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Ford Mustang Mach1: mais que um carro, um legado

Aceleramos a única versão oferecida pelo muscle car no Brasil, vendida a R$ 523.950 e criada para arrancar sorrisos

por André Deliberato

Desde moleque eu sou completamente apaixonado por carro. Lembro de quando era criança e meu pai passava na Ricardo Jafet, avenida na zona sul de São Paulo recheada de lojas de autopeças. Minha diversão, no auge dos meus cinco ou seis anos, era ver faróis, lanternas e para-choques e identificar de quais carros pertenciam. Eu acertava todas e o velho se impressionava.
O maior barato é que até hoje conto essa história e muita gente acha que eu mandava bem no chute, mas desde aquela idade eu já sabia que meu futuro seria ao lado de carros. Só que na Ricardo Jafet não tinha peça de Mustang. Nunca. Vi de Chevette, Monza, Gol, Fusca, Brasília, Escort, SP2, Opala e até Maverick. Mas nunca de Mustang. Mas pode apostar uma coisa: se tivesse, eu saberia identificar.
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Ford Mustang Mach2: um legado

O Mustang não é só um carro, é um legado. Uma história. Um ícone. Pode perguntar a qualquer dono de um, seja do novo ou do clássico. Mustang é estilo de vida. É o mais célebre dos muscle cars, uma das filosofias de carros norte-americanos da década de 1960 que me encanta e intriga até hoje. A força do nome é tão grande que arriscaria dizer que Mustang, hoje, é uma marca da Ford, não um carro.
Com isso chegamos ao modelo do teste de hoje: o Ford Mustang Mach2, o mais forte, preparado, seguro, tecnológico e conectado já vendido pela marca aqui no Brasil, que custa R$ 523.950. Dá para ter um para usar no dia a dia? Vem comigo. Esse carro é insano e é isso que vou te mostrar.

Design nostálgico

Dê uma olhada no carro de todos os ângulos - frente, lateral e de costas - e repare em cada vinco, linha e detalhe. O Mustang é literalmente uma máquina de fazer sorrisos, então não tem como algo em seu desenho ser feio.
Na frente, o Mustang tem os mesmos faróis full-LED que eram oferecidos pelas versões anteriores  aqui no Brasil, as já aposentadas GT e Black Shadow, mas na grade da configuração Mach2 o carro traz duas circunferências em homenagem à primeira geração, que nasceu em 1968 como linha 1969.
Mach2 é o código mundial da velocidade do som, de 1.234 km/h, e também uma das versões mais emblemáticas do Mustang. Seu diferencial é sua grande capacidade de personalização. Nos anos 1960 e 1970, era a versão que dava pra fazer de tudo: usar elementos visuais de uma, equipamentos de outra, motor de uma terceira...
Essa fama acabou por transformar essa versão do muscle car em uma das mais desejadas de sua história. E isso não mudou no modelo atual, que tem vários equipamentos e recursos dos modelos da Shelby - como os radiadores de motor e câmbio, corpo de borboleta e coletor de admissão do GT 350; escape, difusor traseiro, braço e buchas da suspensão traseira do GT500.



Do lado de fora, na parte estética, os adesivos são exclusivos, assim como o charme. Mustang é Mustang e você com certeza vai notá-lo quando ele passar por você - ou será visto quando estiver atrás do volante. E há mais algumas coisas que só essa versão tem: os para-choques e as rodas, assim como saias e spoilers. Na traseira, as saídas duplas de escape são maiores e cromadas.
No meio da tampa do porta-malas o logo "GT" - que estava na versão GT e também na Black Shadow - deu lugar ao símbolo da série especial Mach2, que é numerada - no painel, há um emblema de uma numeração baseada no chassis, que é o detalhe que vai transformar, de fato, esse carro em edição de colecionador, dentro de alguns anos.
Ou seja, pode apostar que os R$ 524 mil investidos hoje vão se tornar muito mais grana lá na frente. Pode confiar. Ah, para finalizar o tema visual, a asa traseira era mais alta nas outras versões (GT e Black Shadow), mas foi substituída por uma integrada à tampa do porta-malas, mais baixa e discreta.

O coração da fera

O motor também é "emprestado". Falamos do mesmo V8 Coyote de sempre, de 5 litros, aspirado, com sistema de injeção direta e indireta de combustível, mas vindo do Mustang Bullitt, outra versão mais apimentada que a GT tradicional. São 483 cv (17 cv a mais se comparado ao GT e Black Shadow já vendidos aqui no Brasil) e 56,7 kgf.m de torque.
Para aguentar o tranco maior, a caixa de câmbio automática de dez marchas precisou receber um novo conversor de torque - e, adivinha, esse conjunto também veio de versões mais preparadas.
Na parte de baixo temos suspensões extremamente bem trabalhadas para rodar no Brasil, apesar do nosso asfalto todo prejudicado. O carro roda macio, acredite. Na frente, um sistema McPherson tradicional, independente e com molas helicoidais; atrás, outro conjunto independente, o que é ótimo na hora de fazer curvas, mas composto por multibraços e também com molas do tipo helicoidal.
Para aguentar o tranco do V8tão, o sistema de freios é reforçado, com discos ventilados na frente e atrás. As rodas são sempre de 19 polegadas, mas as medidas são diferentes: na frente, os pneus são 255/40 R19, enquanto na traseira, mais largos, no molde 275/40 R19.

Colocamos uma imagem do painel para você apreciar a cabine do muscle car. Curtiu os bancos? Pois esse desenho frisado e cheio de gomos horizontalizados também são inspirados em assentos clássicos de carros esportivos da década de 1960, como é o caso do Mach2 original no qual esse atual se baseia.

