- Coloque-se de forma a ser visto. Até a mais ingênua das freiras carmelitas sabe que os carros tem pontos cegos e que os espelhos retrovisores não tem 100% de alcance. Trate de ficar de olho nos motoristas e observe para onde eles estão olhando. Se estiver com um celular na orelha, não adianta buzinar, saia de perto.

 

- Saiba antecipar as reações. É fácil imaginar que perto de ponto de ônibus tem gente apressada e desesperada para não perder o coletivo. Fique mais ligado porque pedestres surgem no meio dos carros sem avisar.

 

- Farol alto na cidade, mesmo durante o dia é ilegal e passível de multa, além de desnecessário. O farol baixo já é suficientemente visível por qualquer motorista.

 

- Não seja o chato do trânsito. Os motociclistas já vivem na berlinda e conquistaram a antipatia de toda uma categoria política. Causar mais estresse só vai incentivar a criação de mais leis anti-moto. Basta agir com civilidade e cortesia que o trânsito vai te respeitar.

 

E aprenda de uma vez por todas: nenhuma sociedade muda, quem precisa mudar é o cidadão. Um de cada vez. E para melhor... 

Comentários

Ofertas Relacionadas

logo Webmotors