Antes de iniciar esta avaliação do novo X60, utilitário que a Lifan Motors traz para o Brasil pelo preço de R$ 52.777 (mais para frente você entenderá o valor meio “fora do padrão”), é importante que o amigo leitor entenda o momento da marca no País e a missão que este utilitário recebe. Por isso, falemos de mercado e depois vamos pôr a mão na massa.
A tática das marcas chinesas, desde que começaram a vender seus veículos por aqui, é bastante simples: oferecer carros com uma vasta lista de equipamentos com preços mais “baixos”. Tal esquema ajuda a quebrar um pouco o fato de elas serem desconhecidas do grande público.
E a Lifan, além de ter de enfrentar essa desconfiança, ainda tem que limpar sua barra após um início meio, digamos, desordenado no mercado brasileiro. As operações da marca eram controladas por um grupo importador que trazia para cá o 320 (clone do Mini Cooper) e o sedã 620.
Após vários problemas,
a matriz assumiu o comando no último semestre de 2012 e resolveu começar tudo do zero. Desta forma, uma nova sede se estabeleceu em Salto (SP), 320 e 620 pararam de ser vendidos, 25 concessionárias assumiram as vendas (serão 50 até o fim do ano) e chega o X60 – montado na unidade fabril da Lifan no Uruguai.
A campanha publicitária que a Lifan criou para o X60 tem os dizeres “tudo” e “por isso”. O “tudo” diz respeito à lista de equipamentos recheada do utilitário. Já o “por isso” faz referência aos R$ 52.777 pedidos pela marca. Antes de conhecermos os itens, abrimos parênteses com uma curiosidade sobre este preço. É comum vermos as montadoras definirem os valores do seus carros na casa do “900” ou “999”. A opção da Lifan pelos 777 reais além dos 52 mil é simples: pegue o logo da marca (com os 3 l´s) e vire-o de ponta cabeça. Voilá.
O X60 vem equipado com sistema multimídia com DVD, GPS, MP3, Bluetooth, CD Player, entrada USB e rádio AM/FM com tela de 7 polegadas, antena externa “shark”, tudo com controle também no volante ou por controle remoto. Também traz câmera de ré e sensor de estacionamento, airbag duplo, sistema de freios com ABS e EBD, retrovisores elétricos, ar condicionado, rodas de alumínio de 16”, rack de teto, entre outros.
Uma lista que chama a atenção perante seus concorrentes – Ford EcoSport e Renault Duster. A versão mais básica do modelo da Ford não sai por menos de R$ 54.800, enquanto o utilitário francês, “pelado”, custa R$ 49.990.
Com perfil típico dos veículos utilitários, o design do X60 quer passar uma imagem de robustez. A grade frontal tem frisos cromados horizontais e deixam a frente do carro com um ar agressivo que é complementado pelo conjunto óptico dianteiro com faróis biparábola e luz diurna em LED, além dos faróis de neblina embutidos no para-choque. O conjunto óptico do Lifan X60 tem ainda luzes em LED sinalizadoras de direção (piscas) nos dois espelhos retrovisores e na traseira as lanternas são também em LED com formato trapezoidal.
Sob o capô está o motor 1,8L VVT de 4 cilindros em linha transversal, com 4 válvulas por cilindro e 1794 cc de capacidade cúbica. O bloco trabalha com o auxílio de uma caixa de transmissão manual de cinco marchas. O conjunto é capaz de entregar 128 cv de potência a 6.000 rpm e 16,8 kgfm de torque a 4.200 giros.
Seria muito exagero usar o famoso ditado “quando a esmola é demais, o santo desconfia” para o X60. Mas é importante avaliar que “nem tudo é o que parece” em meio a tantos itens e facilidades.
Como falamos, a Lifan já tem nas costas um modelo que ficou conhecido como “clone do Mini Cooper”. Não estou dizendo que o X60 é clone de algum modelo, mas ele usa elementos que despertam uma sensação de “deja vù” a alguns olhos mais atentos.
Começando pelo nome: quem lê X60 pode lembrar do utilitário XC60, da Volvo. Já a frente do jipinho chinês lembra o antigo Hyundai Santa Fe e a traseira pode confundir com as formas do Chevrolet Captiva.
O visual da cabine é agradável, mas é fácil achar rebarbas e peças mal encaixadas. A escolha pela cor bege para o acabamento é algo que tende a não agradar o público brasileiro. Durante a coletiva de imprensa no lançamento do carro, executivos da marca admitiram que outros tipos de acabamentos estão sendo estudados para uma futura versão do X60. Tal variante também contaria com câmbio automático, que é muito apreciado entre os compradores de modelos do segmento.
Pesando 1.330 kg, o torque chega em um regime de rotações mais elevado. É preciso subir o giro a mais de 3.000 rpm para se obter uma resposta. A 120 km/h, o motor beira os 4.000 rpm. O barulho do bloco se mistura a um verdadeiro zunido do câmbio – que lembra o de uma turbina – e todo esse ruído chega na cabine sem pedir licença.
O câmbio foi uma grata surpresa. Apesar do curso longo, os engates são precisos e suaves. Em ciclo urbano, o conjunto trabalha bem e não são exigidas muitas trocas de marcha.
A carroceria rola demais em mudanças de direção, enquanto o volante, um pouco “bobo”, exige mais atenção em velocidades mais altas. O carro mostra uma certa instabilidade acima dos 90 km/h e essa falta de “peso” no volante transmite naturalmente uma sensação de insegurança.
O X60 chega ao mercado como um divisor de águas na vida da Lifan no Brasil. Por tudo que falamos acima sobre suas características, a impressão que fica é que a marca – fundada em 1992 – ainda carece de um DNA, uma identidade própria.
Contudo, o modelo certamente ajuda a apagar a imagem negativa deixada no passado. O X60 é uma evolução notável da marca no que diz respeito à tecnologia e acabamento em relação ao 320, por exemplo.
Com a intenção de comercializar 400 unidades do utilitário por mês, a marca tenta abrir caminho para novos passos no seu futuro por aqui. Já estão confirmados para 2013 dois novos modelos: o sedã médio 530 e o Foison Pick-Up.
A nova operação nas mãos da matriz contará com um investimento de R$ 15 milhões em peças de reposição. A marca também afirma estudar os termos do Inovar Auto para construir uma planta no Brasil, além de aumentar a capacidade de sua fábrica no Uruguai.