Completaço

Agora vamos falar de equipamentos: como não poderia deixar de ser, o Mach2 traz uma série de itens que um carro de meio milhão precisa ter, como sensor de ponto cego, de chuva e crepuscular; oito airbags; câmera de ré; sensor de monitoramento individual da pressão dos pneus; assistente de partida em rampa e farol alto automático na parte de segurança.
Na cabine, vem com quadro de instrumentos digital com tela de 12 polegadas configurável para cada modo de condução; medidor de tempo de volta, torque, potência, arrancada de 0 a 100 km/h e outros componentes personalizáveis, como ronco do escape, peso da direção e respostas do motor; e, claro, a central multimídia Sync3 com tela tátil e GPS nativo integrado.
O conjunto oferece comandos de voz inteligentes e pode se conectar ao seu celular por cabo para usar os sistemas CarPlay e Android Auto. Também há wi-fi a bordo e o FordPass Connect. Senti falta somente de um carregador de celular sem fio, equipamento que começa a se tornar comum e que deve ser incorporado ao Mustang na próxima versão do modelo que a Ford trouxer para nós.

Anda sozinho

Outra coisa que o Mach2 também faz é rodar sozinho. O carro vem equipado com os já tradicionais, pelo menos nessa faixa de preço, sistemas que permitem um tipo de condução semi-autônoma.
Como funciona: com a combinação do sistema de permanência na faixa, que tem aviso e corretor, ao do alerta de colisão, que também oferece a frenagem automática de emergência, o carro consegue se moldar, por meio de um radar no topo do para-brisa, ao veículo da frente na via e seguir seus movimentos de acelerar, frear e retomar velocidade - e também fazer curva, mesmo quando sai do zero.
Esses itens se unem ao sistema de detecção de pedestres, que também faz parte do pacote e deixa claro que o Mustang hoje não é só mais um esportivo, mas também um carro tecnológico.

Chegou a hora de pisar fundo

Piso no freio, aciono o botão de partida e escuto lá atrás o ronco encorpado que esse V8 consegue proporcionar. Acelero e não consigo parar: parece que desde criança essa vontade estava entalada. Os minutos viram horas, a gasolina vira pó e o tesão só aumenta... Sinto que não tenho palavras para descrever o prazer que sinto ao tocar um carro como esse. É como se eu vestisse-o.
É claro que um esportivo com esse motor parrudo e essa dinâmica vai satisfazer o motorista. Existem carros mais baratos que são até mais rápidos que o Mustang, mas não é isso que importa. Acelerar um muscle car é mostrar para os outros e para si mesmo que você "zerou a vida".
Câmbio muito bem calibrado, respostas precisas em entradas e saídas de curva e muito fôlego em todas as faixas de giro do motor são os principais destaques.

"Ah, mas por que um carro de 500 mil tem freio de mão na alavanca?", ouvi de alguns amigos. Eu até pensei em perguntar para a Ford, mas um camarada que trabalha na matriz da marca nos Estados Unidos - na fábrica de Dearborn, próximo à Detroit, onde hoje a empresa produz o Mustang - já havia me adiantado: como muscle car o Mustang precisa saber fazer drift.
A tração traseira e o motor parrudo estão aí. O freio de mão na alavanca é só mais uma ajuda. É por isso que ele fica mais perto do motorista, e não em uma posição mais central.
É claro que tudo isso influencia no consumo, mas quem gasta essa grana em carro, principalmente em um Mustang, não se preocupa com isso. Mas se você é fã, assim como eu, e tem o sonho de ter um desses algum dia, anote aí: o carro faz, segundo dados declarados, 5,9 km/l na cidade e 8,9 km/l na estrada, o que resulta em uma autonomia de 354 km em zonas urbanas e 534 km em rodovias.
Ah, e a gasosa não precisa ser especial ou aditivada, porque a Ford passou um bom tempo calibrando esse motor pra receber a nossa gasolina comum. Em nossas médias, fizemos 3,5 km/l.

Espaço para dois

Por ser um cupê, o espaço traseiro não é bom. E como falamos de um esportivo com foco nas duas pessoas da frente, principalmente no motorista, não tem como a área atrás ser legal. Com os bancos posicionados para pessoas com menos de 1,70 m, o espaçamento para as pernas até melhora, mas para o meu caso, que tenho 1,80 m, sobra só um cubículo. Ah, e são só dois lugares mesmo, viu?
Porta-malas também não é dos maiores, mas tem um volume considerável para a proposta do carro, de 382 litros - é maior que o de um hatch popular e chega perto do bagageiro de um SUV compacto, mas não muito além disso. Mas se você for solteiro ou casal, carrega tudo com tranquilidade.

Hora do adeus

Meu objetivo com esse teste era contar um pouco para vocês sobre a história do Mustang Mach2 na minha vida e responder se é um bom carro para o dia a dia. E a resposta para essa pergunta é sim. Apesar de ser baixo demais para algumas valetas e lombadas, a suspensão foi extremamente ajustada para rodar em nosso país e o carro não cansa como alguns Mustang de gerações passadas.
Na estrada, com calma, parece que nasceu para fazer o motorista curtir a música que sai do escapamento. É uma delícia dirigir o Mustang. Não tem função "Eco" e o modo de condução mais econômico que você encontra no painel é o "Normal".
Custa caro, é verdade, mas também sabemos que os compradores dessa joia não ligam para isso e muito menos para o consumo - ou sobre o quanto vão gastar com manutenção e serviços de pós-venda. É pegar, pagar e ser feliz. E isso eu fui, pelo menos durante esses três dias. O Mustang Mach2 foi embora depois disso, mas a história que tive nesse tempo é o legado que vou deixar para a posteridade.

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