Na contramão da crise, que assola de gigantes da indústria a atuantes do mercado informal, um setor não apenas se mantém firme, como cresce: o de agronegócios. Em meio a uma enxurrada de queixas do cenário econômico atual e demissões na indústria automotiva, a Chevrolet encontrou uma equação que pode dar resultado.
Em uma mão, ele têm um líder de mercado no segmento de picapes médias há 20 anos, a S10. Na outra, a chancela “High Country”, uma espécie de grife dos comerciais leves da marca nos Estados Unidos.
No lançamento da linha 2016 da picape, a GM mirou seus holofotes nesta nova versão top de linha, mesmo mantendo as versões LS, LT e LTZ, e apresentando outras três configurações, Freeride, Advantage e Chassis Cab. O alvo são fazendeiros endinheirados (sim, ela custa caro). Por R$ 163.800 pode-se ter uma caminhonete de grife na garagem, cujas principais alterações concentram-se no visual.
A versão LTZ, que antes da High Country era a configuração mais cara da linha (R$ 154,550), vem equipada com o mesmo 2.8 Turbodiesel que entrega 200 cv de potência aos 3.600 giros e 51 kgfm de torque aos 2 mil rpm quando acoplado a um câmbio automático de seis velocidades. No entanto, ela não ostenta a nova pintura vermelho Chili, nem a lista de acessórios da novidade.
Vale destacar que a cor não é cansativa nem gritante como o nome sugere, pelo contrário, caiu muito bem à picape. Caso prefira algo mais sóbrio, há no catálogo cinza, prata e branco.
Olhando para as duas versões, lado a lado, chama atenção o santantônio com uma moldura que acompanha a linha do capô – pintado na cor do carro - e as rodas aro 18, uma polegada maior que o oferecido no restante da linha. No mais, há estribos laterais, faróis escurecidos com projetor, lanternas em LED, maçanetas cromadas, rack de teto com barras longitudinais e transversais, moldura cromada nas janelas e adesivos. Vale os R$ 9.250 a mais? Samuel Russell, diretor de marketing da Chevrolet, acha que sim. Segundo ele, este é um segmento onde clientes costumam adicionar acessórios ao carro antes mesmo de tirá-lo da concessionária.
Impressões
O acabamento é correto, com bancos forrados em dois tons e regulagem elétrica de altura, distância e inclinação do encosto para o assento do motorista, mas não chega a impressionar. O sistema multimídia MyLink, assim como as regulagens do ar-condicionado, tem moldura em black piano, contrastando com o restante do painel. Itens de conforto como GPS, DVD e câmera de ré também estão inclusos no pacote.
Começamos com o teste off-road. Em um dia de muita chuva, a pista estava um sabão. Acionamos pelo seletor no console a tração 4x4, que não foi suficiente para mantermos a caminhonete no prumo, só com o auxílio da reduzida. Para acioná-la, câmbio no neutro e veículo parado, para sair da reduzida, o mesmo processo.
Com o sistema atuando, a S10 passou por todos os “perrengues” do caminho. Devemos considerar que trata-se de uma picape de 2.139 kg com a caçamba vazia, ou seja, a traseira se perdia facilmente o tempo todo. Com relação a isso não há milagre, sem peso as rodas não tracionam e ela escapa mesmo.
No teste de asfalto pudemos sentir o vigor, ou melhor, o torque de 51 kgfm do 2.8 Turbodiesel. Para efeito de comparação, a Toyota Hilux, sua rival, quando equipada com o motor 3.0 turbo de 171 cv rende 35 kgfm de torque aos 3.400 giros. Um número bem inferior que, na prática, faz diferença.
Uma curiosidade referente ao torque é que a mesma motorização que equipa a versão High Country gera 45 kgfm (seis quilos a menos) quando acoplada a um câmbio manual (disponível para cabine simples). Isso porque, as modernas transmissões automáticas permitem que se controle a pressão de calibragem direto no conversor de torque.
Na versão top de linha, a representante japonesa no segmento das picapes médias custa R$ 182.850, bem mais que a S10, que se sai melhor no preço, mas também poderia evoluir em outros aspectos. Os freios, por exemplo, emboram sejam anti-travamento (ABS) com sistema de distribuição de frenagem (EBD), ainda são a tambor na traseira da picape da Chevrolet, enquanto a Hilux utiliza discos ventilados em todo o conjunto. Outra concorrente, a Ford Ranger, também possui freios a tambor na traseira - ela parte de R$ 160.900 na versão top de linha equipada com motor 3.2 diesel de 200 cv de potência.
No campo de provas da GM Cruz, em Indaiatuba, a S10 mostrou bom desempenho, especialmente nas arrancadas e no acerto da suspensão, recalibrada desde a última atualização do modelo. O controle eletrônico de estabilidade ajuda no comportamento dinâmico da caminhonete, que agradou, mesmo em curvas de alta velocidade.
A S10 High Country chega às lojas no final de agosto, junto com uma nova configuração inédita, a Freeride, que também pudemos experimentar. Esta versão fica entre a LT e a LTZ, custa R$ 95.340, é equipada com o motor 2.5 Ecotec de 206 cv, transmissão manual de seis marchas e um pacote de equipamentos razoável.
Vai agradar?
A S10 foi lançada em 1995 e foi a primeira picape média produzida no Brasil. Líder de vendas desde que chegou ao mercado, já acumula 600 mil unidades emplacadas. A estratégia da GM foi certeira, oferecer um maior número de versões com foco em diferentes necessidades. A Freeride oferece um pacote equilibrado, a Advantage foca no custo-benefícioa, a Chassis Cab na personalização e a cereja do bolo, High Country, para um público mais exigente.
Segundo a Chevrolet, as vendas da versão High Country devem representar 6% no número total de emplacamentos da picape. Seus possíveis compradores pertencem a um nicho que não está sofrendo com a crise, cuja vida no meio campo/cidade exije um veículo confiável, apto ao traballho, mas que não deixe o luxo de lado. Nos dias de hoje, melhor mesmo não trocar o certo pelo duvidoso.