Neste Final de Ano, não pergunte por quem os sinos dobram

Natal de 2007 matou quase tantas pessoas quanto os piores desastres aéreos da história do Brasil
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Gustavo Ruffo
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- O vôo 1907, da Gol, matou todos os seu 154 passageiros e tripulantes. O 3054, da TAM, matou 199, entre passageiros e pessoas em terra. Esses dois tristes episódios são tragédias cuja lembrança dificilmente será apagada. O Natal de 2007 matou, só em rodovias fcaptionais, 196 pessoas. Nas estradas estaduais de Minas Gerais, houve mais 13 mortos. Nas do Distrito Fcaptional, mais 6. Não é preciso uma contabilização completa para ver que, apenas em uma data, houve mais mortos que em cada uma das duas maiores tragédias da aviação brasileira. A pergunta é: por que essa informação comove menos?

Há várias possibilidades. A primeira é o fato de acidentes de trânsito serem cotidianos, corriqueiros, comuns... Só nas estradas fcaptionais houve 2.561 acidentes neste Natal, com 1.870 feridos, muitos dos quais ainda podem falecer em razão dos ferimentos. Se entrarem na conta todos os acidentes, o número fica ainda pior. Acidentes de carro podem ser comuns, mas não deveriam.

A segunda é que mortes em massa comovem mais que as cotidianas. Em suma, se as pessoas morrem pelo mesmo motivo, mas em lugares e situações diferentes, o resultado choca menos do que se todas perdessem a vida de uma vez. O atacado sempre impressiona mais do que o varejo, ainda que o varejo eventualmente movimente um valor mais expressivo. Manda a lógica que o que é mais representativo deva receber uma atenção mais cuidadosa.

A terceira é que o imponderável, o inesperado, choca por jogar em nossa cara que, afinal de contas, a vida é um bem de empréstimo. Acidentes de carro, além de cotidianos, são provocados em sua maioria por imprudência, como a Polícia Rodoviária Fcaptional demonstra: 80,75% deles aconteceram em pista boa; 71,4%, nas retas; 53,6% em plena luz do dia e com tempo bom 63%. É como se a decisão de morrer tivesse partido do motorista, não de um acidente. Por que se compadecer de alguém que fez o que quis? A questão é que quase todos somos motoristas. Logo, todos deveríamos zelar pela vida, nossa ou alheia.

A quarta, mas infelizmente não a última, deve ser nossa tendência de pôr a culpa no outro. Durante o Natal, foram fiscalizados 94.804 veículos nas estradas fcaptionais. Destes, 18.536 foram multados, o que dá a cifra impressionante de um infrator entre cada cinco motoristas. Destes, 1.141 veículos foram apreendidos por não apresentar condições de rodar. Destes, 147 foram presos por dirigir alcoolizados. Destes, um deles poderia ser você, mas você certamente se ofenderia por ser incluído no grupo dos que contribuem para as mortes no trânsito. Entretanto, vale a reflexão: como você ajuda a melhorar o trânsito, a torná-lo mais seguro? Como não fazer parte do grupo “destes” e diminuí-lo?

Comparações do trânsito brasileiro com guerras já foram feitas, aparentemente sem causar a necessária comoção em quem deveria. Esta comparação, de acidentes de carro com aéreos, também não deve afetar as multidões que tornam o ato de viajar uma atividade de risco. É pena, tanto no primeiro caso quanto no segundo.

Pena porque o que está em jogo não são só os prejuízos materiais calculados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em R$ 111,1 milhões, só com os acidentes registrados no Natal, mas vidas. As 196 e tantas mais que se perderam bestamente nas estradas brasileiras. As que ainda podem e infelizmente vão se perder enquanto todos acharem que o problema é do vizinho, do governo, do bispo. Pena porque elas podiam e deveriam ter sido preservadas.

Na próxima vez em que ler alguma notícia sobre tragédias de grandes dimensões, lembre-se de que, menos do que eventuais, as maiores e mais graves são cotidianas, são doenças crônicas. Se isso reduz a amplitude delas, diminui na mesma medida a nossa impotência diante do quadro e aumenta nossa responsabilidade.

Neste final de ano, faça sua parte por um trânsito mais seguro. E, no futuro, comova-se não apenas pela extensão de algum acidente, mas pelo que já disse o poeta inglês John Donne: “A morte de qualquer homem me diminui porque a humanidade me contém; por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

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